Publicidade

Correio Braziliense

Bolsonaro faz apelo a empresários para "jogarem pesado" contra governadores

Bolsonaro instiga representantes da indústria a ''jogarem pesado'' contra gestores estaduais que estariam ''tentando quebrar a economia para atingir o governo'' ao adotar isolamento social. Presidente da Fiesp diz que setor ''está alinhado com a política econômica'' do Planalto


postado em 15/05/2020 06:00 / atualizado em 15/05/2020 06:26

Na reunião remota com empresários, Bolsonaro pregou que ''nós devemos buscar cada vez mais rápido abrir o mercado'' e disse que o Brasil está em ''guerra''(foto: Marcos Correa/PR)
Na reunião remota com empresários, Bolsonaro pregou que ''nós devemos buscar cada vez mais rápido abrir o mercado'' e disse que o Brasil está em ''guerra'' (foto: Marcos Correa/PR)
Na ânsia pela retomada das atividades econômicas no Brasil em plena pandemia da covid-19 — que já matou quase 14 mil pessoas no país —, o presidente Jair Bolsonaro apelou a empresários para que eles “joguem pesado” contra os governadores que têm adotado medidas de isolamento social mais rígidas. Em videoconferência com cerca de 50 representantes da indústria, o chefe do Executivo equiparou o momento do país a uma “guerra” e reclamou de gestores estaduais que estariam “tentando quebrar a economia, para atingir o governo”. Ao pedir ajuda à classe, ele ouviu dos empresários a promessa de “começar a abrir o comércio com responsabilidade”.

Como de costume, Bolsonaro usou o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), como principal alvo e reclamou que boa parte dos líderes dos estados estejam “partindo para a desobediência civil” por não seguirem os decretos do governo federal que definem quais atividades são essenciais em meio à crise sanitária. Enfaticamente, o presidente pregou que “nós devemos buscar cada vez mais rápido abrir o mercado” e voltou a defender que vida e desemprego são assuntos “que deviam ser tratados da mesma forma, com a mesma responsabilidade”.

“O que parece que está acontecendo é uma questão política, tentando quebrar a economia para atingir o governo. E essa medida sobre São Paulo, ameaça de ‘lockout’ (ele quis se referir a lockdown), ou seja, um apagão total, é inimaginável”, disparou. “Um homem está decidindo o futuro de São Paulo, está decidindo o futuro da economia do Brasil. Os senhores, com todo o respeito, têm que chamar o governador e jogar pesado, porque a questão é séria, é guerra. É o Brasil que está em jogo.”

Bolsonaro também comentou que, se dependesse da vontade dele, nunca teria implementado medidas de isolamento social. “O governo federal, se depender de nós, está tudo aberto com isolamento vertical, e ponto final. Os governadores assumiram cada um a sua responsabilidade, houve uma concorrência entre muitos para ver o que fechava mais”, criticou, alertando que “nós estamos vendo o navio chamado Brasil indo em direção ao iceberg e um esperando o outro fazer alguma coisa”.

Na reunião virtual, também houve ataques ao Congresso. Bolsonaro chegou a dizer que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), “parece que quer afundar a economia para ferrar o governo e, talvez, tirar proveito político lá na frente”, sobretudo por ele ter entregado ao deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) a relatoria da Medida Provisória (MP) 936, que permitiu a suspensão do contrato de trabalho e a redução da jornada de trabalho, com a redução proporcional do salário. “Quando se bota alguém do PCdoB... Só no Brasil mesmo, o Partido Comunista do Brasil falar em democracia e liberdade do trabalho. Então, a tendência é a gente afundar mesmo.” Horas depois desse ataque, Maia encontrou-se com o presidente e disse que eles precisam “encontrar pontos que os unem” (leia reportagem na página 4).

“Alinhamento”
Responsável por promover a reunião, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, colocou à disposição de Bolsonaro “todas as forças produtivas do país” e garantiu que os empresários vão atender aos pleitos do governo federal. Ele destacou que o setor “está alinhado com a política econômica do governo”.

O empresário se comprometeu em “conversar com as lideranças do Congresso e as presidências das Casas para que as coisas que interessam ao Brasil sejam aprovadas”. “Talvez, a gente tenha de encontrar um caminho de entendimento, de um alinhamento, de uma harmonia em torno de toda as cautelas da saúde, mas haver uma retomada (da economia) com toda a responsabilidade. Em momentos de guerra e atípicos como este, não basta fazer o máximo. Tem de fazer mais do que o máximo”, disse o apoiador de Bolsonaro, filiado ao MDB e já concorreu três vezes ao governo de São Paulo.

Em mais um aceno ao presidente, Skaf condenou que “pessoas radicais de alguns estados” estejam travando a atividade produtiva e que há uma “descentralização e falta de alinhamento” entre os entes federativos. “Nós vamos nos empenhar ao máximo em encontrar caminhos com criatividade”, ressaltou. “Vamos procurar ajudar o Brasil a sair desta situação o mais rapidamente possível com o menor prejuízo possível aos brasileiros. A sua vontade é a nossa vontade também, presidente.”

Doria rebate
O governador de São Paulo, João Doria, emitiu nota, ontem, na qual afirma que o presidente Jair Bolsonaro “despreza vidas”. “Hoje (ontem), mais uma vez, o presidente da República perde a chance de defender a saúde e a vida dos brasileiros. São Paulo está lutando para proteger vidas. O presidente Jair Bolsonaro despreza vidas. Ele prefere fazer comícios, andar de jet ski, treinar tiros e fazer churrasco”, disparou. “Enquanto isso, milhares de brasileiros estão morrendo todos os dias. Acorde para a realidade, presidente Bolsonaro. Saia da bolha de ódio e comece a ser um líder, se for capaz”, afirma o tucano no texto.
 
Guedes: "Os senhores têm de se mover"

O ministro da Economia, Paulo Guedes, pediu ao empresariado brasileiro que deixe claro o apoio à postura adotada pelo governo federal durante a pandemia do novo coronavírus. “Os senhores têm que se mover, têm que nos ajudar. Os senhores têm capacidade de influir. Disparem essas campanhas publicitárias. Lancem essa ajuda à gente”, afirmou, na videoconferência que teve a participação do presidente Jair Bolsonaro e de empresários.

Guedes argumentou que Bolsonaro “está falando praticamente sozinho há 60 dias” sobre a necessidade de manter a economia funcionando e “está sendo apedrejado por isso”. “O presidente está estendendo a mão, não está ameaçando ninguém, está pedindo ajuda. Pensem o que vai acontecer com o PIB brasileiro, o que vai acontecer com o emprego se essa crise se aprofundar”, insistiu.

O titular da Economia ainda sugeriu que os empresários que conversaram com o Executivo por intermédio do presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, também procurassem os demais poderes para expressar a preocupação com a retomada da economia. O Judiciário, porque o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que governadores têm autonomia para decidir sobre as medidas de distanciamento social; e o Legislativo, porque o governo entende que é preciso avançar com a agenda de reformas no Congresso para garantir uma recuperação rápida no pós-covid-19.

Sobre o relaxamento do isolamento social, Guedes afirmou que a doença existe e “é triste”, mas frisou “que existe também uma realidade que está chamando a atenção há 60 dias e que está, agora, na percepção dos senhores que são empresários, virando uma realidade ameaçadora”. Segundo o ministro, a economia brasileira ainda tem “os sinais vitais vivos” e pode se recuperar rápido por conta disso, mas ele vê essa possibilidade cada vez mais distante à medida que as atividades econômicas continuam paradas.

“Uma coisa é ficar certo tempo fechado, outra coisa é, de repente, descontinuar a produção nacional e mergulhar numa depressão. Esse é o alerta do presidente. Não queremos pressionar nenhum poder. O que o presidente está dizendo é que ‘não está ao meu alcance, a decisão desceu para os governadores’. Ora, por que não desceu para os prefeitos, que é onde as pessoas vivem? Então, reflitam sobre esse alerta”, discursou Guedes.

Congresso
Em relação ao Congresso, o ministro disse que os parlamentares podem contribuir com a retomada econômica se aproveitarem este momento de quarentena para avançar com as reformas e com os marcos regulatórios do saneamento, do petróleo e gás e da energia barata — projetos que, segundo a equipe econômica, podem ajudar a atrair investimentos privados e gerar empregos no pós-pandemia. Ele ainda lembrou que os empresários que estavam participando da conversa tinham acesso direto aos parlamentares.

“Precisamos do apoio dos senhores, que sempre financiaram campanha eleitoral, que têm acesso a todos os parlamentares, que têm intimidade com o presidente da Câmara e com o presidente do Senado. Os senhores têm os acessos, trabalhem esse acesso para nos apoiar”, pediu. O ministro ainda aproveitou a deixa para pedir que os empresários mostrassem a deputados e senadores a importância de fazer com que o dinheiro da saúde não vire aumento salarial para os servidores públicos, argumentando que não basta o presidente vetar essa medida se depois o Congresso derrubar o veto e permitir o reajuste.

Perdas
Cálculos apresentados na quarta-feira pela equipe econômica explicam que cada semana de quarentena pode gerar uma perda de R$ 20 bilhões para a economia brasileira. Por isso, o Ministério da Economia já avisou que a previsão de que o Produto Interno Bruto (PIB) vai cair 4,7% neste ano deve ser piorada, se as medidas restritivas se estenderem por junho.

Promessa de mais crédito
O Ministério da Economia deve lançar, na próxima semana, novas medidas de crédito para tentar atender os empresários que têm se queixado da dificuldade de obter financiamentos. A ideia é estender o programa de financiamento da folha para as empresas de grande porte, ampliar a oferta de capital de giro e colocar para rodar a linha de crédito já aprovada pelo Congresso que promete financiar as micro e pequenas empresas. O governo vai apostar no Fundo Garantidor de Investimento para oferecer capital de giro. A ideia é injetar cerca de R$ 20 bilhões no fundo e permitir que os bancos alavanquem esse recurso para que o orçamento chegue perto dos R$ 100 bilhões. 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade