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Estado de Minas COMPORTAMENTO

Um nome para chamar de seu

Pesquisa aponta a escolha dos brasileiros na hora de registrar o filho e constata: os clássicos voltaram à moda, mas a grafia ganhou um toque estrangeiro


postado em 28/01/2011 17:25 / atualizado em 28/01/2011 20:38

O resultado do vestibular é um momento que faz a felicidade dos que veem seus nomes na lista, mas também leva muita gente a dar boas risadas. Nas listagens, a criatividade de muitos pais fica evidente. Daí conhecemos Rennoly, Dasayanne, Heldemys, Sunshine Summer, Yacana, Mauriston, Wuppschlander, Deicksony e outros tantos que, além de dificuldade para conseguir escrever o próprio nome, podem até sofrer por terem sido batizados de forma tão incomum. O inusitado, porém, tem se tornado exceção. De acordo com pesquisa realizada pelo site Baby Center Brasil em 2010, os nomes mais comuns entre meninas e meninos brasileiros se mantêm em um âmbito clássico, mesmo que alguns tenham recebido letras a mais, como no caso de

Isabella, que ficou em terceiro lugar entre os femininos.
"Agora, estamos vendo uma tendência em nomes com grafia internacionalizada", conta Fernanda Ravagnani, editora do Baby Center Brasil. A pesquisa, que se baseou no cadastro de 43.800 bebês nascidos em 2010, serve como fonte para pais ávidos por nomear seus filhos de forma mais exclusiva. Segundo Fernanda, a pesquisa mostrou que o brasileiro tende a querer dar um ar personalizado ao nome do filho, com adaptações estéticas que justificam os acréscimos ou não de outras letras.

Paulo e Marília não queriam que o filho tivesse o nome de nenhum outro parente: Luca ainda tem um toque italiano(foto: Bruno Peres/CB/D.A.Press)
Paulo e Marília não queriam que o filho tivesse o nome de nenhum outro parente: Luca ainda tem um toque italiano (foto: Bruno Peres/CB/D.A.Press)

Luca, que está em seu sétimo mês de gestação, está no grupo dos que nascerão com nomes com ares estrangeiros. "Tenho 16 tios por parte de pai e 10 por parte de mãe. Primos são 95. Ela também tem uma família enorme e quisemos um nome que não se repetisse entre os parentes", lembra o advogado Paulo Giordanni Dias Lima, 33 anos. Ele e a mulher, a arquiteta Marília Silva Melo, 33, encontraram em Luca não só um nome exclusivo entre os familiares, mas uma forma de celebrarem o amor que os uniu. "Nos conhecemos durante aulas de italiano. Tanto eu quanto ele adoramos a cultura do país e o segundo nome do meu marido, Giordanni, tem raiz italiana. Procuramos algo que combinasse, porque o Luca também terá o segundo nome do pai", conta Marília.

A arquiteta afirma que, na procura, também se preocupou em escolher um nome que tivesse significado religioso — algo que compartilha com boa parte dos brasileiros: um em cada quatro bebês é batizado com essa inspiração. A pesquisa analisou as escolhas entre seguidores de diversas religiões. Para os evangélicos, a seleção prima pelo Antigo Testamento. Para católicos e espíritas, nomes de anjo. "Entre os católicos, 26% dos bebês têm nomes religiosos, contra 40% dos evangélicos", detalha Fernanda.

A editora do Baby Center frisa que ainda é comum que celebridades e personagens de novela sirvam como inspiração para batismos. Em muitos casos, resgatando nomes que, por algum tempo, ficaram esquecidos, como ocorreu com Benício, nome do filho dos apresentadores Angélica e Luciano Huck. "Muitos pais se preocupam até com a praticidade que o filho terá na hora de fazer seu e-mail", exemplifica.

Na hora da alfabetização…

Kisie e Fabrízio pensaram muito antes de chegar a Enrico, nome do futuro filho: escolha para o resto da vida (foto: Bruno Peres/CB/D.A.Press)
Kisie e Fabrízio pensaram muito antes de chegar a Enrico, nome do futuro filho: escolha para o resto da vida (foto: Bruno Peres/CB/D.A.Press)

A tarefa de fazer as letras terem sentido é onerosa. As crianças dependem do som que elas reverberam no processo de alfabetização. Com nomes complicados, o trabalho fica ainda mais árduo. E nem é preciso que ele seja esdrúxulo. "Tive um aluno que chamava-se Nicholas. Todas as crianças começaram a chamá-lo de ‘Nixolas’, por conta do som que o ch tem na língua portuguesa. Foi preciso muita explicação para que todos entendessem", lembra a professora Rafaela Santos Rios.

De acordo com ela, os estrangeirismos, em muitos casos, trazem menos compreensão dos pequenos na hora de montar o esquema de leitura, principalmente daqueles que os têm no nome. "Na idade em que são alfabetizadas, as crianças brincam muito com os demais. Há várias delas que têm nomes diferentes e sofrem o constrangimento de terem sido batizadas de forma incomum." Rafaela lembra, por exemplo, de uma garota que alfabetizou e que tinha Fiona como segundo nome. Em uma sala apinhada de infantes leitores e telespectadores, ela virou alvo imediato de associações com a esposa do ogro Shrek. "Os pais fazem reclamações constantes, pois não admitem — com razão — que o filho sofra por esse motivo. Mas essa é uma fase bem crítica nas relações entre os alunos e, além do problema causado pelo nome incomum, há a complicação em alfabetizar alguém que demora para entendê-lo", explica a professora.

Essa foi uma das preocupações da advogada Kisie Krawczyk, 31 anos, quando escolheu, aos sete meses de gestação, Enrico para batizar o filho. Ela se valeu da descendência italiana do marido para chegar à decisão. "Queríamos algo que tivesse pronúncia fácil e fosse reconhecido nos dois países, além de uma sonoridade forte, que representasse o quanto o desejamos." Kisie acredita que o processo de escolha foi detalhado, mas não sofrido. "Há uma grande responsabilidade da nossa parte porque é algo que ele vai carregar para o resto da vida. Porém, a sensação que dá quando o nome é escolhido é de que a vida foi, de fato, materializada. Não existe mais um bebê, existe o Enrico", completa. O marido, o servidor público Fabrízio Marodin, 34, preocupou-se também com o aspecto educacional da criança nos primeiros anos de vida, o que incluiu um nome de fácil pronúncia e escrita. "Claro que há um feeling na escolha, mas pensamos em como ele ficaria bem, em como os outros vão falar o nome. Foi algo muito divertido."

Aos que ainda insistem em nomes fora do usual, é bom saber que o exagero pode sim ser barrado nos cartórios. "Dependendo do nome, não vamos aceitar. Há pouco tempo chegou um pai querendo batizar o filho de ET. Não registramos", recorda o auxiliar de escrevente José Rezende de Oliveira. Segundo ele, casos como esse são raros e, se o cartório não aceitar fazer o registro da criança, só um juiz poderá dar essa autorização.

 

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