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Incerteza nas eleições americanas pode mudar política externa brasileira

Apesar da torcida pela reeleição de Trump, que cai nas pesquisas da corrida à Casa Branca, reconhece necessidade de trocar chefe da Chancelaria e de acenar ao candidato oposicionista, para não ser desprezado pelos democratas

Jorge Vasconcellos
postado em 14/07/2020 06:00

Apesar da torcida pela reeleição de Trump, que cai nas pesquisas da corrida à Casa Branca, reconhece necessidade de trocar chefe da Chancelaria e de acenar ao candidato oposicionista, para não ser desprezado pelos democratasO Palácio do Planalto acompanha com preocupação o desempenho do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nas pesquisas de opinião para as eleições de novembro. As indicações de que o democrata Joe Biden poderá vencer a disputa levaram o governo brasileiro a admitir mudanças na política externa, alinhada com conservadorismo de Trump desde a posse do presidente Jair Bolsonaro. Segundo fontes do meio diplomático, esse cenário reforçou discussões internas sobre a conveniência de se manter o embaixador Ernesto Araújo, um entusiasta do magnata republicano, à frente do Ministério das Relações Exteriores (MRE).


A possível saída de Araújo do cargo vinha sendo cogitada pelo Planalto em razão do crescente isolamento do Brasil na comunidade internacional. Agora, ante a possibilidade de vitória de Biden nas urnas, auxiliares de Bolsonaro têm alertado para a necessidade de emitir um gesto em direção ao democrata. A permanência de Araújo no comando do Itamaraty é vista como um obstáculo à reaproximação.


O presidente, que já criticou o Partido Democrata e disse que ;se Deus Quiser Trump será reeleito;, tem seguido o americano em diferentes campos. Recentemente, Trump anunciou a saída do seu país da Organização Mundial da Saúde (OMS), a qual acusou de atuar em favor da China durante a pandemia do novo coronavírus. Com o mesmo argumento, Bolsonaro ameaçou acompanhá-lo. Já Biden, após o anúncio de Trump, afirmou que, se ele for eleito, os EUA voltariam à OMS no primeiro dia de governo.

Dez pontos

As pesquisas de intenção de voto nos EUA colocam Biden com mais de dez pontos à frente de Trump. O republicano tem perdido prestígio junto aos eleitores, devido a sua atuação durante a pandemia. O país é recordista no número de infectados (cerca de 3,3 milhões de casos) e de mortos (aproximadamente 135 mil) por covid-19, segundo balanço de ontem da Universidade Johns Hopkins.


;Sempre que um presidente em exercício busca reeleição, a eleição é em grande parte um referendo sobre o titular. A maioria dos americanos não quer mais quatro anos de Trump;, disse ao Correio o cientista político Lincoln Mitchell, professor da Universidade Columbia, de Nova Iorque.


;Em janeiro, as pesquisas de intenção de voto ficaram empatadas, por que muitos americanos aprovaram a economia e o racismo de Trump, enquanto outros se opuseram a ele por suas políticas de fanatismo e de direita. No entanto, seu péssimo comportamento durante a pandemia levou a maioria dos americanos a acreditar que é hora de mudar. Se a eleição fosse hoje, Biden venceria;, acrescentou Mitchell.
Para Günther Richter Mros, professor de Relações Internacionais da Universidade de Santa Maria (UFSM), com uma eventual eleição de Biden, as relações entre Brasil e EUA poderão ser caracterizadas, de partida, sob dois pontos distintos, porém não excludentes.


;Biden poderá ligar a figura de Bolsonaro ao trumpismo e, nesse sentido, cobrar com maior veemência débitos internacionais do Brasil, dos quais o desmatamento da Amazônia seria neste momento o mais evidente;, disse o Mros.


;Mas, no alto nível, nas relações de Estado, Biden não pode descartar o Brasil de sua política externa, sob pena de dar à China a oportunidade de maior aproximação com o Brasil, mesmo que isso pudesse ser, na atual conjuntura ideológica, algo impensável. Ocorre, entretanto, que a China é a maior parceira do Brasil e o dinheiro, mais cedo ou mais tarde, costuma ser bem pragmático;, acrescentou o professor.


Ele ponderou, entretanto, que os americanos sabem ser pragmáticos, e Biden, de olho na China, não colocará o Brasil na ;geladeira; por causa da relação Trump-Bolsonaro.

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