Politica

"Sim, desta vez, é verdade", diz Weintraub ao confirmar demissão

Demissão põe fim a uma gestão tumultuada, provocada pelo estilo sem filtro e agressivo do ex-ministro na defesa ideológica do governo. Indicado para um cargo no Banco Mundial, só assume se tiver o nome aprovado por um grupo de países

Fábio Grecchi, Renata Rios, Ingrid Soares, Jorge Vasconcellos
postado em 19/06/2020 06:00

No discurso de saída, Weintraub disse que estava se sentindo inseguro e que a mudança de ares será benéfica até para o animal de estimação da famíliaApós um ano e dois meses, Abraham Weintraub foi demitido do Ministério da Educação, na tarde de ontem. Em meio a uma gestão marcada por polêmicas e projetos parados, ele anunciou a saída por meio de um vídeo postado nas redes sociais, ao lado de Jair Bolsonaro. Afirmou que deixará o governo para, provavelmente, assumir um cargo na direção do Banco Mundial (Bird) ;; conforme indicação do presidente, numa saída honrosa para não abandonar seu fiel escudeiro. Assim, o presidente tenta diminuir o atrito entre o Executivo e o Judiciário cujos insultos do ex-ministro aos integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) foram uma mancha a mais no relacionamento.


;Sim, desta vez é verdade. Eu estou saindo do MEC e vou começar a transição, agora. E, nos próximos dias, eu passo o bastão para o ministro que vai ficar no meu lugar, interino ou definitivo;, anunciou, no vídeo.


Weintraub também não quis comentar os motivos que levaram a sua saída. ;Neste momento não cabe. O importante é dizer que eu recebi o convite para ser diretor de um banco. Já fui diretor de um banco no passado. Volto ao mesmo cargo, porém, no Banco Mundial. O presidente já referendou e, com isso, eu, minha esposa, nossos filhos, e até a nossa cachorrinha, Capitu, vamos poder ter a segurança que hoje está me deixando muito preocupado;.


E completou: ;Estou fechando um ciclo e começando outro. E é claro que eu continuo apoiando o senhor (Bolsonaro), como fiz nos últimos três anos, desde que a gente se conhece. Neste período, eu vi um patriota, que defende os mesmos valores que eu sempre acreditei: a família, a liberdade, a honestidade a franqueza o patriotismo e que tem Deus no coração. Agradeço a honra que foi participar do seu governo, desejo toda sorte e o sucesso que o senhor merece, nesse desafio gigante que é tentar salvar o Brasil. Eu continuarei lutando pela liberdade, mas de outra forma;, concluiu.


Com ar grave, Bolsonaro comentou, em seguida, classificando o momento como ;difícil;. ;É um momento difícil. Todos os meus compromissos de campanha continuam de pé. Busco implementá-los da melhor forma possível. A confiança você não compra, você adquire. Todos que estão nos ouvindo agora são maiores de idade, sabem o que o Brasil está passando. E o momento é de confiança. Jamais deixaremos de lutar por liberdade. Eu faço o que o povo quiser;, disse.


Na volta ao ministério, após reunião com Bolsonaro, Weintraub se recusou a falar com a imprensa e justificou ironizando a multa que recebeu do governo do Distrito Federal por não usar máscara numa manifestação, na Esplanada dos Ministérios. ;Não estou podendo falar. Estou obedecendo ao Ibaneis e, com isso aqui (a máscara), não consigo falar;.
Com a saída de Weintraub, o secretário executivo do MEC, Antonio Paulo Vogel, assume interinamente. Na lista de possíveis sucessores, o secretário nacional de Alfabetização, Carlos Nadalim, tido como favorito, está praticamente fora. Como o ex-ministro, é seguidor do escritor Olavo de Carvalho e defensor do homeschooling, mas, também por ter perfil radical, perdeu pontos na indicação.


O governo também oficializou a indicação de Weintraub para diretor-executivo do grupo de países ;; conhecido como constituency ; que o Brasil lidera no Bird (do qual fazem parte Colômbia, Equador, Trinidad e Tobago, Filipinas, Suriname, Haiti, República Dominicana e Panamá, que precisam aprovar o nome do ex-ministro para que ele possa assumir o cargo). (Colaborou Rosana Hessel).

No último ato, a suspensão de cotas

Antes de ser demitido do Ministério da Educação, Abrahan Weintraub revogou uma portaria de cotas para minorias poderem ter acesso à pós-graduação. A Portaria Normativa n; 13, de 11 de maio de 2016, estipulava que programas reservassem vagas para negros, índios e pessoas com deficiência. O cancelamento surpreendeu a comunidade acadêmica, que, tal como aconteceu com a medida provisória que o ex-ministrou tentou emplacar ;; que possibilitava a ele indicar reitores de universidades federais durante o período em que durar a pandemia do novo coronavírus ;;, promete reagir para que o último ato de Weintraub seja suspenso.


