Politica

Moro acusa PGR de tentar atingi-lo em benefício de Bolsonaro

Força-tarefa, subordinada ao PGR, desengavetou a negociação de um acordo de delação premiada que pode atingir o advogado Carlos Zucolotto Júnior, amigo do ex-juiz

Jorge Vasconcellos
postado em 04/06/2020 06:00
Ex-juiz reclamou de negociação para acordo que pode prejudicar amigoUma decisão da Lava-Jato em Brasília alimentou rumores, no meio político, de que o procurador-geral da República, Augusto Aras, estaria agindo de acordo com interesses do presidente Jair Bolsonaro em desgastar a imagem do ex-ministro da Justiça Sergio Moro. A força-tarefa, subordinada ao PGR, desengavetou a negociação de um acordo de delação premiada que pode atingir o advogado Carlos Zucolotto Júnior, amigo do ex-juiz. As tratativas vêm sendo feitas com o advogado Rodrigo Tacla Duran, foragido na Espanha, que afirma ter pago US$ 5 milhões a Zucolotto em troca de vantagens em uma proposta de delação que foi rejeitada pela Lava-Jato de Curitiba em 2016. A própria PGR investigou os relatos do delator e arquivou o caso em 2018, após concluir que não ficou comprovada a prática de crimes.

Em nota divulgada ontem, Moro sugeriu que a decisão da Lava-Jato de Brasília é uma tentativa de atingi-lo para satisfazer os interesses do presidente. ;Causa-me perplexidade e indignação que tal investigação, baseada em relato inverídico de suposto lavador profissional de dinheiro tenha sido retomada e a ela dado seguimento pela atual gestão da Procuradoria-Geral da República logo após a minha saída, em 22/04/2020, do governo do presidente Jair Bolsonaro;, escreveu no comunicado.

À tarde, em conferência on-line realizada pela consultoria Arko Advice, Moro voltou ao tema. ;Fui surpreendido. Espero que não seja verdade, mas, se for, recebo com estranheza. Não posso fazer uma avaliação de intenção, mas por que reabrir agora, logo depois que eu deixo o governo?;, questionou. ;Se for verdade, estou tranquilo de que nada houve de errado na Lava-Jato. Nós é que sofremos muitos ataques de pessoas que, infelizmente, cometeram crimes e foram julgadas por eles.; Segundo Moro, Tacla Duran foi indiciado pela operação, fugiu do país e criou um álibi fraudulento.

A retomada das negociações entre as partes foi noticiada pelo jornal O Globo. Parlamentares ouvidos pelo Correio, que pediram anonimato, avaliam que a medida favorece o interesse de Bolsonaro de tornar Moro inelegível em 2022. Segundo esses congressistas, o presidente teme um possível racha em sua base eleitoral com uma eventual candidatura do ex-ministro. Bolsonaro já havia confidenciado a aliados que sempre percebeu, no agora adversário, uma movimentação política com vistas à próxima eleição presidencial.

O advogado paulista Tacla Duran, que também tem nacionalidade espanhola, era operador financeiro da Odebrecht em contas no exterior e teve seu acordo de delação recusado pela Lava-Jato de Curitiba por suspeita de omissão de atos ilícitos e ocultação de recursos. Essa nova negociação com a PGR se dá no momento em que Moro se tornou adversário de Bolsonaro, após ter pedido demissão, em 24 de abril, acusando o presidente de tentar interferir politicamente na Polícia Federal. As denúncias do ex-juiz estão sendo investigadas em um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF).

Sem envolvimento
A nova negociação entre Duran e PGR tem sido vista até mesmo por membros do Ministério Público Federal como uma possível retaliação de Aras a Moro. Porém, fontes do gabinete do procurador, ouvidas pela reportagem, asseguraram que as tratativas começaram por iniciativa dos advogados do delator, há aproximadamente três meses, portanto, antes das denúncias do ex-juiz contra Bolsonaro. Elas afirmaram, também, que Aras não está envolvido diretamente nas negociações, que são conduzidas pela subprocuradora-geral Lindora Maria Araújo, coordenadora da Lava-Jato em Brasília.

As tratativas avançaram mais recentemente e, no início de maio, foi assinado um termo de confidencialidade para formalizar a fase preliminar das negociações pelo acordo. Fontes próximas a Duran dizem que ele decidiu buscar um acerto com a Lava-Jato em Brasília por acreditar que Aras não está alinhado com os procuradores da força-tarefa de Curitiba.

Saiba mais

Acusações reiteradas

Na nova negociação com a PGR, o advogado Rodrigo Tacla Duran reitera relatos: afirma ter pago US$ 5 milhões, sob extorsão, ao advogado Marlus Arns, sócio de Zucolotto. Marlus e Zucolotto são ex-sócios da advogada Rosângela Moro, mulher do ex-ministro da Justiça. Segundo o delator, o objetivo do pagamento foi a obtenção de condições favoráveis na negociação de sua delação com a Lava-Jato em 2016, como a diminuição do valor de sua multa, acordada, inicialmente, em R$ 55 milhões ; essa vantagem não se concretizou, uma vez que o acordo foi recusado pela Lava-Jato. Zucolotto é amigo próximo e padrinho de casamento de Moro.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação