Por Maria Fernanda Seixas e Carolina Samorano // Especial para o Correio
Em 2007, a web designer norte-americana Ashley White, 26 anos, decidiu que era hora de mudar de ares. Assinou um contrato de aluguel de um loft em Nova York. ;Só que eu não tinha a menor ideia de como transformar um loft em uma casa confortável;, conta. Contratar um profissional de decoração não era uma opção compatível com o orçamento na época. Gastar os tubos com livros e revistas tampouco. Por outro lado, navegar pela internet era de graça. ;Fui buscar referências online e descobri blogs incríveis de decoração com ideias maravilhosas!” Oito meses depois de devidamente instalada no loft ; que assumia, aos poucos, o papel de lar doce lar ;, Ashley resolveu juntar a nova paixão à antiga profissão e inaugurou seu próprio arquivo de referências na web, o blog Decorology. ;Eu estava me divertindo tanto transformando meu estúdio em um espaço que refletia minha personalidade que comecei a ter vontade de dividir essas descobertas com outras pessoas.;
O Decorology é um dos milhares de blogs de decoração, arquitetura e design que se pode encontrar em uma rápida visita à web. Juntos, eles consistem em um poderoso arquivo de referências capaz de brigar de frente com algumas coleções de revistas e livros especializados, mas com a vantagem de se dirigir ao leitor em uma linguagem muito mais simples e direta. Além disso, reúnem ideias muito mais próximas da realidade do que grandes projetos arquitetônicos completamente incompatíveis à maioria das contas bancárias. Isso porque grande parte desses blogs são assinados por gente comum. Médicos, jornalistas, fotógrafos ou donas de casa que encontraram neles uma forma de extravasar a criatividade e compartilhar projetos capazes de transformar um ambiente vazio e sem graça em um lugar bonito e acolhedor.
A maioria desses blogs reúne de fotos de capa de revista especializada a imagens de achados em lojas e decorações simpáticas engenhadas pelos próprios leitores ; esses, aliás, bastante participativos. A lista de categorias de postagens quase sempre compete ; e muitas vezes ganha ; com os assuntos abordados por publicações especializadas. O que você procura? Suítes? Cozinhas grandes? Pequenas? Apartamentos? Varandas? Banheiros? Tudo lá.
No Decorology, por exemplo, o primeiro post fala sobre velas a bateria, que queimam infinitamente. Rolando a tela para baixo, dicas de tendências em decoração ; branco total ou étnico? ; e maneiras divertidas de se pendurar quadros e fotografias pela casa. ;Esse post foi superútil! Às vezes, é preciso boas soluções para pendurar quadros de uma maneira diferente na parede!” agradeceu, nos comentários, uma leitora empolgada.
Graças a Ashley e aos seus outros companheiros cibernéticos procurar por referências de design e decoração ficou fácil. ;Hoje, existe muito mais informação disponível para os interessados em mudar a casa. De certa forma, os blogs globalizaram a decoração, porque pegamos ideias uns dos outros. Gente do mundo inteiro visita a sua casa pela internet e você visita a deles também;, analisa a blogueira austríaca Jenny McCown, 48, autora do My Pink Door, batizado justamente em homenagem à enorme porta pink que recepciona os visitantes que chegam à sua casa e que já figurou em alguns blogs de decoração mundo afora. ;As reguinhas estão caindo. Tanto os arquitetos quanto as pessoas querem experimentar. Não existe estilo certo ou estilo errado. Existe estilo que combina com você;, admite a arquiteta Paula Calainho.
Aprender com os erros e os acertos alheios é uma das regras que fazem desses blogs um enorme sucesso entre os decoradores anônimos ; gente que se aventura a transformar o lar sem pedir uma opinião sequer a decoradores e arquitetos. ;Isso é a democratização da decoração;, opina a blogueira Jen Ramos, dona do Made By Girl, que já contabiliza 150 mil acessos todos os meses. "Não importa se mostramos uma casa de um milhão de dólares ou um apartamento de 100 metros quadrados. As pessoas se identificam de alguma forma e se inspiram."
;A internet teve um papel essencial na forma de se fazer decoração. Antes, tudo o que as pessoas tinham eram revistas e mostras de decoração. Elas não viam outras casas, outras experiências;, complementa Vivianne Pontes, uma das raras representantes brasileiras na blogosfera decorativa.
A crafter carioca é dona do Decoeuração (uma brincadeira com as palavras ;decoração; e ;coeur;, coração em francês) e passava horas em frente ao computador sonhando com o dia em que seu apartamento fosse publicado em um dos blogs que lhe serviam de inspiração. Hoje, é ela quem publica as empreitadas das leitoras na sua página virtual. ;Recebo mais de 100 e-mails por dia, a maioria de gente que se virou para decorar a casa e quer que eu publique as fotos no blog.;
Como boa editora, nem tudo passa pelo crivo da blogueira. ;Tem que rolar um filtro. Às vezes, gosto da decoração, mas peço para refazer as fotos porque ficaram ruins. E tem coisa que eu não gosto também e não coloco;, conta.
Simpático e aconchegante
Quem: Flávia Quintanilha e Rodrigo Fernandes
Onde moram: Rio de Janeiro
Onde fez sucesso: Apartment Therapy

