Maria Júlia Lledó
e Rayanne Portugal//Especial para o Correio
Em cartaz nos cinemas, o filme Cartas para Julieta narra uma dessas coincidências da vida que a sétima arte tão bem ilustra: o reencontro. Nele, a personagem da atriz Amanda Seyfried descobre no muro da casa onde supostamente viveu Julieta, uma das heroínas de Shakespeare, uma carta escrita há meio século. A correspondência a conduz até a senhora interpretada pela veterana Vanessa Redgrave, que na trama reencontra um amor do passado. O detalhe curioso é que a própria atriz está, de fato, às voltas com a reaproximação de uma paixão antiga. Ele é Franco Nero, o ator com quem contracenou no musical Camelot, em 1967. Os dois tiveram um relacionamento, separaram-se e, após décadas, voltaram a se unir. Para dar mais charme à trama, o próprio Nero vive seu par romântico no filme.
Não é raro encontrar casos assim longe da ficção. ;Penso que destino, sorte e decisões pessoais se misturam para isso que chamamos de golpes bons ou maus na vida. Não há muita explicação. Encontros, reencontros, descobertas, dependem em parte de nossa visão de vida, de nossa postura. Se formos pessimistas e lamurientos, tudo é ruim. Se apostarmos mais na vida, quase tudo tem algo de bom;, reflete a escritora Lya Luft, que recentemente lançou o livro Múltipla escolha (Editora Record), e já viveu uma experiência parecida.
Encontrar novamente um amor do passado, seja por uma grande coincidência ou por iniciativa própria, não significa encontrar a mesma pessoa. O tempo, a distância e as experiências mudam e moldam as pessoas de diferentes formas. Passados os anos, aquele homem é apenas a lembrança do jovem e a mulher estará mais madura e vivida. ;Os encontros amorosos guardam uma idealização. A gente só pode dizer que houve um reencontro quando as pessoas se percebem do mesmo jeito, mas isso é muito difícil de acontecer. Na verdade, são novos encontros;, constata a psicanalista Antônia Verdésio.
Talvez por isso, seja tão desconcertante rever o grande amor, como escreveu Tom Jobim e Chico Buarque em Anos Dourados. Imprevisível por definição, rever alguém tão importante requer um pouquinho de sorte, uma mão do destino e muita coragem. Para contar essa história, conversamos com casais de diferentes idades e vivências. Cada um deles conta como foi esse período de encantamento, separação e reaproximação.
Um futuro ainda melhor
Quantas histórias de amor começaram num baile de carnaval? Para cada um que pensar na resposta, virão lembranças fugazes e outras nem tanto. São recordações guardadas com carinho, mesmo depois de confetes e serpentinas varridas do chão. Foi assim com a economiária Vivian de Souza e o consultor técnico Cláudio Carvalho. Ela tinha 15 anos e ele, 25, quando se encontraram num clube em Caldas Novas (GO). Na época, ficaram amigos. ;Minhas amigas até achavam que ele estava afim de mim, mas eu achava que não tinha nada a ver;, conta Vivian.
Desde aquele feriado, os dois não deixaram mais de se falar. Aos olhos dos pais e de colegas havia ;algo mais; naquela amizade, mas Vivian o via como um grande amigo. Aos 18 anos, ela terminou um namoro. Cláudio também rompeu um relacionamento e não demorou muito para que ele se declarasse apaixonado pela amiga. ;Não tinha pretensão que desse certo, afinal éramos amigos, mas aí eu também me apaixonei;, conta Vivian.
Um desencontro, no entanto, abalou os primeiros meses do namoro. A ex-namorada de Cláudio estava grávida e ele achou que a atitude correta naquele momento seria casar-se com ela. ;Foi um choque, mas tive que seguir em frente, prestar vestibular, fazer minha vida;, lembra Vivian. Depois de oito anos, ela também se casou, coincidentemente no mesmo período em que ele se separava.
