Politica

Weintraub agora provoca constrangimento ao Brasil no Banco Mundial

Grupo liderado pelo ex-ministro Rubens Ricupero elabora documento, entregue a países que integram o Banco Mundial, solicitando que rejeitem a indicação do governo Bolsonaro, por considerá-la inadequada e atentar contra a ''credibilidade externa'' do Brasil

Rosana Hessel
postado em 20/06/2020 07:00

Crítico ao multilateralismo e acusado de racismo contra os chineses, Weintraub é considerado péssima escolha pelo grupo que articula o vetoApesar de ter anunciado, ontem, que estava deixando o Ministério da Educação para ir para Washington ser diretor executivo do Banco Mundial (Bird), Abraham Weintraub pode ter a indicação barrada. Integrantes do banco estão se movimentando para impedir a posse no board de representantes de 189 países que possuem ações da instituição, de acordo com fontes próximas ao organismo multilateral. Para agravar a situação, documento elaborado por grupo liderado pelo diplomata e ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero e pelo empresário Philip Yang alerta para a inadequação da indicação do governo de Jair Bolsonaro.


O manifesto foi remetido aos oito países que, como o Brasil, compõem o constituency. Nada menos que 270 assinaturas, que representam entidades e de personagens com trânsito na economia, na diplomacia e em entidades internacionais de relevo, subscreveram o documento contrário a Weintraub.


Segundo Ricupero, a indicação do ex-ministro da Educação é ;um atentado ao pouquíssimo que restava da credibilidade externa do Brasil;. Para ele, o atual governo destroçou o patrimônio de soft power acumulado pelo país em décadas de atuação proativa em meio ambiente, direitos humanos, povos indígenas, reforma da ordem internacional. O diplomata salienta que se mantinha ainda ;um resquício de competência e seriedade; dos representantes brasileiros em órgãos financeiros mundiais, como o Bird, o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).


;Com a indicação de indivíduo desqualificado e extremista de direita, até esse resquício desaparece. A única esperança é que os outros países representados pelo diretor do Brasil no Banco Mundial, nossa constituency, como se diz na organização, resistam à absurda indicação. Ou que a própria direção da instituição, por meio de seus mecanismos de defesa de valores de direitos humanos, oponha um veto em nome da decência;, cobrou Ricupero, que já foi representante do Brasil nas Nações Unidas e embaixador nos Estados Unidos.


A carta enviada às embaixadas dos países-membros do Bird desaconselha ;fortemente; a indicação de Weintraub, e alega os riscos de ;danos irreparáveis; que ele causaria aos respectivos países e à instituição. ;Em primeiro lugar, a demissão de Weintraub de sua posição é o culminar de um ambiente destrutivo e venenoso que ele inflou em todo o sistema político do Brasil;, salienta um trecho do texto remetido aos representantes diplomáticos.

Contradição

A indicação de alguém com perfil ideológico e sem traquejo diplomático, como Weintraub, para o Bird, é uma contradição, sobretudo porque o governo Bolsonaro assumiu uma postura semelhante à dos Estados Unidos, e passou a criticar o multilateralismo e os organismos internacionais ;; como, por exemplo, a Organização Mundial da Saúde (OMS). Não bastasse isso, alguns expoentes do bolsonarismo ;; como o ex-ministro da Educação ;; fizeram ataques grosseiros à China, ;terceiro maior acionista do Banco Mundial e ocupa uma cadeira muito importante na diretoria executiva;, conforme destacou a economista Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics, em Washington. Com o conhecimento de quem trabalhou no FMI e sabe das sutilezas de instituições internacionais como Bird, ela crê que Weintraub ;não passará; pelo crivo dos acionistas. Mas, se conseguir, Monica considera que dificilmente permanecerá no cargo depois de 31 de outubro, quando começa a nova gestão por meio de eleição.


Apesar de ser incomum barrarem um nome indicado pelo governo brasileiro, fontes lembram que, antes de assumir, o ex-ministro também precisará ser avaliado pelo Bank Information Center (BIC) para saber se não tem denúncias de racismo no currículo. Esse é outro problema, pois o Supremo Tribunal Federal (STF) abriu processo para investigar Weintraub por crime de racismo, devido a um tuíte em que debochou da suposta forma de os chineses falarem o português.


Procurado pelo Correio, o Bird informou que recebeu uma comunicação oficial das autoridades brasileiras sobre a indicação de Weintraub. Na confirmação, o Ministério da Economia destacou que Weintraub tem ;mais de 20 anos de atuação como executivo no mercado financeiro;, atuando como economista-chefe e diretor do Banco Votorantim, além de CEO da Votorantim Corretora no Brasil e da Votorantim Securities nos Estados Unidos e na Inglaterra.

Para saber mais

Importância da afinidade

O Banco Mundial (Bird) abriga 189 países, que são sócios da instituição, e contribuem para o funcionamento da instituição. Os 25 diretores executivos são os representantes dos integrantes do Conselho, o Board. São indicados ou eleitos pelos acionistas a cada dois anos.


Os maiores contribuintes têm cadeira cativa, como Estados Unidos, China e países europeus. O Brasil participa de uma reunião de países ;; o constituency ;;, que elege seu diretor executivo. O grupo é formado por Colômbia, Equador, Trinidad & Tobago, Filipinas, Suriname, Haiti, República Dominicana e Panamá. O nome de Abraham Weintraub ainda precisa ser aprovado por todos os sócios do grupo.


Tradicionalmente, quando há discordâncias entre esses países, a indicação é retirada por uma questão protocolar. Como o Brasil tem mais de 50% da cota de participação nesse bloco no Bird, tem prioridade para ocupar a cadeira, que está vaga desde o ano passado e cujo mandato vence em outubro deste ano. Apesar do atropelo na liturgia, mesmo se os demais países não gostarem da indicação, o ex-ministro da Educação poderá assumir.


Contudo, haverá um constrangimento do Brasil frente aos demais integrantes do Board, órgão eminentemente diplomático. Para o mandato seguinte, será preciso nova eleição entre os sócios do grupo, em outubro. Além de Fábio Kanczuk, que deixou a vaga no fim do ano passado para assumir uma diretoria do Banco Central, ocuparam a cadeira do Brasil economistas renomados como Pedro Malan, Paulo César Ximenes e Otaviano Canuto.

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