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Correio Braziliense

Não informar significa o estado ser mais nocivo que a doença, diz Mandetta

O ex-ministro da Saúde disse neste sábado que reduzir o acesso aos dados do novo coronavírus pode comprometer o combate à doença no Brasil


postado em 06/06/2020 18:18 / atualizado em 06/06/2020 19:53

(foto: SERGIO LIMA/AFP)
(foto: SERGIO LIMA/AFP)
Dificultar o acesso às informações sobre a pandemia do novo coronavírus pode comprometer o combate à covid-19, provocar uma nova onda de fake news sobre a doença e, assim, elevar ainda mais o número de vítimas do coronavírus no Brasil. Esta é a avaliação do ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que classificou como uma tragédia as ações que vêm sendo tomadas pelo governo de Jair Bolsonaro com o intuito de reduzir a transparência sobre os números da  covid-19 no Brasil.

"Não informar significa ao estado ser mais nocivo que a doença, ser mais nocivo que o vírus", declarou Mandetta. Ele explicou que o os brasileiros têm o direito à informação, sobretudo em um momento de pandemia como esse, já que é a informação que pode ajudar a população a se proteger do vírus e ajudar os próprios governantes a planejarem o enfrentamento adequado da doença. Por isso, afirmou que o Executivo tem o dever de informar, "racionalizar e formar juízo" na pandemia.

Mandetta foi questionado sobre a recente mudança do horário de divulgação do boletim que informa diariamente o número de casos e o número de vítimas da covid-19 no Brasil em live realizada pelo canal IDP neste sábado (06/06). O boletim era divulgado às 17h quando Mandetta estava à frente do Ministério da Saúde, mas depois passou para as 19h e nesta semana começou a ser liberado só depois das 22h, em uma tentativa do presidente Jair Bolsonaro de fazer com que os novos recordes diários de morte do novo coronavírus não fossem transmitidos nos principais jornais da televisão brasileira.

O ex-ministro disse que essa mudança causa "profunda estranheza" do ponto de vista da saúde, já que, segundo ele, o Ministério da Saúde tem condições de coletar e condensar os dados de todos os estados brasileiros até o final da tarde. "Agora, do ponto de vista político, aí se explica, no campo das ciências políticas, que é esconder números, manipular números, não deixar notícias ruins, não deixar a imprensa...", emendou Mandetta, que classificou essa tentativa de reduzir o acesso às informações como uma tragédia. É muito ruim. É uma tragédia o que estamos vendo, o desmanche da informação", declarou.

Mandetta ainda afirmou que esconder os dados sobre os contaminados e as vítimas do coronavírus é ruim em vários sentidos, já que, além de serem importantes para a conscientização da população, esses números são essenciais para o planejamento das medidas públicas de combate ao coronavírus. "Me parece que o que estão querendo fazer é uma grande cirurgia nos números. Isso causará um enorme problema para o abastecimento da rede de saúde, um problema de notificação compulsória da doença, um enorme problema de planejamento de ações que são necessárias e são baseadas nos números. E isso vai causar naturalmente um problema de a população não saber, vai causar como efeito secundário [...] fake news, é um campo extremamente fecundo e depois reclamam das fake news", relatou.

Ele ainda aproveitou a live para criticar a militarização do Ministério da Saúde, seja por medidas como essa, quanto pela troca de assessores técnicos por militares - trocas que começaram quando Mandetta deixou a pasta e ganhou força nas últimas semanas quando o comando da Saúde passou das mãos de Nelson Teich para o general Eduardo Pazuello.

"Numa guerra militar tradicional, o segredo é uma arma em relação ao inimigo. E os militares são muito acostumados a construir grandes bunkers de segredos não acessíveis. Já numa guerra contra um vírus, uma bactéria, uma guerra de saúde, a informação compõe a primeira linha de defesa do indivíduo. O direito a essa informação é quase como o direito a que ele possa fazer para se prevenir da doença", afirmou.

Mandetta conclui, então, que tudo isso ainda pode causar uma "grande noite da ciência" no Brasil. "Talvez tendo nomeado pessoas que não sejam muito comprometidas com o setor da saúde, que tenham mais compromisso com a carreira militar, que cheguem a suas promoções militares por atos de bravura ou de lealdade extrema, mesmo que seja uma lealdade burra e genocida. Talvez isso seja o que a gente esteja presenciando. Uma ótima de carreira promocional, de cumprir a missão, se a missão passar por sonegar informações, colocam em horário inacessível ou rever e triturar os números para que confessem as verdades que eles entendem que sejam as que melhor se encaixam... No momento talvez seja isso que vamos presenciar. Uma grande noite da ciência", declarou.

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