o total, foram 13 anos sem notícias um do outro, até um outro feriado de carnaval lá mesmo, em Caldas Novas. O reencontro, neste ano, despertou o mesmo encantamento de Cláudio, mas não acendeu faíscas em Vivian. Mesmo com o casamento em crise há algum tempo, para Vivian as escolhas haviam sido feitas no passado e o que ficou para trás, ficou. Esqueceu do reencontro com Cláudio, mas acabou se separando naquele mesmo ano. ;Meu marido e eu tínhamos sonhos diferentes, e por isso o casamento já não estava nos fazendo felizes.;
Depois de um tempo sozinha, Cláudio voltou a procurá-la. Junto com uma nova declaração de amor, ela ganhou um beijo. Foi o fim dos desencontros. ;Parecia que tinha 18 anos de novo. Todo aquele sentimento voltou;, lembra Vivian. Dois meses depois, Cláudio a pediu em casamento. ;Tudo aquilo que eu sentia por ela ficou guardado, mas não achava que teria uma segunda chance. Agora não a perco mais;, disse Cláudio, hoje aos 42 anos. Agora, aos 32 anos, Vivian acha que eles estão prontos para ficar juntos. O casamento não tem data marcada, mas isso pouco importa para o casal. ;Me sinto como num filme. Agora está tudo no lugar: os protagonistas estão juntos, como em um final feliz;, alegra-se Vivian.
Havia uma surpresa no meio do caminho
Por três anos, muitas cartas de amor. Foi assim que Lucirene Afonso da Silva e Anilson Ramos Coelho namoraram a distância. Primos distantes em parentesco, Lucirene e Anilson trocaram correspondências quando ele tinha 17 anos e ela, apenas 13. O casal morava em cidades vizinhas de Minas Gerais. Ela, em Patrocínio; ele, a 72km, em Patos de Minas. Nada muito sério, apesar da família ter conhecimento do namoro.
Para investir na carreira, Anilson mudou-se para Brasília e aqui se casou. ;Fomos nos distanciando e paramos de nos corresponder. A gente sabia alguma coisa da vida do outro, mas não nos encontramos de novo;, lembra Lucirene que, ainda em Minas, casou-se e teve uma filha. Quando a menina tinha seis anos, ela se separou e veio morar em Brasília, na casa da mãe.
Passaram-se 22 anos até o dia de uma visita casual de Anilson à casa da mãe de Lucirene. Ela não esperava rever aquele amor da adolescência. Foi então que soube que Anilson estava viúvo e que criava sozinho as três filhas. ;O coração bateu forte;, conta Lucirene. Depois do encontro, passaram a sair juntos. Ela, acompanhada da filha Fernanda, e ele, com as filhas Patrícia, Pablinne e Priscila. Não demorou muito para que ele a pedisse em namoro.
Filha de Lucirene, Fernanda lembra que no começo foi muito difícil deixar de ser filha única para ganhar três irmãs. ;Tive que dividir tudo: quarto, armário, casa, atenção; mas me adaptei bem e somos uma família completa. As filhas do meu padrasto são minhas irmãs.; Ao perceberem esse tipo de conflito e para ajudar as crianças a aceitar o casamento, na época, o casal procurou uma psicóloga. ;Queríamos entender como seria a criação das meninas. Como reunir esses dois núcleos familiares;, conta Lucirene.
Depois de dois anos de namoro, Anilson e Lucirene casaram-se. A relação já dura 22 anos. ;Sorte? Acho que destino, algo guiado por Deus, mas não consigo pensar na palavra certa para definir esse reencontro. Acho que foi o momento certo para os dois;, constata Lucirene. Hoje, as filhas moram, cada uma em seu lugar, e o casal aproveita esse novo momento. Curtem o netinho Victor e uma fase de muito namoro no casamento. ;Somos muito felizes. Esse reencontro é para toda a vida;, assegura Lucirene.
Bendita carona num dia de chuva
Era mais uma manhã de trabalho de 1997. Selma Maria Silva, na época com 37 anos, dois casamentos e três filhos, estava atrasada, preocupada com a forte chuva que caía e com o longo percurso que faria a pé, da chácara onde morava, à margem da BR-020 em Sobradinho (DF), até a parada de ônibus. ;Moça, aceita uma carona? Está chovendo muito;, ofereceu o motorista que parou para ajudar. Ela aceita a carona sem reparar que já conhecia o prestativo senhor: aquele era Mário Sérgio da Silva, o primeiro amor de Selma. ;Não há como explicar o que senti. Eu tremia dos pés à cabeça. Não podia acreditar que Mário estava ali, do meu lado, depois de 20 anos.;
Selma namorou com Mário quando tinha 17 anos e ele, 24 anos. Ele foi o primeiro namorado e primeiro homem a pedi-la em casamento. Insegura com a proposta, ela se esquivou. ;Eu menti, disse que a aliança que ele me deu estava muito apertada. Acho que quis ganhar tempo. Deu certo: a aliança nunca voltou para meu dedo;, brinca Selma. Depois de uma briga e alguns dias de distância, ela descobriu que Mário havia se mudado para Belo Horizonte (MG) sem avisar. ;Fiquei triste e com raiva. Mas não podia fazer mais nada. O noivado estava acabado.;
Selma se casou aos 21 anos; nasceu a primeira filha, Evelin. No ano seguinte, soube que Mário também se casara em Minas Gerais e que já era pai de três filhos. O segundo casamento de Selma veio aos 24 anos, um relacionamento que durou 16 anos marcados por brigas e pelo alcoolismo do marido, com quem teve mais dois filhos, Érica e Diego. ;Eu fui completamente domada. Ele era violento. Cheguei a falar em separação algumas vezes e ele me respondia com ameaças. Vivi com ele uma vida completamente atribulada e inquieta;.
