Politica

Moro diz que Bolsonaro nunca implementou agenda anticorrupção

Segundo ex-ministro, não houve "um impulso" por parte do presidente para implementar projetos de combate à corrupção

Augusto Fernandes
postado em 24/05/2020 20:58

Ex-juiz da Lava-Jato e ex-ministro da Justiça Sergio MoroO ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro reforçou as acusações contra o presidente Jair Bolsonaro de que ele já quis interferir politicamente na Polícia Federal e disse que a atitude do mandatário de intervir na corporação por interesses próprios foi reflexo da falta de prioridade, por parte do governo federal, em implementar projetos de combate à corrupção.

Em entrevista ao programa Fantástico, da Rede Globo, na noite deste domingo (25/5), Moro elencou uma série de fatores para reclamar do pouco empenho de Bolsonaro nas propostas anticorrupção, como a retirada do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) do Ministério da Justiça e Segurança Pública e as recentes alianças do presidente da República com políticos do Centrão com histórico de corrupção em busca de mais apoio no Congresso, às quais ele definiu como ;realmente questionáveis;.

;Recentemente, nós vimos essas alianças que são realizadas com políticos que não têm um histórico totalmente positivo dentro da história da administração pública. É certo que é preciso ter alianças no parlamento para conseguir aprovar projetos. (Mas) eu acabei entendendo que não faz sentido permanecer no governo. Até porque, qual era a minha percepção, o governo se vale da minha imagem ; porque eu tenho um passado firme de combate à corrupção ;, e, de fato o governo, não está fazendo isso. Não está fortalecendo as instituições para o combate à corrupção;, comentou o ex-ministro.

Moro disse que tentou permanecer no governo, apesar das intrigas entre Bolsonaro e ele a respeito da Polícia Federal, que tiveram início ainda em 2019, porque ele ;tinha esperança de conseguir avançar com a agenda anticorrupção;. ;Mas eu fui vendo ela sendo esvaziada, e para mim a gota d;água foi essa interferência na Polícia Federal, em particular porque a PF também investiga malfeitos dos próprios governantes;, destacou.

Para o ex-ministro, a divulgação da gravação da reunião ministerial de 22 de abril deixou muito claras as intenções de Bolsonaro em promover mudanças na PF por interesses próprios. Segundo ele, ao falar sobre ;interferir; durante o encontro com o alto escalão do governo, o presidente não estava se referindo ao Gabinete de Segurança Institucional (GSI), visto que ela havia feito promoções no órgão semanas antes.

;Eu acho que o vídeo fala por si. Quando o presidente olha na minha direção, isso evidencia que ele estava falando desse assunto da Polícia Federal. E nós temos que analisar os fatos que ocorreram anteriormente. Ele não teve nenhuma dificuldade em alterar o serviço do GSI, inclusive do Rio de Janeiro;, analisou Moro.

Moro também revelou que se sentia incomodado pela forma com a que Bolsonaro enfrentava a pandemia do novo coronavírus à época da sua demissão, no fim de abril, e que não concordou com a saída de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde. Ele ainda opinou que Bolsonaro ;tem uma posição negacionista em relação à pandemia;.

;A própria questão das substituições no Ministério da Saúde, eu acho que são absolutamente controversas. Claro que o presidente escolhe seus ministros, mas são substituições bastante questionáveis do ponto de vista técnico. Eu também me sentia desconfortável com essa gestão, com a posição do governo federal em relação à pandemia. Muito pouco construtiva;, ponderou Moro.

Ele acrescentou que não poderia permanecer em um governo no qual ele não se visse representado, tanto que as reuniões ministeriais lhe ;geravam absoluto desconforto; e ;não eram ambientes favoráveis ao contraditório;. ;Eu acho que a minha lealdade ao próprio presidente necessita, demanda que eu me posicione com a verdade, com o que eu penso e não apenas concordando com a posição do presidente. Se for assim, não precisa de um ministro. Precisa de um papagaio.;

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