Politica

MEC: escolha do novo ministro deve agradar alas militar e ideológica

Fundamental para a construção da cidadania e o progresso do país, Ministério segue sem titular. Nomeação está empacada na escolha de um nome que deve agradar às alas militar e ideológica, após os fiascos Weintraub e Decotelli

Maíra Nunes, Sarah Teófilo, Renata Rios, Denise Rothenburg
postado em 06/07/2020 06:00
 (foto: Bruno Peres/CB/D.A Press )
(foto: Bruno Peres/CB/D.A Press )
Segundo o PNE, há uma retenção dos alunos no ensino fundamental, o que acaba gerando prejuízos para o estudante, que perde a motivaçãoSem ministro há 18 dias e sem projeto estruturado há mais de um ano, a educação se tornou o flanco mais vulnerável do governo federal, ao ponto de até Jair Bolsonaro reconhecer que ;a educação está horrível no Brasil;. A afirmação, dada em resposta a uma apoiadora na porta do Alvorada, é vista como o maior consenso do país. Em 16 meses, não há um projeto claro, nem tampouco diálogo direto com os governos municipais, estaduais e universidades. Durante os 14 meses sob o comando de Abraham Weintraub, as marcas foram a polêmica e poucas realizações. O presidente está insatisfeito por chegar, praticamente, à metade do mandato sem qualquer resultado prático para chamar de seu nesta seara, peça-chave das promessas de campanha em 2018. As restrições dos militares e dos olavistas tornam ainda mais difícil o desafio de escolher um ministro. Bolsonaro se vê espremido entre os dois segmentos e decidiu que, esta semana, vai resolver o problema com um ministro de perfil conservador e que transite nas duas correntes.

O presidente quer alguém que resolva as reclamações do setor, porém a cada escolha seus aliados entram em cena. O secretário de Educação do Paraná, Renato Feder, por exemplo, não suportou o bullying dos bolsonaristas e pediu para sair antes mesmo de entrar. O próprio Bolsonaro, que o convidara na semana passada, titubeou na indicação ao não defender Feder dos ataques dos apoiadores que se autointitulam ;raiz;. Ao ficar exposto, o secretário seguiu o conselho de amigos: avisou em suas redes sociais que continuaria o trabalho no Paraná.

A recusa de Feder reacende as pressões sobre o presidente e expõe a disputa interna no governo. Os militares, que indicaram Carlos Decotelli, por exemplo, sonham com um ministro técnico, independentemente de amarras ideológicas. Mas os radicais querem destaque para a ideologia. ;O escolhido não deve ser ideologicamente neutro, tem que ser um conservador de raiz!”, sugeriu o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) em seu twitter, ressaltando que a escolha é ;exclusiva; do presidente. E, no meio disso tudo, há uma nova corrente interessada no cargo: o Centrão, que, depois da posse do deputado Fábio Faria nas Comunicações, declarou aberta a caça a um ministério para os senadores.

Com recusa de Feder ; que chegou a chamar Bolsonaro de ;estadista;, antes de ser ultrapassado por Decotelli ;, passou a circular o nome de Aristides Cimadon, reitor da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc). De acordo com a Plataforma Lattes, ele possui graduação em Filosofia, Pedagogia, mestrado em Educação, Direito e doutorado em Ciência Jurídica.

Outros nomes continuam no páreo, como os do reitor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Anderson Ribeiro Correia ; que teria o aval das alas militar e ideológica ;; o da secretária nacional de Educação Básica, Ilona Becskeházy; e o do assessor especial da pasta, Sérgio Sant;Anna.

;O escolhido não deve ser ideologicamente neutro, tem que ser um conservador de raiz!”
Deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), sugerindo o perfil do novo ministro no Twitter

;O bolsonarismo parte do princípio que o comunismo tomou conta do Brasil
pela educação;

Rafael Favetti, cientista político, apontando a razão pela qual os olavistas querem tanto o MEC


Desafios do cargo


Ala ideológica
Conseguir uma trégua duradoura com o grupo sob orientação do escritor Olavo de Carvalho, que contesta a ciência ;; chegou a dizer que faz sentido a teoria do terraplanismo, assim como afirmou que a pandemia da covid-19 é uma empulhação ;; e considera as universidades públicas ;centros de formação de militantes comunistas;. O MEC tem alguns dos representantes dos ideológicos, como Carlos Nadalim, secretário nacional de Alfabetização e defensor do ensino em casa, o controverso home schooling.

Coordenação na pandemia
Estabelecer uma coordenação nacional na política educacional neste cenário de doença fora de controle. Entre os principais desafios estão a realização do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que ainda não tem data marcada e nem se sabe se será neste ano, a retomada das aulas presenciais em todo o país e uma política de combate à exclusão digital.

Reestabelecimento do diálogo
Desinterditar as conversações do MEC com secretarias estaduais e municipais de Educação, entidades superiores de ensino (principalmente universidades e institutos federais) e o Congresso.

Fundeb e FNDE
O novo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação precisa ser aprovado no Congresso. E o ministro tem ainda de dar uma resposta convincente para uma concorrência (sustada), do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, de mais de R$ 3 bilhões para a compra de laptops. Somente uma escola em Minas receberia 30 mil aparelhos, o que daria 117 por aluno.

Quem esteve na pasta


Carlos Alberto Decotelli
Durou apenas cinco dias e nem sequer tomou posse. Saiu devido às mentiras que colocou no currículo que mantém na Plataforma Lattes ; o que não o impediu de, na mais recente atualização, apresentar-se como ministro, apesar da passagem meteórica.

Abraham Weintraub
Olavista feroz, deixou o Brasil antes mesmo de a demissão do MEC ser oficializada. Indicado pelo governo para diretoria no Banco Mundial, nem assumiu e encontra resistências de funcionários da instituição, que pedem que seja vetado por manifestações racistas ;; como o tuíte que ironizou os chineses pela maneira de falar o português. Está no inquérito das fake news por ter chamado os ministros do Supremo Tribunal Federal de ;vagabundos; numa reunião ministerial. Tentou, ainda, interferir nas universidades federais para nomear reitores biônicos e, como último ato à frente do ministério, revogou as cotas para cursos de pós-graduação ;; o que já foi derrubado.

Ricardo Vélez Rodríguez
O colombiano naturalizado brasileiro, indicado por Olavo de Carvalho, durou apenas três meses. Porém, no pouco tempo que ficou, enumerou polêmicas: afirmou que a universidade não é para todos, disse que ;brasileiro viajando é um canibal; e pediu para que pais filmassem filhos estudantes cantando o Hino Nacional.

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