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Correio Braziliense

Onda de protestos contra o governo divide a oposição

Enquanto algumas lideranças pedem adiamento de manifestações contra o governo, por causa do vírus, outras defendem abrir exceção, especialmente devido a atos bolsonaristas


postado em 06/06/2020 07:00 / atualizado em 06/06/2020 03:47

Randolfe Rodrigues:
Randolfe Rodrigues: "Precisamos respeitar o isolamento social" / Gleisi Hoffmann: "PT apoia atos legítimos e pacíficos" (foto: Vinicius Cardoso/Esp. CB/D.A Press - 29/10/19 / Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press - 8/3/19 )
As curvas ascendentes de infectados e de mortos pelo novo coronavírus no Brasil e o apelo popular para manifestações contra o governo dividiram lideranças políticas da oposição sobre a onda de protestos que deve acontecer amanhã em Brasília e em outras capitais do país.

A principal dor de cabeça para as siglas é ter de contrariar o próprio discurso adotado em meio à crise sanitária da covid-19, de que é necessário ficar em casa e evitar aglomerações como formas de se proteger do vírus. No entanto, como há insatisfação por parte da população, devido à postura do presidente Jair Bolsonaro diante da pandemia e pelas provocações feitas por ele durante a semana a quem é contra o governo, alguns partidos entenderam ser preciso abrir uma exceção, especialmente porque, desde abril, atos bolsonaristas têm tomado ruas do país.

A principal iniciativa partiu do PT, que se manifestou a partir do líder da sigla no Senado, Rogério Carvalho (SE); da presidente nacional da agremiação, a deputada Gleisi Hoffmann (RS); e do líder na Câmara, Enio Verri (PR). Em nota oficial, intitulada “A democracia não pode ser intimidada”, eles defenderam a manutenção do movimento.

Os parlamentares destacaram que os protestos de rua contra o fascismo e o governo “são o fato novo na luta pela democracia e pela vida no Brasil”. O PT recomendou que os manifestantes “observem, da melhor maneira possível, as medidas recomendadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde), como uso de máscaras e o distanciamento social”.

Outras preocupações dos partidos envolvem possíveis confrontos entre manifestantes contrários e favoráveis ao governo e violência policial exagerada. Nos últimos dias, Bolsonaro chamou integrantes dos protestos de “terroristas, marginais, idiotas e viciados” e conclamou às Polícias Militares que impeçam “badernas”. Além disso, o presidente pediu que os seus apoiadores não saiam às ruas, mas há poucas chances de que seja atendido.

“Os militantes democráticos que participam destes atos devem, também, resistir às provocações e isolar os infiltrados, que já vêm agindo para tentar desvirtuar o caráter das manifestações e dar pretexto à repressão e ao discurso de fechamento do regime. Nós, do Partido dos Trabalhadores, somos solidários aos que participam destes atos e sofrem os ataques da repressão e de provocadores”, posicionou-se a legenda. “A tentativa de criminalização dos movimentos sociais e populares e das manifestações democráticas visa naturalizar o projeto neofascista e autoritário do atual governo, contrário aos interesses nacionais e aos direitos do povo.”

Uma nota das lideranças da minoria na Câmara, assinada pelo líder da bancada, José Guimarães (PT-CE); pelo vice-líder, Carlos Zarattini (PT-SP); e pelo líder da oposição, André Figueiredo (PDT-CE), seguiu a linha do PT. Nela, os parlamentares pedem que “os atos pró-democracia e contra o racismo e o fascismo sejam pacíficos, tendo a defesa da vida como foco central”.

“É nosso dever prevenir que provocadores e agitadores planejem se infiltrar nos movimentos para incitar conflitos, agressões e atos de vandalismo como forma de distorcer a intenção das manifestações e dar pretextos aos que flertam com o arbítrio e ameaçam o Estado democrático de direito. A defesa da democracia e das liberdades democráticas é dever de todos. Não há outro caminho fora da democracia e do respeito à Constituição.”

Contrários

Apesar do posicionamento de alguns dos parlamentares do PT, o senador Jaques Wagner (PT-BA), vice-líder da legenda no Senado, assinou um manifesto pedindo que os grupos adiem os protestos. Ele contou com o apoio do líder da oposição no Senado, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), e do líder do PDT na Casa, Weverton Rocha, além dos líderes do Cidadania, Eliziane Gama (MA); do PSB, Veneziano Vital do Rego (PB); e do PSD, Otto Alencar (BA).

“Os líderes dos diferentes partidos do Senado Federal, a saber, a Rede Sustentabilidade, o PSB, o PDT, o Cidadania, o PSD e o PT, vêm através desta nota desencorajar os brasileiros que, acertadamente, fazem oposição ao Sr. Jair Bolsonaro a irem às ruas nesse próximo domingo”, escreveram os senadores. “Nosso pedido parte da avaliação de que, não tendo o país ainda superado a pandemia, que agora avança em direção ao Brasil profundo, saindo das capitais e agravando nos interiores, precisamos redobrar os cuidados sanitários e ampliar a comunicação com a sociedade em prol do distanciamento social.”

A nota dos senadores da oposição afirma, ainda, que o posicionamento é importante, mas que é preciso adiar a ida às ruas “pelo bem da população”. “Ademais, observando a escalada autoritária do governo federal, devemos preservar a vida e segurança dos brasileiros, não dando ao governo aquilo que ele exatamente deseja, o ambiente para atitudes arbitrárias”, enfatiza o documento.

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