Publicidade

Correio Braziliense MATÉRIA DE CAPA

Fãs sem limites

Você rodaria o mundo atrás do seu ídolo? Pagaria uma viagem cinco estrelas para ele? Vestiria um disfarce de segurança só para chegar mais perto? Pois encontramos gente que já fez tudo isso - e faria muito mais


postado em 11/06/2010 22:40 / atualizado em 11/06/2010 22:45

Carolina Samorano
Especial para o Correio

Quem nunca teve um ídolo? Alguns se contentam com pais, avós, irmãos. Outros reverenciam cantores, bandas, atores e celebridades em geral. Marco Antônio viajou ao exterior mais de uma vez na tentativa de conseguir um aperto de mão dos legendários integrantes dos Beatles e acabou conseguindo mais. Júlio tem guardada em casa, entre pôsteres, livros e discos, uma cópia da certidão de nascimento de Roberto Carlos. Os admiradores de uma ex-BBB resolveram presenteá-la com uma viagem cinco estrelas à Europa pelo seu aniversário. Já as fãs mirins de Luan Santana, o mais novo fenômeno pop sertanejo, usam anéis de coco iguais aos do cantor como símbolo do seu compromisso com o amado platônico, a quem elas chamam de “melhor namorado do mundo”.

“Ter um ídolo é um fenômeno comum na adolescência. Todo mundo teve um dia, mesmo que em diferentes níveis de fanatismo. Às vezes, passa; às vezes, a pessoa cresce e continua fã. Na maioria dos casos, é inofensivo”, garante a professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo Leila Tardivo.

Se os fãs precisam do ídolo, é fato que ele também não vive sem seus admiradores. A cantora Ivete Sangalo, por exemplo, dedica enorme atenção aos fãs no Twitter. Sandy segue a mesma linha, assim como Luan Santana — que se refere aos admiradores como “amores”.

A Revista entrou no mundo dos chamados fãs de carteirinha, daqueles que investem tempo, dinheiro e amor incondicional numa relação que, muitas vezes, é apenas platônica.


As
As "namoradas" de Luan Santana: meninas de Brasília formaram fã-clube do ídolo pop sertanejo (foto: Gustavo Moreno/CB/DApress)
Emoções ele viveu

Entrar na casa do policial civil Júlio José Teixeira, 41 anos, é como visitar um museu da vida e obra de Roberto Carlos. Em cada cômodo e porta de armário, uma revista, um livro, uma fotografia antiga, um disco raro encapado. A começar pelo lado de fora. O fã do rei recebe a reportagem com uma camisa cujos dizeres são impossíveis não reconhecer: “Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi”. É impressionante a desenvoltura com que fala da vida do ídolo. Diga uma música e ele de pronto lhe dará a autoria, o ano em que foi gravada e até com quem Roberto era casado. “Às vezes, eu sei a época pelo estilo da música. Se é mais alegre, mais divertida, provavelmente é da época de Myrian Rios (segundo casamento do cantor).”

Uma foto na parede do escritório denuncia que o policial não é o único fã da casa. Nela, a filha de 9 anos, a mulher e Júlio sorriem abraçados a Roberto, num show que fez em Brasília em 2008. “Nunca tinha conseguido entrar num camarim dele antes. E olha que foram mais de 10 shows.” Danielle, a filha, herdou do pai a paixão. Sabe de cor as músicas, avisa sobre aparições na TV e nas revistas. “Ela começou a gostar naturalmente, de tanto ouvir aqui em casa”, palpita Júlio. Foram 34 anos de espera, desde que o fã ouviu pela primeira vez a voz de Roberto no rádio, cantando Eu quero apenas, até aquele primeiro encontro, que resultou na foto, há dois.
“Como ele diria, ‘com palavras não sei dizer’”, descreve Júlio, sobre aquele encontro. “As pessoas dizem que pode ser ruim você conhecer pessoalmente o seu ídolo porque pode se decepcionar. Não foi assim com ele. Eu estava com um blazer preto e fiquei com medo de ele não gostar, por causa da superstição, mas ele veio até mim, me abraçou, pediu para tirar foto. Eu estava com as pernas bambas”, relata. A segunda vez, no ano passado, não foi diferente. “A gente sempre fica nervoso, pensa em coisas para falar. Na hora nunca sai nada do que você planejou.”

Júlio tinha só 5 anos quando ouviu pela primeira vez Roberto Carlos cantar na rádio que queria ter um milhão de amigos. Cantarolava o refrão o dia inteiro, mas nem sabia de quem era a voz. Três anos depois, ganhou o primeiro compacto, com a mesma música. “Como era o único que a gente tinha em casa, escutava o dia inteiro”, lembra. A coleção que hoje Júlio foi iniciada um pouco depois, quando ele começou a dedilhar canções do ídolo no violão. “As músicas dele são fáceis para quem está aprendendo. Eu comprava aquelas revistas com cifras e vinha um pouco da história do cantor junto. Foi aí que comecei a me encantar por ele.” As revistas do outrora aprendiz de violão ainda estão lá, preservadas como se tivessem saído ontem da banca.

