Correio Braziliense
postado em 24/06/2020 06:00
O embate governo federal x Poder Judiciário põe em xeque a democracia?
A gente tem algumas ações que colocam em xeque a democracia, que é jovem, mas bastante consolidada. Temos instituições que são referência no mundo inteiro e falo isso com experiência. Entendemos que esses ataques são pontuais, no entanto são sérios e precisam ter a repressão do Estado.
Como avalia os inquéritos abertos pelo Supremo Tribunal Federal para investigar fake news?
O STF já declarou a validade desses inquéritos e me parece que há elementos consistentes, tanto que eles continuam tramitando, inclusive com a ciência das autoridades competentes da Procuradoria Geral da República.
Por que há incompreensão do presidente Jair Bolsonaro em relação ao Judiciário? Ele alega ser cerceado, que seu poder é tolhido.
O Judiciário é o equilíbrio, faz esse sistema de freios e contrapesos que a Constituição estabelece. É a última porta da cidadania. As decisões judiciais sempre têm lado: o juiz decide pelo autor ou pelo réu e uma das partes sempre ficará inconformada. O que temos é um protagonismo em razão do demandismo. Todas as questões da sociedade são levadas ao Judiciário, e, de acordo com a Constituição, elas devem ser apreciadas em sua totalidade. Quando as questões políticas são levadas, é claro que alguém vai ficar inconformado com a decisão. Temos dito que decisão judicial cabe recurso e o sistema brasileiro, aliás, precisa ter um enxugamento nesse sentido. A contestação deve ser feita por recurso, não pela TV ou por rede social. Temos instrumentos jurídicos consistentes para isso.
Como analisa o fato de o presidente ameaçar não acatar decisão judicial quando foi informado que o STF poderia requerer o acesso aos seus telefones celulares?
Decisão judicial deve ser cumprida, não importa quem seja a autoridade, mesmo a mais importante da República. Continuamos acreditando que todos têm consciência e ciência do seu papel.
Como vê o embate entre União, estados e municípios para definição de regras que devem ser seguidas durante a pandemia? O STF estabeleceu que a maior parte das ações deve ser conduzida por estados e municípios. Acertou?
A decisão teve por base as orientações da Constituição. Nosso sistema é um sistema federativo com autonomia dos estados para deliberar sobre essas questões. Pela Constituição, a competência de estados, municípios e União é concorrente e suplementar. Notamos que, em diferentes localidades, há diferentes índices de contaminação e de respostas. Nesse sentido, a decisão do Supremo respeitou o sistema brasileiro e também as orientações sanitárias.
Na sua opinião, a economia vai ter que dialogar com o direito?
Mais do que nunca. Quem fala muito bem sobre isso é o ministro Luiz Fux. Os juízes precisam estar conscientes deste momento em que a economia interfere diretamente na vida da sociedade e, portanto, nas decisões judiciais.
Nos últimos três meses, vimos a edição de várias leis temporárias. Isso vai interferir nas decisões dos tribunais?
Altera, sim. A gente terá uma nova baliza, um novo olhar. Juiz é um intérprete da lei. A AMB tem capilaridade nacional e tem entregado aos juízes normativas com estudos. Estamos trabalhando muito para que todos tenham ciência e profiram decisões com consistência nessas novas leis.
Existe uma crença de que o Judiciário brasileiro é discriminatório. A sra. concorda com isso?
De jeito nenhum, é o que mais tem acesso no mundo. Digo isso porque a nossa Constituição prevê um amplo acesso à justiça
Sobre as medidas provisórias flexibilizando direitos trabalhistas, haverá sobrecarga da Justiça do Trabalho?
Sim. Vamos ter que contemporizar a pobreza, a necessidade de as empresas se reerguerem e os direitos dos trabalhadores. É um desafio que será bem executado pela Justiça do Trabalho.
* Estagiário sob a supervisão de Fabio Grecchi
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