A nota do MEC tenta esclarecer a decisão: ;O Ministério da Educação esclarece que a Portaria Normativa n; 13/2016, cujo teor trata de ações afirmativas e cotas para cursos de pós-graduação, foi revogada com base no artigo 8;, do Decreto n; 10.139/2019. Cabe acrescentar que a Lei n; 12.711/2012, em vigor, prevê a concessão de cotas e ações afirmativas exclusivamente para cursos de graduação;.


Segundo Charles Morphys, coordenador do Colégio de Pró-reitores de Pesquisa, Pós-graduação e Inovação das IFES (Copropi), ;normatizações como a PN 13 foram um importante estímulo para mudar essa situação (de desequilíbrio no acesso às vagas de pós-graduação), dando possibilidades às instituições de discutirem suas estratégias de operacionalização das demandas por inclusão;.

Apesar da medida assinada por Weintraub, Charles explicou que as instituições federais de ensino superior (Ifes) têm autonomia para decidir sobre reserva de vagas. ;Revogar a PN 13 não significa mudar as normativas internas de cada Ifes;, pontuou.

Unanimidade nas críticas: foi o pior

A saída de Abraham Weintraub repercutiu, dentro e fora das redes sociais. Políticos de diversas legendas se manifestaram sobre a saída do MEC. Com ironia, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), comentou a ida do ex-ministro para o Banco Mundial (Bird) durante entrevista de ontem: ;Não sabem que trabalhou no Banco Votorantim, que quebrou em 2009?;.


O ex-bolsonarista e hoje tucano Alexandre Frota (SP) também lembrou do passado do ex-ministro, fazendo um vídeo no qual dança com um guarda-chuva, assim como Weintraub havia feito, ano passado, para rebater as críticas que recebeu por promover um contingenciamento no orçamento das universidades públicas.


Já o PSDB salientou que ;Weintraub nunca se portou como um ministro, mas como um provocador barato em nome de uma ideologia autoritária e obscura. Que o próximo nome esteja à altura dos desafios do cargo;. A União Nacional dos Estudantes (UNE) também se pronunciou. ;Educação é prioridade para os brasileiros. Não tente seguir com o seu projeto de desmonte da educação pública;, tuitou.


A deputada federal Tábata Amaral (PDT-SP), expoente da bancada em defesa da educação na Câmara, publicou: ;Não fosse uma crônica de morte anunciada, diria que a saída do Weintraub, hoje, seria artimanha do PR para abafar a prisão do Queiroz. A saída do pior ministro da Educação da história é um alívio;. Marcelo Ramos (PL-AM), também deputado federal, publicou: ;Presidente Bolsonaro acaba de tomar a sua mais importante decisão a favor da educação brasileira desde que tomou posse;, ironizou.

O ex-presidenciável Guilherme Boulos listou as controvérsias do ex-ministro: ;437 dias de Weintraub no MEC: ataques diários à ciência, Erros gramaticais, ofensas a Paulo Freire, desrespeito à autonomia universitária, ida a manifestações pelo AI-5. Weintraub é o pior ministro que já passou pelo MEC;.

Uma longa lista de intransigências, agressões e provocações

Um dos nomes da linha de frente ideológica de Jair Bolsonaro, Abrahan Weintraub ocupou o Ministério da Educação mais com o objetivo de defender as ideias do governo do que, de fato, comandar um salto do ensino brasileiro rumo à modernidade. Em 14 meses, colecionou polêmicas, provocações e agressões, que aumentaram seu cacife entre os radicais apoiadores do presidente, mas, sobretudo, com os integrantes do chamado Gabinete do Ódio ;; grupo palaciano que distribui ataques e falsidades pelas redes sociais contra os desafetos de Bolsonaro. Mas, para a comunidade científica e acadêmica, Weintraub foi um tormento, um atraso para a educação. O ex-ministro é considerado um dos mais aplicados porta-vozes do olavismo e ponta de lança da chamada ;guerra cultural;. Veja, a seguir, atropelos em que se envolveu.

CORTE DE VERBAS DAS UNIVERSIDADES
No final de abril do ano passado, estudantes, professores e apoiadores da Educação saíram às ruas contra o bloqueio de investimentos, depois que Weintraub acusou as universidades federais de estarem ;fazendo balbúrdia em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico;. Os principais alvos foram a UFF, a UnB e a UFBA.

DANÇA DA CHUVA
Ainda por causa da redução de verbas, Weintraub divulgou vídeo negando que o governo tenha tirado dinheiro para a recuperação do Museu Nacional ; que ficou completamente destruído num incêndio, em setembro de 2018. Mas o fez de forma prosaica: como no filme Cantando na Chuva, apresentou-se com um guarda-chuva cantando Singing in the rain para dizer que ;está chovendo fake news;.

