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Correio Braziliense MATÉRIA DE CAPA

Entrevista com Içami Tiba

Psiquiatra especialista na relação entre pais e filhos acredita que é preciso reestabelecer a hierarquia e sabor impor limites na base do diálogo


postado em 06/08/2010 14:54 / atualizado em 07/08/2010 17:22

Os filhos de hoje dominam a linguagem digital com a mesma facilidade com  que aprendem uma segunda língua. Vão mais cedo para a escola, passam mais tempo em frente ao computador e, para eles, o tempo real também precisa funcionar para além do virtual: eu quero agora, eu tenho agora. A hierarquia, que há cinco ou seis décadas parecia tão clara, se perdeu. Estabelecer limites virou o maior desafio das famílias modernas. Como encontrar a fórmula ideal da educação? Rigidez afetividade = pai ideal? Na vida real, a matemática é mais complicada do que isso. Em entrevista à Revista, o psiquiatra Içami Tiba explica o que mudou e o que ainda precisa mudar na relação entre pai e filho.

(foto: arquivo pessoal)
(foto: arquivo pessoal)
O filho de ontem hoje é pai. Como ele cria o seu filho, hoje?
Existem duas diferenças primordiais: a tecnológica e a comportamental. Em relação à primeira, os filhos hoje aprendem o alfabeto digital como aprendem uma nova língua. É natural. Agora, é importante salientar é que foram os pais que desenvolveram toda essa tecnologia, que hoje eles presenteiam os filhos. Dão o computador, dão o videogame, o notebook… Em relação à mudança de comportamento , antigamente o comportamento padrão era que o pai de hoje tinha que obedecer ao seu pai e ponto final. Havia uma hierarquia. Hoje, isso não existe. O filho faz o que quer, tem vontade própria, não o que o pai quer. E aí os pais ainda deram a internet. Na frente do computador, ele pode tudo, é dono do mundo. Não existem regras ali.

Antigamente, os pais eram mais rígidos. De maneira geral, hoje os pais são mais relaxados na educação?
Antigamente, tinha o pai bravo, que mal conversava com o filho e chegava só na hora de resolver um problema, já na ignorância. Hoje, os pais que venceram na vida não querem que os filhos sofram o que eles sofreram na infância. Então, tendem a ser mais relaxados, a deixar os filhos mais soltos. Por outro lado, quem diz que não foi o sofrimento que fez com que eles vencessem? Antigamente, os casais tinham muitos filhos, uns oito. Dormiam todos no mesmo quarto. Se o cara não se esforçasse para sair dali, para conquistar seu espaço, ele ia ficar naquilo para sempre. Os pais de hoje acabaram com a meritocracia. O filho não precisa lutar para nada. E aí, quando alguma coisa encrenca com essa educação, eles querem voltar à educação que tiveram dos pais, a do tapa, do grito. Só que aí não adianta mais.

Em compensação, o lado afetivo melhorou? O pai está mais próximo do filho?

Está melhor do que antigamente. Por exemplo, hoje se vê muitos pais brigando para ficar com os filhos na separação. Antes, se os pais se separavam, os filhos ficavam com a mãe e ponto. O pai, se arrumasse outra mulher, ia cuidar dos filhos dela, e não dos dele. Então, os pais não evoluíram só para fazer unha e comprar produto de beleza, eles também evoluíram para trocar fralda, viajar sozinhos com as crianças, estar mais presentes. Hoje, quando dou palestras em escolas, a presença do pai, que era nula, já aumentou, vão uns 15% de pais. Até peço palmas para eles. Alguns já têm noção de que eles também são responsáveis pela educação.

Ao contrário do pai autoritário, ser o melhor amigo do filho é positivo?
Não. Quando um pai me diz que é melhor amigo do filho, eu retruco: “Então, seu filho nem os amigos pode escolher?” É comum também eu ouvir que o filho não sabe escolher os amigos, que os amigos não prestam. Pois, então, o filho não presta também porque a gente sempre se alia às pessoas com as quais temos afinidade, semelhanças. Parece pessimista, mas é para acordar o pai mesmo.  

Na sua opinião, os pais acompanharam ou não as mudanças?

Não acompanharam. Quiseram corrigir a própria infância nos filhos, deixaram eles muito soltos e agora, quando algo dá errado querem impor uma autoridade que não foi conquistada da forma correta. “Me respeita que eu sou seu pai” não funciona com essa geração.
 

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