Politica

Incertezas sobre leilão de 5G

postado em 12/06/2020 04:11
A recriação do Ministério das Comunicações trouxe incertezas sobre o leilão para exploração da tecnologia 5G no Brasil, anteriormente previsto para ocorrer até o fim deste ano. A informação é de uma alta fonte do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), desmembrado com as mudanças. Analistas consideram que a nomeação de Fábio Wajngarten como secretário executivo da nova pasta representa dificuldades adicionais para a implantação da tecnologia chinesa no país, em razão de seu alinhamento com os interesses dos Estados Unidos.

Os EUA têm recomendado a vários países que evitem a 5G, dominada pela chinesa Huawei. Desde o ano passado, os americanos vêm defendendo a tese de que o governo de Pequim utiliza companhias do país como instrumentos de espionagem industrial. Segundo essa ótica, usar equipamentos fabricados pela empresa poderia colocar em risco a privacidade de usuários de serviços de telecomunicações.

Ontem, o embaixador americano em Brasília, Todd Chapman, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, disse que Washington já discute com o governo brasileiro e empresas do país o financiamento para a compra de equipamentos da Ericsson e da Nokia para a infraestrutura da rede 5G no Brasil. Segundo afirmou o diplomata, esse tipo de medida é do interesse da ;segurança nacional; dos EUA. A ideia é evitar que empresas chinesas forneçam equipamentos às operadoras de telefonia brasileiras.

Fábio Wajngarten, que antes chefiava a Secretaria de Comunicação do Planalto, pertence à chamada ala ideológica do governo. Em razão de seu posicionamento pró-Washington, a questão da tecnologia 5G deve ser motivo de divergências com o titular da pasta, Fábio Faria (PSD-RN), integrante do Centrão no Congresso.

;Existe a participação da ala ideológica na atuação do secretário Wajngarten. Mas o ministério recém-criado foi entregue ao Centrão, para o qual o leilão 5G pode será muito interessante. Nesse sentido, haverá disputas concomitantes acontecendo;, disse Günther Richter Mros, professor de relações internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).

Kalinka Castelo Branco, professora de segurança digital da Universidade de São Paulo (USP), afirmou que a pressão americana pode privar o Brasil de dispor de uma tecnologia altamente necessária para os dias de hoje. ;Sempre existe a possibilidade dessa pressão. Temos o problema de o nosso presidente ser ;aliado; ao presidente dos EUA e querer fazer o que eles pedem;, argumentou. ;O uso de 5G é algo que terá de acontecer, porque temos, cada dia mais, dados sendo trocados e precisamos melhorar o desempenho dos dispositivos conectados às redes.;

Juliano da Silva Cortinhas, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), afirmou que ;os Estados Unidos não podem acusar nenhum outro país de práticas de espionagem, porque eles são líderes mundiais nesse tipo de atividade e já tiveram, ao longo das últimas décadas, um comportamento ilegal nesse sentido;. Ele citou como exemplo as revelações de Edward Snowden, ex-analista da Agência de Segurança Nacional americana, sobre atividades de espionagem do governo dos EUA.

Prioridade
Segundo o presidente Jair Bolsonaro, o ministro das Comunicações terá de seguir uma série de recomendações durante as negociações do leilão do 5G no país, entre eles a política externa adotada pelo governo. Dessa forma, no embate entre Estados Unidos e China pelo mercado no Brasil, a nação norte-americana deve ter prioridade, sobretudo pela proximidade do mandatário brasileiro com o presidente Donald Trump.

;O barato nem sempre é o melhor, como nem sempre o mais caro é também o melhor;, comentou o chefe do Planalto. ;Faremos o melhor negócio, levando em conta vários aspectos e não apenas o econômico. Vamos atender aos requisitos da soberania nacional, da segurança de informações, da segurança de dados e, também, da nossa política externa.;

;Faremos o melhor negócio, levando em conta vários aspectos e não apenas o econômico. Vamos atender aos requisitos da soberania nacional;
Jair Bolsonaro, presidente da República, sobre o leilão de 5G

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