O acervo de Júlio

Nenhum episódio da vida do rei passou despercebido por Júlio. O primeiro casamento? Está lá, em páginas plastificadas de uma revista antiga. Filhos? Também. Discos, CDs, livros que o cantor escreveu em 1967 (você sabia?), tudo arquivado em pastas com uma organização de causar espanto. Até uma gravação de 1966 em que Roberto Carlos mostra uma nova composição à banda. Os especiais de fim de ano da Globo ficam enfileirados na prateleira, um a um, desde 1974. “Só não tem o de 1999”. Como assim? “Foi o ano em que Maria Rita (última mulher do cantor) morreu. Não teve especial”. Ah, bom! E, entre pastas, revistas, LPs e CDs, lá estão uma cópia da certidão de nascimento e uma do rei. Entre outras relíquias, pétalas e folhas de rosas que ele recebeu das mãos do ídolo em alguns dos shows em que foi. Em quase todos, sentou-se na primeira fila.

Por falar em show, Júlio puxa da memória algumas histórias que consegue lembrar das 14 apresentações a que foi aqui em Brasília. A primeira em 1984, no Ginásio Nilson Nelson, quando tinha apenas 15 anos. A apresentação estava marcada para as 22h, mas o relógio não marcava nem uma da tarde quando Júlio e mais dois amigos esperavam os portões serem abertos. “Levamos um bolo, seis iogurtes e nove sanduíches para beliscar”, recorda-se. “Quando o pessoal começou a chegar, era todo mundo mais velho, meio chique. Ficamos com vergonha de abrir a mochila e comer as coisas. Passamos fome até o fim do show”, lembra, entre risadas.

Em outra ocasião, disfarçou-se de segurança para tentar se aproximar do ídolo. “Vesti a roupa e disse que queria fazer uma vistoria no palco. Fiquei lá um tempo, vi a banda passar o som. Quando foi chegando a hora do show, sentei em uma cadeira da primeira fila, para convidados, e fiquei torcendo para ninguém chegar. Acredita que o dono da cadeira não apareceu? Foi por Deus”, acredita. Em 2005, Júlio esteve em Cachoeiro do Itapemerim (ES), cidade natal do ídolo. Ele foi com seu acervo representar a região Centro-Oeste na 1ª Semana do Rei. “Conversei com o primeiro professor de violão dele. Visitei a casa em que ele morou, o quarto que nasceu, vi tudo.”

De todo fã-clube que tem notícias da existência, Júlio logo se adianta em fazer um cadastro. Foi ele, aliás, quem criou em 1997 o primeiro fã-clube virtual do rei. “Fiz tudo meio artesanalmente, virava noites no computador para criar o site.” Por meio dele, fez amigos do Brasil inteiro. Um deles é Eduardo Lages, o maestro de Roberto Carlos. “Foi por causa dele que consegui entrar no camarim. Ele sempre pede a nossa opinião quando vai gravar uma música. Virou um amigo.” Recentemente, Júlio sofreu com o ídolo a morte da mãe, eternizada na música Lady Laura. “Vi quando ele chorou ao cantar a música no primeiro show que fez depois de enterrar a mãe. Não tem como não se emocionar vendo a cena. É como se ele fosse alguém da família, um amigo”, compara.

Entre as relíquias
# Cópias da certidão de nascimento e identidade do cantor
# Uma gravação de 1966 de um ensaio do rei com a banda
# Livros de 1967 escritos por Roberto Carlos

Com eles em qualquer lugar

Eles estão nos shows, nos hotéis e nos camarins. E agora também nas redes sociais. No Twitter, os fãs quase fazem o contador de seguidores do site entrar em pane nas páginas dos ídolos. Tudo para ficar cada vez mais perto deles.

  • A disputa entre o ator Ashton Kutcher e Britney Spears pelo primeiro lugar no ranking dos mais seguidos no Twitter é acirrada. O bonitão de Hollywood tem 4.974.328 seguidores, enquanto a loura já contabiliza 4.997.719
  • A banda Hori, que tem como vocalista Fiuk — filho de Fábio Jr., o Bernardo na trama teen Malhação ID, da TV Globo —, pretende entrar para o Guinnes Book no ano que vem com a maior carta já escrita por fãs. A campanha está rolando no site da banda. Até agora a carta tem 20km.
  • O disco Xou da Xuxa 3 (1988) vendeu 3,5 milhões de cópias e levou a Rainha dos Baixinhos ao livro dos recordes. Até 2006, quando Xuxa completou 20 anos de Globo, ela havia ganhado mais de 30 mil presentes dos fãs.
  • No Brasil, o campeão de seguidores no Twitter é Luciano Huck, com 1.926.285. Depois vem a cantora Ivete Sangalo, com 915.094 fãs twiteiros. Pelo perfil, ela acompanha os fã-clubes: segue mais de 30.
  • Nada de carteirinha. Fã-clube moderno é no Orkut. A busca do site mostra mais de mil comunidades dedicadas ao cantor Luan Santana. No site oficial dele, são 417 fã-clubes registrados, sendo São Paulo o estado campeão (109). Os fãs estão até fora do país — há um fã-clube português cadastrado na página.
  • O cantor Elvis Presley tem um fã-clube no Brasil em atividade desde 1962. O mais antigo dos Beatles por aqui é o Cavern Club Brasil, que existe desde 1977.
O melhor namorado do mundo
Júlio Teixeira se encantou pela voz de Roberto Carlos quando tinha 5 anos: já se passou até por segurança para entrar no palco em um show (foto: Rafael Ohana/CB/DApress)
Júlio Teixeira se encantou pela voz de Roberto Carlos quando tinha 5 anos: já se passou até por segurança para entrar no palco em um show (foto: Rafael Ohana/CB/DApress)