;Simpático; foi a definição que o pessoal do Apartment Therapy deu quando publicou no blog o apartamento do casal brasileiro. ;Acho que era a única palavra em português que eles sabiam;, ri Flávia. O apartamento de dois quartos nada mais é do que a tradução da vida em família que eles levam no bairro do Leblon. Tanto que a decoração não foi exatamente planejada. ;A gente gosta de construir de acordo com os acontecimentos para que a casa não fique com a cara de uma só época da vida;, explica. A decoração inclui móveis achados em leilões e grandes lojas. O quadro que enfeita a sala de visitas é, por exemplo, parte de um tapume de obra grafitado.
Colorido e personalizado
Quem: Carol Grilo e Ivan Gerônimo
Onde moram: Florianópolis
Onde fez sucesso: Decoeuração

Quem pensa que apartamento alugado limita a criatividade se engana. Desde que se casaram, Carol e Ivan moram no mesmo apartamento de dois quartos em Florianópolis. Pintar as paredes em cores vivas foi a solução para deixar o lugar com a cara do casal. ;Não tem que ter medo. Tem que encarar o lugar como seu e pronto;, indica a moradora. Entre os achados queridos, uma cadeira assinada garimpada num antiquário pela bagatela de R$ 12. As paredes abrigam quadros que Carol aprendeu a fazer olhando blogs de decoração. As prateleiras guardam livros, lembranças da infância, souvenirs de viagens e objetos de família. Mais pessoal impossível.
Apê cheio de estilo
Quem: Gene, Heidi e o filho, Wyeth, de 1 ano.
Onde moram: Nova York
Onde fez sucesso: Apartment Therapy
Gene é diretor de criação numa agência de publicidade e colecionador de arte. Resolveu ele mesmo fazer uma transformação no apartamento da família, no Brooklyn, baseado nos seus conhecimentos em design e no seu acervo. ;Sempre gostamos do design dos anos 1960 e 1970 e olhar revistas antigas ajudou muito a traçar o que queríamos, mas tomamos o cuidado em não deixar nossa casa inteira como se vivêssemos no passado;, explica Heidi. Levou um ano e meio até tudo ficar pronto. O orçamento foi de US$ 45 mil (cerca de R$ 77 mil), incluindo material e móveis ; a maioria garimpada em grandes lojas.
Como dita a moda
Se as revistas ditam regras e tendências criadas pelos arquitetos e designers de interiores, a internet canta a moda dos criativos anônimos. Basta digitar ;decoração blogs; em um site de pesquisa e, rapidamente, você será transportado ao universo ;faça você mesmo; da decoração. Os queridinhos são os ambientes que levam o contraste hi-low (do inglês, alto e baixo) para dentro de casa. Móveis assinados por designers misturados a outros garimpados em brechós e antiquários. O estilo vintage também figura entre as tendências já estabelecidas ; seja ele composto por peças realmente antigas ou por releituras compradas em grandes lojas de design e decoração. Outro fenômeno são os apartamentos e lofts abarrotados de coisas. Estilo que, por aqui, é popularmente conhecido como ;tudo ao mesmo tempo agora;: um monte de informação, de cores e de referências, em um só lugar. E, sim, na casa dos estilosos decoradores anônimos, esse amontoado de coisas faz sentido. A Revista reuniu bons exemplos dessas tendências.
Hi-low

Fernando Guimarães, ator, cineasta e diretor de teatro da capital é um exemplo certeiro do padrão hi-low que funciona. Alguns bons investimentos se misturam a pechinchas encontradas ao acaso. Enquanto a sala tem como peça central uma chaise desenhada por Oscar Niemeyer, logo ao lado está uma luminária angariada na feira do Bexiga (SP). Perto de uma cadeira assinada pelos irmãos Campana, uma mesa encontrada em um brechó caótico em São Cristovão (RJ). Tudo isso misturado a outras peças que prendem a atenção de quem entra na casa: muitos toy arts, uma luminária feita com um farol de fusca, uma pá pendurada na parede, um móvel de compensado branco cujos pés são mãos francesas antigas, esculturas barrocas e um Pato Donald gigante. ;Vou juntando o que eu gosto. Sem muita preocupação com estilo. Não me interesso pela autoria, nem busco coisas de valor. É meramente uma preocupação estética. Do que acho legal.;
Vintage moderno

Na casa da consultora de moda e estilo Júlia Segatto, uma outra vertente da decoração que caiu nas graças da atual década: o estilo vintage moderno. Móveis novos e descolados, mas que foram concebidos quando Júlia ainda nem era nascida. Mesas tulipas, bases de alumínio inspiradas na dupla Eames, banquetas ;M; de Jorgen Moller, uma vitrola, chão de tacos de madeira no melhor estilo anos 1960 e muitas lembranças de viagens que trazem seu estilo pessoal para a casa. ;Amo decorar, buscar referências espiando as janelas dos outros, pesquisando na internet. Mas faço com calma, não tenho pressa. Quando a gente se afoba, acaba fazendo compras que se tornam arrependimento.;
Tudo ao mesmo tempo agora