Fragilizada, Selma não se sentia bonita, especial ou livre. Foi a companhia e amizade de Mário que resgataram sua autoestima e coragem. ;Fugi de casa com meus filhos e não voltei mais. Mário foi meu apoio durante esse tempo. Seu retorno à minha vida foi apenas a gota d;água para que eu visse que merecia algo melhor.;
Desde o ano 2000, Mário e Selma vivem juntos. ;Somos namoridos. Não casamos e não pensamos nisso. Assim está bom;, explica o casal. Em 10 anos de união estável, o casal afirma que quase não briga e que nunca se desentendeu de forma agressiva. Selma se sente mais madura e se mostra apaixonada pelo companheiro. ;Não sou mais a mesma mocinha insegura e ciumenta. Aprendi com a vida e nós dois aprendemos juntos a dialogar e investir na pessoa com quem vivemos. Isso é o mais importante.;
Nenhum lugar é tão longe assim...
Eles se conheceram nas praias de Niterói e logo se apaixonaram. Ela, Ana Cristina Teixeira, 17 anos, viajava com primos quando conheceu o carioca Otávio Coutinho, 21. A vontade de ficar junto foi maior e o jovem casal decidiu enfrentar o namoro a distância. Por quatro anos, eles trocaram cartões e, sempre que possível, se encontravam. ;Não sabíamos até onde aquilo iria levar. Não nos preocupávamos em assumir um compromisso;, conta Ana Cristina. Em 1982, Otávio precisou se mudar para Maceió (AL). O namoro terminou, já que o casal não poderia continuar se vendo. ;A distância seria muito maior. Aos poucos, deixamos de nos falar;, lembra Ana.
Durante cinco anos, Ana Cristina não teve notícias de Otávio. Às vésperas do primeiro casamento, ela recebe um telefonema emocionado. Era ele, buscando notícias da ex-namorada. Decepcionado com a notícia de que ela estava prestes a se casar, Otávio não teve coragem de dizer o motivo real da ligação: ele ainda sentia falta de Ana Cristina. ;Nunca admitimos que nosso sentimento era forte e real. Eu estaria com ele se ele tivesse me pedido, teria encarado a distância ou ido viver com ele. Mas nunca dissemos nada e o tempo acabou por nos separar;, conta Ana.
Em 2002, divorciada e com três filhos crescidos, Ana descobre que Otávio estava vivendo no Rio de Janeiro. ;Começamos a nos falar com frequência por telefone. Sempre senti muita falta da relação que tinha com Otávio, do companheirismo, da sinceridade. Tive tudo isso de volta. E dessa vez não houve namoro a distância: em três meses, Otávio se mudou para Brasília;, conta Ana. O casal acredita que o tempo longe um do outro foi fundamental para que o relacionamento tenha sido bem-sucedido no presente. ;Temos lealdade e respeito, o que não existe em todos os casamentos;, afirma Otávio. ;Se tivéssemos juntos desde a juventude, não teríamos dado tão certo;, completa Ana Cristina.
Atualmente, o casal mantém um negócio próprio. Além disso, Ana Cristina dá aulas em escola pública e dedica o tempo livre ao marido e filhos, dentre os quais está a caçula de cinco anos, Olívia, fruto do reencontro do casal. ;Foi uma surpresa maravilhosa engravidar aos 44 anos,; afirma, orgulhosa, a mãe. Depois de oito anos de união, o casal começa a fazer novos planos. ;Queremos oficializar nosso encontro. Em breve, vamos anunciar os preparativos do casamento;, comemora Ana.