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Sistema nervoso em alerta máximo

A esclerose múltipla é uma das doenças autoimunes mais traiçoeiras. Ainda misteriosa para a ciência, ela afeta, sobretudo, a musculatura e a coordenação motora do paciente

;Apesar das minhas limitações, o trabalho manual tem sido uma terapia em minha vida.; A declaração é da goiana Margareth Quintanilha, que confecciona flores em tecidos. A artesã faz parte do grupo de artistas cujas obras ilustram o calendário Viva o Diferente Fazendo Arte. Todos são portadores de esclerose múltipla, uma doença inflamatória dos nervos que atinge três mulheres para cada homem.

O calendário é produto de uma campanha promovida pelo laboratório MerckSerono. Em agosto passado, a empresa lançou um concurso que selecionou 20 trabalhos, posteriormente submetidos a uma disputada votação na internet. Os 12 favoritos foram parar na folhinha. As flores de Margareth embelezam o mês de abril.

A Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (ABEM) estima que o país tenha mais de 30 mil pacientes, sendo que, desse total, apenas cinco mil estariam diagnosticados e recebendo tratamento adequado. O neurologista Fernando Figueira, do Hospital da Penitência (Rio de Janeiro), diz que a detecção precoce do mal representa um ganho de qualidade de vida para o paciente. ;É essencial a adesão ao tratamento;, explica.

A terapia com célula-tronco para esclerose múltipla está em fase experimental, mas é considerada dolorosa e de resultados imprevisíveis, informa Figueira. O médico esclarece que o tratamento começa com a retirada das células-tronco da medula óssea do paciente. Esse material é congelado enquanto drogas, que destroem as células danificadas, são administradas. O último passo é o enxerto das células-tronco.

PALAVRA DO ESPECIALISTA
Como é o tratamento para esclerose múltipla?
Entre os possíveis tratamentos, há os que são realizados com imunomoduladores ; drogas que não tiram a defesa do paciente e ajudam a inibir as inflamações. Os imunomoduladores têm o poder de retardar a doença e ajudar a diminuir a quantidade de surtos que o paciente tem durante o ano. Há também com imunossupressores, que são drogas corticoides mais pesadas, que diminuem a imunidade do paciente, deixando-o mais suscetível a infecções secundárias. Os imunossupressores são usados nos casos mais graves e durante surtos.

E quando esse tratamento falha?
Temos uma opção que é o uso do medicamento Natalizumabe. Trata-se de uma proteína, um anticorpo monoclal, usado apenas uma vez por mês e indicado para quando as outras terapias não surtem efeito. O tratamento custa cerca de R$ 10 mil ao mês e ainda não é pago pelo Sistema Único de Saúde.

Qual é o gatilho que desencadeia a doença?
O estresse. Fiz um estudo no Distrito Federal e o apresentei em um congresso em Milão, na Itália, e constatei que pessoas com personalidades estressada podem ter o start para a doença a qualquer momento.

A pessoa deve procurar um médico após qual sintoma?
Qualquer alteração no funcionamento do corpo humano, que dure mais de 24 horas, exige um alerta da pessoa. Uma alteração que não é esperada, como reflexo de uma queda ou sintoma de uma gripe. Por exemplo: sem nenhuma explicação, a pessoa começa a sentir a visão embaçada e não consegue enxergar direito. Se o distúrbio durar mais de um dia, é necessário procurar ajuda.

Yuna Ribeiro de Araújo é neurologista