Já um exemplo perfeito do ;tudo ao mesmo tempo agora; é a quitinete do diretor de arte Ramon Navarro. Cores, informações, fotos, toy art, quadros, discos e muita referência ao estilo kitsch (brega, exagerado). O resultado é uma decoração bem-humorada e intimista. ;A faxineira morre de rir. Diz que isso aqui é uma bagunça eterna. Mas eu adoro as coisas do jeito que estão. É a minha cara, me diverte, me traduz. Casa tem que ter personalidade. É tão bacana entrar na casa de alguém e pensar que aquilo ali é a cara da pessoa. E ficar entretido observando os detalhes. ;
Design na onda fast fashion
No alto de uma prateleira, marcada com uma etiqueta vermelha ; a dos produtos em liquidação ; uma poltrona Barcelona espera por um novo dono. Um pouco mais adiante, em um ambiente montado no meio da loja com sofás e luminárias de linhas modernas, uma cadeira de balanço Eames faz a composição, também marcada com a mesma etiqueta promocional e ainda com a possibilidade de pagamento em incontáveis parcelas. A cena descrita é até bem comum. Poderia ocorrer ; e ocorre ; em qualquer uma dessas grandes lojas de decoração, que estão sempre cheias de gente e seus carrinhos de compras abarrotados ; sim, aqueles iguais aos de supermercados. Comprar design deixou de ser um privilégio da elite a partir do momento em que lojas como essas passaram a traduzir e a incorporar ao seu estoque todas as tendências internacionais em decoração, antes dispostas a preços bem menos amigos nas vitrines das mais luxosas lojas de alta decoração. Uma espécie de fast fashion do design de interiores.
;Elas trouxeram mais opção para o mercado. Abriram horizontes na hora de decorar;, avalia os arquitetos e decoradores Paula Calainho e Tiago Resende. Para Graziela Daiuto, gerente de marketing da rede Etna, que acaba de abrir as portas na capital, oferecer design nas prateleiras das lojas tem muito a ver com o momento do mercado: as pessoas, de repente, passaram a se preocupar mais com o que levam para dentro de casa.
;Quando abrimos a primeira loja, em 2004, já havia uma demanda por móveis de design ; clássicos ou não ; a preços mais acessíveis. A decoração assumiu um papel que antes era prioritariamente do vestuário: traduzir uma identidade", complementa. Sob esse ponto de vista, ela acredita que boa parcela dos clientes que vai hoje à loja procura mais que mesas e cadeiras: busca ; e paga ; por design. ;Hoje, uma cadeira não é mais uma cadeira.
Ela tem nome. O desenho cresceu muito no Brasil e, principalmente, de cinco anos para cá, as pessoas compram essas peças sabendo o que são e qual o valor delas;, analisa o empresário João Livoti, criador da loja Desmobília, especializada em peças de alto design.
O segredo em conseguir vender essas peças a cifras menos exorbitantes, segundo Graziela Daiuto, está em dois pontos chave. O primeiro é o fato de que todos os móveis dispostos nas prateleiras serem, na verdade, baseados nos originais. Além disso, são peças do início do século 20, ou seja, já caíram no domínio público e a empresa não precisa pagar os royalties ao designer, o que fatalmente encareceria o produto. O segundo está nos materiais usados na fabricação. ;Procuramos substituí-los por alternativas mais baratas, que diminuem o custo final do produto;, explica a gerente da Etna.
No caso da Desmobília, as peças são fabricadas em Curitiba, o que acaba por diminuir os custos com transporte, por exemplo. Isso explica, pelo menos em parte, por que peças que estampam livros de história do design têm aparecido com tanta frequência em revistas populares e blogs que pregam a decoração a baixo custo. Simplesmente porque comprar design não significa mais investir uma pequena fortuna.
Ainda com tanto frison em torno do design, fazer móveis diferenciados no Brasil é um desafio. O público, quando descolado, opta pelos clássicos de desenhistas internacionais. Seja pelo peso da assinatura (quem não quer um Arne Jacobsen em casa?) ou pelo preço mais acessível. A designer e arquiteta brasiliense Milena Miranda, que já expôs na II Bienal Brasileira de Design e foi premiada por diversos concursos no Brasil, acredita que o cerne da questão está no fraco vínculo entre a indústria moveleira do país e os designers. ;O design feito por brasileiros ainda não é popular. Especialmente em Brasília. Nosso trabalho se torna artesanal e acaba ficando mais caro. São poucas as indústrias que têm receptividade para bancar projetos. Quando essa barreira se romper, o design brasileiro vai deslanchar de vez;, acredita.
Para o professor da Universidade de São Paulo e designer Cláudio Portugal, a falta de tradição crítica também impede o crescimento do ramo. ;A tradição humanista e preocupada acabou perdendo força para o design de impacto visual. Se o brasileiro focar apenas nesse apelo estético, nada vai se desenvolver.;
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