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Correio Braziliense

Programas sociais ajudam Bolsonaro a penetrar em searas antes da esquerda

Figurino populista leva presidente a penetrar em searas antes da esquerda, como a dos programas sociais, que o deixaria em vantagem para 2022. Oposição amarga ressentimentos entre suas correntes, embora todas tenham o ocupante do Palácio do Planalto como adversário


postado em 06/07/2020 06:00 / atualizado em 06/07/2020 08:09

Bolsonaro bate continência para menino fantasiado de policial do choque, na subida da rampa do Planalto. Simpatia, silêncio, aproximação do Centrão e acenos ao social o fazem palatável aos setores populares (foto: Sergio Lima/AFP )
Bolsonaro bate continência para menino fantasiado de policial do choque, na subida da rampa do Planalto. Simpatia, silêncio, aproximação do Centrão e acenos ao social o fazem palatável aos setores populares (foto: Sergio Lima/AFP )
Com a oposição dividida e sem a definição de uma frente ampla para enfrentar Jair Bolsonaro nas urnas, em 2022, o presidente tem aproveitado o espaço para encaminhar seu projeto de reeleição. O reforço de programas sociais, uma agenda de viagens pelo país e a aproximação com o Centrão, em troca de apoio político, são os mais recentes movimentos do capitão reformado.

Os partidos de oposição ainda vivem os reflexos das divisões ocorridas no pleito de 2018. A principal delas foi a negativa de Ciro Gomes (PDT), derrotado no primeiro turno, em apoiar Fernando Haddad (PT) no segundo contra Bolsonaro. Desde então, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e outras lideranças petistas têm resistido a uma reaproximação com o político cearense.

“Eu, realmente, não acredito que a oposição estará unida em uma candidatura única em 2022. Mas acredito que a gente deve tentar. Quanto mais união, melhor, inclusive para além da esquerda”, disse ao Correio o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), um dos potenciais candidatos para as próximas eleições presidenciais (veja entrevista a seguir).

Enquanto isso, Bolsonaro inicia uma agenda de viagens e inaugurações pelo país e dá os primeiros passos de uma guinada do governo para o social, penetrando num campo até então dominado pelos partidos de esquerda.

Pressionado pela má condução da crise provocada pela pandemia do novo coronavírus, o presidente anunciou a prorrogação do auxílio emergencial por mais dois meses, a um custo de R$ 100 bilhões, o dobro do que queria o Ministério da Economia. Também lançará o Renda Brasil, em substituição ao Bolsa Família, que vai unificar diversos programas sociais usando o banco de dados formado para pagar os R$ 600 a quem necessita, ampliando o número de pessoas incluídas.

Nas redes sociais e em grupos bolsonaristas no WhatsApp, têm sido comuns imagens de Bolsonaro ao lado de pessoas humildes, sempre acompanhadas de mensagens sobre o compromisso do presidente com os mais pobres.

Reeleição

Bolsonaro foca na reeleição desde que tomou posse na Presidência. A primeira vez em que manifestou publicamente o projeto de buscar um novo mandato foi em 7 de julho do ano passado, mesmo sem o governo ter apresentado qualquer resultado a ser comemorado. “Pegamos um país quebrado, moral, ética e economicamente, mas, se Deus quiser, conseguiremos entregá-lo muito melhor a quem nos suceder em 2026”, afirmou o presidente há quase um ano, durante uma festa no Clube Naval de Brasília.

Desde então, Bolsonaro tem trazido cada vez mais a disputa eleitoral para o dia a dia do governo. Em meio à explosão de mortes por covid-19 no país, por exemplo, e a pretexto de preservar a economia, o presidente chegou a classificar como “criminosas” as medidas de distanciamento social adotadas por governadores, em cumprimento às recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), para frear o avanço da pandemia. Os ataques têm endereços certos: os governadores do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), e de São Paulo, João Doria (PSDB), que começaram a ver o desejo de se candidatarem à Presidência, em 2022, virar pó.

Em 26 de maio, Bolsonaro disse “parabéns à Polícia Federal”, comemorando uma operação de busca e apreensão de agentes da corporação, realizada horas antes, em imóveis ligados a Witzel. A ação fez parte de uma investigação sobre possíveis irregularidades na contratação de serviços para o combate à pandemia. A operação foi um duro golpe para os projetos políticos de Witzel, que agora é alvo de um processo de impeachment na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

Para o cientista político André Pereira César, da Hold Assessoria Legislativa, Bolsonaro deve ocupar cada vez mais espaços no debate eleitoral à medida que mágoas do passado, egos, vaidades e outros obstáculos continuarem impedindo uma união dos partidos de oposição.

“Quando vemos a negociação da frente ampla de oposição, com Ciro, Fernando Henrique Cardoso, Marina Silva, é preciso refletir: o PT foi rifado, Lula foi preso, ou seja, o PT foi tirado pelos setores que estão tentando formar essa frente. Mas a oposição precisa se lembrar daquele velho ditado: ‘O inimigo do meu inimigo é meu amigo’. Nessa ótica, a oposição tem um adversário comum, o inimigo está aí, danoso para o país, com a pandemia, com crise econômica, política e tudo mais. Ou seja, ou a oposição conversa ou, em 2022, estará cada um em sua trincheira”, diz o analista.

“Particularmente, não consigo vislumbrar essa união da esquerda. No limite, esse entendimento nunca vai ocorrer. A oposição vai rachada para a eleição, o que é bom para o Bolsonaro, para o governismo. É uma questão que envolve egos, vaidades, que está prejudicando esse entendimento”, acrescenta César.

“Não consigo vislumbrar essa união da esquerda. No limite, esse entendimento nunca vai ocorrer. A oposição vai rachada para a eleição, o que é bom para o Bolsonaro, para o governismo. É uma questão que envolve egos, vaidades, que está prejudicando esse entendimento” 
André Pereira César, cientista político

Na homilía, padre critica presidente
O padre Edson Adélio Tagliaferro, da Igreja Matriz Nossa Senhora das Dores, na cidade de Artur Nogueira (SP), criticou Jair Bolsonaro na homilia de ontem e disse aos fiéis que votaram no presidente que deveriam se confessar. “Vocês querem que eu fale aquilo que todo mundo fala, que não deixam ele trabalhar? Não! Bolsonaro não presta. Bolsonaro não vale nada. E quem votou nele devia se confessar, pedir perdão a Deus pelo pecado que cometeu, porque elegeu um bandido para presidente”, pregou. O pároco ainda frisou que deve, sim, falar sobre o assunto na homilia. "Muitas pessoas dizem: ‘padre, cuidado com o que você fala na homilia porque tem gente que não gosta’. Ué, o que a gente tem que falar, na homilia, senão aquilo que Deus nos pede para falar? Se a gente está vendo que o governo não presta, o padre não pode falar que o governo não presta porque o povo não quer ouvir isso?”, perguntou. Além de Bolsonaro, o padre ainda lembrou que o Ministério da Saúde segue sem um titular. "Nós ainda não temos ministro da Saúde.”


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