Politica

Bolsonaro faz apelo a empresários para "jogarem pesado" contra governadores

Bolsonaro instiga representantes da indústria a ''jogarem pesado'' contra gestores estaduais que estariam ''tentando quebrar a economia para atingir o governo'' ao adotar isolamento social. Presidente da Fiesp diz que setor ''está alinhado com a política econômica'' do Planalto

Marina Barbosa, Augusto Fernandes, Ingrid Soares
postado em 15/05/2020 06:00
Na reunião remota com empresários, Bolsonaro pregou que ''nós devemos buscar cada vez mais rápido abrir o mercado'' e disse que o Brasil está em ''guerra''Na ânsia pela retomada das atividades econômicas no Brasil em plena pandemia da covid-19 ; que já matou quase 14 mil pessoas no país ;, o presidente Jair Bolsonaro apelou a empresários para que eles ;joguem pesado; contra os governadores que têm adotado medidas de isolamento social mais rígidas. Em videoconferência com cerca de 50 representantes da indústria, o chefe do Executivo equiparou o momento do país a uma ;guerra; e reclamou de gestores estaduais que estariam ;tentando quebrar a economia, para atingir o governo;. Ao pedir ajuda à classe, ele ouviu dos empresários a promessa de ;começar a abrir o comércio com responsabilidade;.

Como de costume, Bolsonaro usou o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), como principal alvo e reclamou que boa parte dos líderes dos estados estejam ;partindo para a desobediência civil; por não seguirem os decretos do governo federal que definem quais atividades são essenciais em meio à crise sanitária. Enfaticamente, o presidente pregou que ;nós devemos buscar cada vez mais rápido abrir o mercado; e voltou a defender que vida e desemprego são assuntos ;que deviam ser tratados da mesma forma, com a mesma responsabilidade;.

;O que parece que está acontecendo é uma questão política, tentando quebrar a economia para atingir o governo. E essa medida sobre São Paulo, ameaça de ;lockout; (ele quis se referir a lockdown), ou seja, um apagão total, é inimaginável;, disparou. ;Um homem está decidindo o futuro de São Paulo, está decidindo o futuro da economia do Brasil. Os senhores, com todo o respeito, têm que chamar o governador e jogar pesado, porque a questão é séria, é guerra. É o Brasil que está em jogo.;

Bolsonaro também comentou que, se dependesse da vontade dele, nunca teria implementado medidas de isolamento social. ;O governo federal, se depender de nós, está tudo aberto com isolamento vertical, e ponto final. Os governadores assumiram cada um a sua responsabilidade, houve uma concorrência entre muitos para ver o que fechava mais;, criticou, alertando que ;nós estamos vendo o navio chamado Brasil indo em direção ao iceberg e um esperando o outro fazer alguma coisa;.

Na reunião virtual, também houve ataques ao Congresso. Bolsonaro chegou a dizer que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), ;parece que quer afundar a economia para ferrar o governo e, talvez, tirar proveito político lá na frente;, sobretudo por ele ter entregado ao deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) a relatoria da Medida Provisória (MP) 936, que permitiu a suspensão do contrato de trabalho e a redução da jornada de trabalho, com a redução proporcional do salário. ;Quando se bota alguém do PCdoB... Só no Brasil mesmo, o Partido Comunista do Brasil falar em democracia e liberdade do trabalho. Então, a tendência é a gente afundar mesmo.; Horas depois desse ataque, Maia encontrou-se com o presidente e disse que eles precisam ;encontrar pontos que os unem; (leia reportagem na página 4).

;Alinhamento;
Responsável por promover a reunião, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, colocou à disposição de Bolsonaro ;todas as forças produtivas do país; e garantiu que os empresários vão atender aos pleitos do governo federal. Ele destacou que o setor ;está alinhado com a política econômica do governo;.

O empresário se comprometeu em ;conversar com as lideranças do Congresso e as presidências das Casas para que as coisas que interessam ao Brasil sejam aprovadas;. ;Talvez, a gente tenha de encontrar um caminho de entendimento, de um alinhamento, de uma harmonia em torno de toda as cautelas da saúde, mas haver uma retomada (da economia) com toda a responsabilidade. Em momentos de guerra e atípicos como este, não basta fazer o máximo. Tem de fazer mais do que o máximo;, disse o apoiador de Bolsonaro, filiado ao MDB e já concorreu três vezes ao governo de São Paulo.