LITERATURA OU CULINÁRIA?
Weintraub, em vários momentos, demonstrou ter dificuldades com o vernáculo e com a cultura. Numa audiência no Senado, em 7 de maio de 2019, quis citar o escritor tcheco Franz Kafka, mas disse ;Kafta; ;; prato da cozinha árabe. Outra mancada: confundiu ;asseclas; (correligionários, partidários) com ;acepipes; (petiscos, iguarias), num post em que pretendeu ofender o PT. ;Tranquilizo os ;guerreiros; do PT e de seus acepipes;, anotou. Virou meme nas redes sociais.

COCAÍNA E BLOQUEIO
Por causa da descoberta de 38kg de cocaína no voo presidencial ao Japão, ano passado, Weintraub começou a ser cobrado nas redes sociais. Reagiu à sua maneira: ;No passado, o avião presidencial já transportou drogas em maior quantidade. Alguém sabe o peso do Lula ou da Dilma?; Foi bombardeado. Decidiu, então, que não queria ;gente chata e de esquerda; a incomodá-lo. ;Caso contrário, bloqueio;, disse.

ATESTADO DE INÉPCIA
Numa coletiva em outubro de 2019, defendeu punições para alunos com notas baixas no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade). Segundo Weintraub, quem acertasse 10% das questões não deveria ter direito a se formar. Para ele, quem acerta menos de 20% ;sabota; a prova.

MACONHA NO CAMPUS
Numa audiência na Câmara dos Deputados, em dezembro passado, disparou: existem plantações de maconha e produção de drogas sintéticas em universidades federais. Weintraub fora convocado exatamente para provar tais acusações, o que jamais fez. Foi além: disse que, como a polícia militar não entra nos campi, os traficantes se sentem à vontade para agir.

ATAQUE AO VERNÁCULO
Weintraub jamais escondeu que ele e a língua portuguesa não eram amigos. Numa resposta ao deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), escreveu ;imprecionante; (correto: ;impressionante;). Antes, já tuitara ;suspenção; e ;paralização; ;; as grafias certas são ;suspensão; e ;paralisação;.

DEBOCHE COM A CHINA
Era por meio de tuítes que Weintraub mais criava desavenças. Em meio às falsas acusações de que o novo coronavírus era uma invenção chinesa, com o objetivo de pôr o mundo de joelhos, quis fazer uma ironia com o suposto modo de os chineses falarem o português. Para isso, usou o personagem dos quadrinhos Cebolinha ;; que troca o R pelo L. Foi repreendido pela Embaixada chinesa, que o acusou de racismo, e pelo criador da Turma da Mônica, Maurício de Sousa.

CORREÇÃO DE NOTAS
Weintraub acusou a gráfica que havia impresso as provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) pelo problema que afetou aproximadamente 6 mil candidatos. O então ministro garantiu que ninguém seria prejudicado, mas demorou a concordar com a recontagem.

ENEM MANTIDO
Apesar de a pandemia avançar dia a dia, Weintraub se recusava a adiar a data do Enem. Cedeu depois de intenso clamor popular. A nova data ainda não está decidida e, para tal, abriu uma enquete no Ministério da Educação para que os candidatos escolhessem o melhor período.

VAGABUNDOS E CANCRO
Na reunião ministerial de 22 de abril, tomou a palavra e, exaltado, dirigiu-se aos ministros do Supremo Tribunal Federal como ;vagabundos; e disse que, por ele, colocava ;todos na cadeia;. Empolgou-se na agressividade e ainda classificou Brasília como um ;cancro;.

SILÊNCIO E RACISMO
Por causa da ofensa aos ministros do STF, teve de depor na Polícia Federal ;; mas ficou em silêncio. E se submeteu ao mesmo ritual por causa da acusação de racismo contra os chineses. Na saída, foi levado sobre os ombros por radicais bolsonaristas.

NOITE DOS CRISTAIS
Weintraub voltou a exagerar quando comparou uma ação da PF, no âmbito do inquérito das fake news, no STF, contra figuras da base bolsonarista, à noite do ataque a comerciantes judeus na então Alemanha nazista, marco temporal do começo do holocausto. Entidades judaicas repudiaram veementemente a comparação.

VAGABUNDOS DE NOVO

Weintraub participa de ato em defesa de Bolsonaro, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, e diz a manifestantes que tinha dado sua opinião sobre ;vagabundos;, em uma referência às ofensas que dirigira ao STF, na reunião ministerial de 22 de abril. Estava sem máscara e provocou aglomeração. Foi multado pelo Governo do Distrito federal em R$ 2 mil por violar as regras sanitárias de
combate à covid-19.

REITORES BIÔNICOS
Weintraub articulou uma medida provisória para nomear diretamente reitores de universidades federais, durante o período da pandemia ;; os nomes saem de uma lista tríplice de indicações da comunidade acadêmica. A MP foi devolvida pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP). Terminou extinta.

GOLEADA NO SUPREMO
Por 10 a 1, o STF mantém Weintraub entre os alvos do inquérito sobre a disseminação de fake news e ataques aos membros da Corte, rejeitando habeas corpus apresentado pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça. O ex-ministro é investigado por ter defendido a prisão dos membros do STF e por tê-los chamado de ;vagabundos;.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação