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Sucessão no Congresso mobiliza Executivo

Apesar de as eleições no Parlamento serem apenas em fevereiro, governo busca um nome do Centrão para a cadeira de Rodrigo Maia. No Senado, Davi Alcolumbre anseia por mudança na Constituição para seguir na presidência da Casa

postado em 20/07/2020 04:17
Alcolumbre tem apoio do governo para tentar seguir à frente do Senado. Na Câmara, intenção do Executivo é colocar um governista no lugar de Maia

O que um candidato governista desconhecido, uma incerta proposta de emenda à Constituição (PEC) e uma aliança com a oposição têm em comum? A resposta são dois intrincados processos eleitorais para as presidências da Câmara e do Senado, que ocorrerão em um cenário de pandemia e com um tempo curto para articulações. Os pleitos no Congresso só serão definidos em fevereiro, mas o trabalho do governo em busca de um deputado do Centrão para a cadeira do presidente Rodrigo Maia (DEM-RJ) antecipou os debates. Na outra Casa, há a ambição do senador Davi Alcolumbre (DEM-AP) de cravar a reeleição na mesma legislatura, por meio de PEC, já que a medida é proibida pela Carta Magna.


É nesse cenário que as articulações nas duas Casas do Parlamento se entrelaçam. No Senado, a reeleição de Alcolumbre, embora pouco provável, seria positiva para o presidente Jair Bolsonaro, que tem no parlamentar um interlocutor de confiança. Porém, na Câmara, a PEC que pode permitir a manobra da manutenção de Alcolumbre na Presidência tem potencial para reeleger, também, Rodrigo Maia. Isso acabaria com os planos do Executivo e do Centrão de colocarem um governista para comandar a Casa. Seria uma derrota significativa para o chefe do Executivo e sua base, a postos para defendê-lo de eventuais processos de impeachment e para enfraquecer o poder de Maia entre os pares.


A ambição de Alcolumbre não é recente, mas ganhou força nos últimos meses. Primeiro, com a rusga entre Maia e o governo, há cerca de 60 dias, que culminou com uma entrevista de Bolsonaro a uma rede de tevê na qual afirmou que o presidente da Câmara estaria ;conduzindo o Brasil para o caos;. A consequência da animosidade foi o projeto de ajuda a estados e municípios na pandemia começar a tramitar pelo Senado, o que fortaleceu a relação de Alcolumbre com o governo. Em seguida, o debate do adiamento das eleições municipais aproximou o presidente do Senado dos ministros Luiz Fux e Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF).


Um parlamentar atento às articulações, porém, demonstra ceticismo com a movimentação. ;A proximidade de Davi com ministros do STF, por conta do debate do adiamento das eleições, não representa proximidade para sinalizarem positivamente a uma PEC à reeleição de um presidente do Legislativo. Isso poderia abrir um precedente perigoso;, afirma, pedindo anonimato. ;Não digo no caso do Davi, mas no futuro.; A tradição no Senado é que o presidente da Casa saia do partido com a maior bancada. O rito foi quebrado quando Alcolumbre se elegeu em fevereiro de 2019 e será rompido novamente se ele conseguir a façanha. Por isso, a tendência é de que os partidos mantenham silêncio até que o caso se desenrole.

Corrida
O último elemento da equação é a aliança com a oposição na Câmara. Quando o governo fechou com o Centrão, levou para si pouco mais de 200 votos e parte dos partidos que apoiava Maia. O número é mais do que suficiente para barrar um eventual processo de impeachment. Mas a manobra também dividiu o Parlamento em três blocos: o do Centrão; o de um bloco independente com o presidente da Casa como representante; e o da oposição. Os parlamentares de esquerda têm 131 votos, portanto, só às custas de muito trabalho conseguem, por exemplo, alterar ou deter projetos de lei que contrariem suas pautas. A conta, no entanto, é significativa para as eleições e colocará o desunido grupo de partidos como fiel da balança.


O líder do PT, Enio Verri (PR), destaca, porém, que o antibolsonarismo é marca do grupo. ;Se o prestígio de Jair Bolsonaro estiver em queda, ele não terá força para influenciar as eleições na Câmara. Digamos: ele tem uma base de eleitorado de 30%. Hoje, deve estar em 27%. Se chegar lá ; com coronavírus, mortes, crise econômica, desemprego ;, com 15%, ele não terá força para construir um candidato;, argumenta. ;Mas é cedo para avaliar. Nós, da oposição, somos 131 votos. Somos determinantes em um resultado eleitoral. A postura da oposição é antibolsonaro. Isso pode nos levar à candidatura própria, ou a fazer alianças. É a conjuntura política que vai nos dizer.;
Um parlamentar próximo de Maia segue a mesma lógica. Se a dinâmica não mudar, ganhará o candidato apontado pela esquerda, avisa ele. ;Se fechar com o candidato de Rodrigo Maia no primeiro turno, será difícil ter outra candidatura. A composição destruirá qualquer tipo de articulação;, acredita. Questionado sobre uma eventual reeleição do deputado, diz que apoiaria. Já o líder do DEM, Efraim Filho (PB), destaca que o próprio Maia se mostra mais voltado à sucessão. Ele não vê espaço para debater uma PEC dessa magnitude em um semestre com eleições municipais, coronavírus e reforma tributária.


;Ele (Maia) trabalha muito mais com foco na sucessão do que na reeleição. O Rodrigo é o melhor cabo eleitoral, e o candidato que ele apoiar surge com grandes chances de ser vitorioso. O Centrão levou 200 votos para Jair Bolsonaro, mas não tem a maioria. A maioria será construída pelo candidato dos independentes e da oposição, mas ninguém sabe quem é o candidato;, ressalta. ;E o menos interessado em antecipar a disputa é o próprio Maia. Eu sei quem ele não vai apoiar. Não apoiará quem antecipar o processo sucessório, porque estará desconstruindo o mandato dele, que vai até fevereiro. As eleições no Congresso não são maratonas. São eleições de chegada, de tiro curto, uma corrida de 100m. O Alcolumbre, faltando 15 dias para a eleição (em 2019), poucos apostariam nele. E ele se elegeu. Quem adianta 10 meses com candidatura posta tem grande chance de errar.;


Líder do governo no Senado, Fernando Bezerra (MDB-PE) acredita que a possibilidade de reeleição de Alcolumbre ocorrerá até o fim de agosto. ;No cenário da possibilidade de reeleição, ele deve ter uma reeleição muito tranquila pelo trabalho que realiza. Tem uma relação muito boa com todos os senadores e tem feito um trabalho de muito equilíbrio, reconhecido por todas as correntes políticas;, frisa. ;Não havendo a possibilidade de reeleição, é uma coisa que se abre para muitas alternativas, e não dá para antecipar.;

Covid

O analista político Melillo Dinis diz que o número de mortos por coronavírus, a gravidade da crise econômica causada pela pandemia e a capacidade de articulação do governo serão preponderantes para definir se Bolsonaro terá forças capazes de construir um candidato com o Centrão. ;O governo federal adentrou na composição na disputa política da Câmara tentando mudar o jogo a partir de 2021, o que tem sido feito a duras penas, e com descumprimentos de acordos de votação. Não sei como o governo vai ser eficiente se não tem palavra;, afirma. ;No jogo da política, mesmo que tenha jogo duplo, triplo, você vai ter dificuldade de fazer acordo com quem você não confia ou não tem poder de retaliação.;


Sobre a eventual reeleição de Alcolumbre, o especialista avalia como remota. ;Não vejo muita possibilidade, a não ser uma forma de lidar com uma hecatombe. Mas, no momento, o grupo dos eleitores do Senado está aguardando a definição de quem cairá no colo de Alcolumbre. E é possível ter alguém do MDB, do PSDB. Eu suspeito que teremos surpresas. O mais provável são novos presidentes da Câmara e do Senado;, argumenta. ;E as lógicas das casas são completamente diferentes. Enquanto o Senado tem essa realidade de um clube muito próximo da Academia Brasileira de Letras, uma academia de políticos experientes, a Câmara vai ter uma disputa fratricida, um jogo pesado, em que se prometem mundos e fundos e, às vezes, se entregam os mundos e os fundos.;

Bolsonaro: votos valerão até 2022

O presidente Jair Bolsonaro disse a apoiadores, no Palácio da Alvorada, ontem, que os votos que o elegeram valerão até 2022. ;Vocês estão aqui, no coração, fazem movimentos democráticos para, exatamente, mostrar que o voto de vocês de 2018 vai valer até 2022;, enfatizou. ;Quer trocar? Troque nas urnas.; Ele é alvo de 48 pedidos de impeachment protocolados na Câmara, à espera de uma decisão do presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), sobre pautar ou não algum dos requerimentos. O chefe do Executivo se recupera da covid-19. Ele caminhou até o espelho d;água para conversar com simpatizantes, que se aglomeraram do lado de fora do Palácio. Muitos deles, sem máscaras.

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