Em mais um aceno ao presidente, Skaf condenou que ;pessoas radicais de alguns estados; estejam travando a atividade produtiva e que há uma ;descentralização e falta de alinhamento; entre os entes federativos. ;Nós vamos nos empenhar ao máximo em encontrar caminhos com criatividade;, ressaltou. ;Vamos procurar ajudar o Brasil a sair desta situação o mais rapidamente possível com o menor prejuízo possível aos brasileiros. A sua vontade é a nossa vontade também, presidente.;

Doria rebate
O governador de São Paulo, João Doria, emitiu nota, ontem, na qual afirma que o presidente Jair Bolsonaro ;despreza vidas;. ;Hoje (ontem), mais uma vez, o presidente da República perde a chance de defender a saúde e a vida dos brasileiros. São Paulo está lutando para proteger vidas. O presidente Jair Bolsonaro despreza vidas. Ele prefere fazer comícios, andar de jet ski, treinar tiros e fazer churrasco;, disparou. ;Enquanto isso, milhares de brasileiros estão morrendo todos os dias. Acorde para a realidade, presidente Bolsonaro. Saia da bolha de ódio e comece a ser um líder, se for capaz;, afirma o tucano no texto.
Guedes: "Os senhores têm de se mover"

O ministro da Economia, Paulo Guedes, pediu ao empresariado brasileiro que deixe claro o apoio à postura adotada pelo governo federal durante a pandemia do novo coronavírus. ;Os senhores têm que se mover, têm que nos ajudar. Os senhores têm capacidade de influir. Disparem essas campanhas publicitárias. Lancem essa ajuda à gente;, afirmou, na videoconferência que teve a participação do presidente Jair Bolsonaro e de empresários.

Guedes argumentou que Bolsonaro ;está falando praticamente sozinho há 60 dias; sobre a necessidade de manter a economia funcionando e ;está sendo apedrejado por isso;. ;O presidente está estendendo a mão, não está ameaçando ninguém, está pedindo ajuda. Pensem o que vai acontecer com o PIB brasileiro, o que vai acontecer com o emprego se essa crise se aprofundar;, insistiu.

O titular da Economia ainda sugeriu que os empresários que conversaram com o Executivo por intermédio do presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, também procurassem os demais poderes para expressar a preocupação com a retomada da economia. O Judiciário, porque o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que governadores têm autonomia para decidir sobre as medidas de distanciamento social; e o Legislativo, porque o governo entende que é preciso avançar com a agenda de reformas no Congresso para garantir uma recuperação rápida no pós-covid-19.

Sobre o relaxamento do isolamento social, Guedes afirmou que a doença existe e ;é triste;, mas frisou ;que existe também uma realidade que está chamando a atenção há 60 dias e que está, agora, na percepção dos senhores que são empresários, virando uma realidade ameaçadora;. Segundo o ministro, a economia brasileira ainda tem ;os sinais vitais vivos; e pode se recuperar rápido por conta disso, mas ele vê essa possibilidade cada vez mais distante à medida que as atividades econômicas continuam paradas.

;Uma coisa é ficar certo tempo fechado, outra coisa é, de repente, descontinuar a produção nacional e mergulhar numa depressão. Esse é o alerta do presidente. Não queremos pressionar nenhum poder. O que o presidente está dizendo é que ;não está ao meu alcance, a decisão desceu para os governadores;. Ora, por que não desceu para os prefeitos, que é onde as pessoas vivem? Então, reflitam sobre esse alerta;, discursou Guedes.

Congresso
Em relação ao Congresso, o ministro disse que os parlamentares podem contribuir com a retomada econômica se aproveitarem este momento de quarentena para avançar com as reformas e com os marcos regulatórios do saneamento, do petróleo e gás e da energia barata ; projetos que, segundo a equipe econômica, podem ajudar a atrair investimentos privados e gerar empregos no pós-pandemia. Ele ainda lembrou que os empresários que estavam participando da conversa tinham acesso direto aos parlamentares.

;Precisamos do apoio dos senhores, que sempre financiaram campanha eleitoral, que têm acesso a todos os parlamentares, que têm intimidade com o presidente da Câmara e com o presidente do Senado. Os senhores têm os acessos, trabalhem esse acesso para nos apoiar;, pediu. O ministro ainda aproveitou a deixa para pedir que os empresários mostrassem a deputados e senadores a importância de fazer com que o dinheiro da saúde não vire aumento salarial para os servidores públicos, argumentando que não basta o presidente vetar essa medida se depois o Congresso derrubar o veto e permitir o reajuste.

Perdas
Cálculos apresentados na quarta-feira pela equipe econômica explicam que cada semana de quarentena pode gerar uma perda de R$ 20 bilhões para a economia brasileira. Por isso, o Ministério da Economia já avisou que a previsão de que o Produto Interno Bruto (PIB) vai cair 4,7% neste ano deve ser piorada, se as medidas restritivas se estenderem por junho.

Promessa de mais crédito
O Ministério da Economia deve lançar, na próxima semana, novas medidas de crédito para tentar atender os empresários que têm se queixado da dificuldade de obter financiamentos. A ideia é estender o programa de financiamento da folha para as empresas de grande porte, ampliar a oferta de capital de giro e colocar para rodar a linha de crédito já aprovada pelo Congresso que promete financiar as micro e pequenas empresas. O governo vai apostar no Fundo Garantidor de Investimento para oferecer capital de giro. A ideia é injetar cerca de R$ 20 bilhões no fundo e permitir que os bancos alavanquem esse recurso para que o orçamento chegue perto dos R$ 100 bilhões.

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