As namoradas — sim, são quase 600 — nunca o abraçaram por mais que alguns segundos. Algumas nunca chegaram a tocá-lo. O namorado em questão é Luan Santana, cantor sertanejo de 19 anos que tem feito suspirar adolescentes do país inteiro. Algumas chegam a usar um anel igual ao do amado na mão esquerda como sinal do compromisso. “É que ele diz em todos os shows que é namorado das fãs, então…”, justifica Janara Silva, 18 anos.

As namoradas que Luan Santana têm em Brasília fazem parte do fã-clube Amor além da vida, que nasceu de um grupo de amigas aficionadas pelas músicas do ídolo. “Para falar a verdade, no início eu nem fui muito com a cara dele”, confessa a vice-presidente e uma das fundadoras do fã-clube, Andressa Soares, 14 anos, segurando numa das mãos a pasta recheada de fotos do cantor e na outra um pôster com o dobro do seu tamanho. Quando o assunto é o que elas mais gostam no ídolo, impossível chegar a um consenso. “O carisma!”, uma delas se adianta. “A simpatia”, diz a outra. “Porque as músicas dele são legais”, grita uma terceira. “Ah, é tudo”, resume a última. Mas se você pergunta detalhes da vida do cantor, elas sabem o dia do aniversário, o número que ele calça e até o jeito como ele dorme: “De camiseta e cueca”, respondem em uníssono.

“A gente fala dele o dia todo, inclusive na escola. Lá, nos deram o apelidos de ‘luanetes’ ”, conta Tatiana Reis, 16. Em casa, a briga é para ver quem consegue tirar o CD do cantor do aparelho de som. “É quase um ritual. Eu vejo o DVD todos os dias, decorei todas as músicas, até os gestos que ele faz. Ninguém mais aguenta lá em casa, mas eu não ligo”, diz Tatiana. E ai de quem se atreva a dizer o nome do ídolo em vão na frente dessas ferozes namoradas. “Uma vez, falaram no Twitter que o Luan era vesgo. A gente se juntou em peso para brigar com ele. Ele bloqueou todo mundo”, conta Andressa. As supostas namoradas (as de verdade, no caso) que saem na mídia também não escapam do veneno das fãs. Há algumas semanas, saíram boatos sobre o cantor estar namorando uma atriz de novela. Os dois desmentiram. “Ela é feia!”, opina Janara. “Ah, não é que ela seja feia. Na verdade, a gente que implica, rola ciúmes mesmo”, pondera Juliana Gurgel, 15, presidente do fã-clube.

Para chegar perto do ídolo, essas meninas fazem qualquer coisa. No dia da entrevista, faziam revezamento com um rádio no ouvido. Não queriam perder a hora de ligar para a rádio e concorrer à chance de entrar no camarim do ídolo num show que ele faria no dia seguinte. Numa outra oportunidade, seis delas ganharam em uma dessas promoções a chance de assistir a um show do cantor só para fãs. Entregaram, na ocasião, uma carta quilométrica ao ídolo, cheia de declarações de amor e beijinhos de batom, mas não puderam chegar muito perto — fazia parte das regras. Como se isso fosse impedimento. “Segui o ônibus dele até uma churrascaria. Quando cheguei lá, ignorei os seguranças e agarrei ele!”, conta Mariana Isa, 16. A camiseta que ele autografou nunca mais foi lavada.
Fã-Clube Amor Além da Vida
# Originário de Brasília
# Fundado em 2010
# 579 fãs cadastrados, 1.554 seguidores no Twitter e mais de 2 mil

De olho neles

Alguns sinais podem ser a dica de que a idolatria do seu filho por alguém passou do limite do saudável e atravessou a linha do patológico

 

  • A pessoa começa a se afastar da família e dos amigos e passa a prestar cada vez mais atenção a sites, revistas e tudo o que tenha relação com o seu ídolo
  • Ela começa a achar que o ídolo é a única pessoa que realmente a entende e começa a criar uma relação de amizade ilusória com a celebridade
  • A criança ou adolescente não sente prazer em atividades comuns a pessoas da idade dela como se reunir com os amigos ou praticar esportes. Prefere dedicar esse tempo ao ídolo

Fonte: Jim Houran, psicólogo da Southern Illinois University.

Leia essa reportagem completa com outras histórias de fãs na edição impressa








Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade