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Estado de Minas COMPORTAMENTO

Ti-ti-ti no banheiro

Afinal, o que as mulheres tanto falam no toalete? A Revista dá uma colher de chá para a curiosidade masculina e revela parte desse segredo


postado em 16/02/2011 16:32 / atualizado em 18/02/2011 19:16

Cena da peça WC - Women Confession: as atrizes levaram ao palco uma amostra do que rola nos toaletes do mundo (foto: Daniel Ferreira/CB/DApress)
Cena da peça WC - Women Confession: as atrizes levaram ao palco uma amostra do que rola nos toaletes do mundo (foto: Daniel Ferreira/CB/DApress)

Pode ser no Brasil, nos Estados Unidos ou no Japão. Uma característica peculiar do sexo feminino ultrapassa qualquer fronteira geográfica: mulheres gostam mesmo de trocar ideias com outras mulheres. De receita de bolo a comentários sobre a vida alheia, um dos ambientes mais utilizados para esse ti-ti-ti é, sem dúvida, o banheiro. Do outro lado da porta, os homens bem que gostariam de encostar o ouvido para escutar sobre o que elas tanto conversam. Eles também não se cansam de perguntar: “Por que elas sempre vão juntas?”

Em cartaz no espaço cultural do Brasília Shopping, a peça WC — Women confession, da companhia teatral TPM (Teatro para Mulheres), faz a mesma pergunta. No ano passado, as atrizes Thais Ferreira e Alana Ferrigno desenvolveram um pré-roteiro baseado em experiências próprias e nas de outras amigas que, volta e meia, as presenteavam com depoimentos hilários. “No banheiro, passamos tempo conversando ou disputando um lugar perto do minúsculo espelho para checar a maquiagem. Na peça, falamos dessas e de outras situações nesse cenário”, explica Thais, diretora do espetáculo.

Para a escritora Rosângela Ojuara, o lavabo tornou -se uma espécie de divã para confissões que jamais poderiam ser ditas em espaço público. “Ele é como um confessionário. As mulheres podem ir lá para contar algum segredo, mas também para pedir a opinião da amiga sobre cabelo, maquiagem.” Curiosa sobre o assunto, Rosângela percorreu desde toaletes de shoppings àqueles de boates de strippers para investigar o tema que deu origem ao livro O que as mulheres conversam no banheiro (Ed. Novo Século), lançado há dois anos.

Após uma conversa de bar, a bióloga Nurit Bensusan decidiu reunir em livro algumas crônicas sanitárias (foto: Iano Andrade/CB/DAPress)
Após uma conversa de bar, a bióloga Nurit Bensusan decidiu reunir em livro algumas crônicas sanitárias (foto: Iano Andrade/CB/DAPress)
 

A bióloga Nurit Bensusan também ficou instigada com o assunto e publicou, em 2007, o livro de crônicas Banheiros que vivi (Ed. Esquina da Palavra), escrito e ilustrado por outras 11 mulheres. “Nós nos tornamos experts no assunto, tanto que, ainda hoje, recebemos novidades, comentários e até pesquisas científicas”, conta a pesquisadora, aos risos.

Me empresta o batom?
 

Em janeiro de 2010, a atriz Alana Ferrigno, 23 anos, estava de férias no Rio de Janeiro, de pernas para o ar. Nem cogitava pensar em projetos para o teatro, até entrar no banheiro da casa de uns amigos e ficar impressionada com a quantidade de informações na bagunça do local. “Tinha de tudo exposto ali . Nem conhecia a pessoa direito e já sabia tanta coisa sobre ela”, recorda. Foi naquele ambiente, tão íntimo e desorganizado, que ela teve um estalo: por que não escrever uma peça que fale abertamente sobre banheiros femininos?

Desde a cena na fila — “porque ela fica bem distante da porta do lavabo”, ressalta a atriz — à disputa pelo mesmo homem, a peça WC — Women Confession rende muito pano para a manga. A diretora Thais Ferreira, 25 anos, também compartilhou o mesmo interesse. “Esse espaço virou um diário público. Local onde você pode confessar seu amor em letras garrafais ou com marcas de batom na porta, além de gritar, chorar e desabafar sem medo”, observa.

Para acompanhar as mulheres nesse “camarim de confissões públicas”, lá está ela: a amiga. “Ela é como um álibi que entende tudo aquilo que os homens não são capazes de compreender”, defende Alana. Além desse argumento, quem melhor do que uma amiga para chorar pitangas e pedir uma opinião sincera sobre o vestido (curto ou longo demais?), maquiagem (faltou batom?) e outras demandas do universo feminino.
No palco, o elenco ainda inclui as atrizes Lygia Maia, 24, Ana Paula Carvalho, 23, e Ingrid Soares, 23, em episódios engraçados ou tragicômicos construídos na base da improvisação. “As pessoas se identificam muito com os personagens e os homens gostam também, até porque eles confirmam algumas especulações que fazem sobre o que rola no banheiro feminino”, conta Ana Paula. As atrizes só fazem uma recomendação aos rapazes, antes que eles corram para assistir ao espetáculo. “Claro que a gente não vai revelar tudo. Muitas das coisas que acontecem no banheiro só uma mulher sabe… E é segredo de Estado”, brinca Thais.

 

Um pouco de história

O banheiro passou a existir no interior das residências no terceiro milênio antes de Cristo. Escavações arqueológicas mostraram vestígios dessas construções em cidades localizadas no oeste da atual Índia. No Ocidente, porém, a história do toalete teve uma evolução bem diferente. Na Grécia do século 5 a.C., por exemplo, as residências não contavam com toaletes e os gregos preferiam dirigir-se aos espaços públicos. Isso ainda ocorria na Roma do início da era cristã, quando também era comum o uso de penicos. Mas foram os romanos que implantaram banheiros públicos. Esses eram associados às casas de banho e, nesses espaços, era costume promover debates, banquetes e encontros cívicos. A expansão do Império Romano levou esse conceito do banheiro público a outras partes do mundo antigo. Mas, quando a grande potência se enfraqueceu, a partir do século 5, esse tipo de construção caiu em desuso. Dentro das residências, os banheiros só começariam mesmo a se popularizar na Europa, em 1668, quando o Comissariado de Polícia de Paris, na França, emitiu um decreto determinando que todas as casas construídas na cidade, a partir de então, deveriam construir um dos cômodos mais importantes de todo lar doce lar.
(Fonte: Revista Mundo Estranho, http://mundoestranho.abril.com.br)

De amizades, homens e cervejas

Vanessa Assumpção, Júlia Santa e Juliana Nunes garantem: o banheiro é espaço para a solidariedade(foto: Iano Andrade/CB/DAPress)
Vanessa Assumpção, Júlia Santa e Juliana Nunes garantem: o banheiro é espaço para a solidariedade (foto: Iano Andrade/CB/DAPress)
 

“Sabe quando tem aquele gatinho no bar? Daí, você olha para sua amiga, toma mais dois copos de cerveja e pergunta: ‘Amiga, vamos ao banheiro?’”, conta a estudante de direito Júlia Santa, 25 anos. O resultado disso pode ser o que convencionou-se chamar, no futebol, de uma caixinha de surpresas. Dependendo de quem ouvir o bate-papo no banheiro, pode até mesmo rolar um briga por causa do moço em questão. Vai encarar?

Júlia, Vanessa Assumpção, 24, e Juliana Nunes, 24, são amigas fora e dentro do banheiro. Nada de deixar passar em brancas nuvens algum comentário sobre o bonitão da mesa ou sobre fulana que anda traindo o namorado. Mas o que elas acham de mais inusitado nesse cenário são as brigas provocadas por conversas no banheiro feminino. “Certa vez, uma garota falou sobre um cara que estava no bar e dava em cima dela. Ela só não suspeitava que, ao falar isso no banheiro, a namorada desse mesmo cara estava ali. Quando saímos, vimos a menina esbofeteando o namorado”, lembra Juliana, estudante de jornalismo.

Apesar do assunto “homem” dominar as conversas do WC feminino, outro fator importantíssimo parece desconhecido para os rapazes: as mulheres pedem a companhia de amigas para ir ao banheiro porque precisam de alguém de confiança para segurar a porta e a bolsa.

Fora essa necessidade, essa amiga pode dar conselhos. A estudante de direito Vanessa levanta outro ponto interessante sobre esse universo: será que as mulheres são m ais solidárias umas com as outras num banheiro? “Acho que competimos muito entre si, mas lá dentro revelamos nossas fraquezas”, acredita. A fragilidade de todas ali presentes seria um fator agregador.

Há também espaço para dar conselhos à garota que acabou de ver o ex com sua atual namorada; emprestar o lápis de olho e o blush para aquela que saiu direto do trabalho direto para o bar; passar um rolo de papel higiênico para quem precisa. “Acho que tem muita gente que prefere chorar aqui dentro. Outras desabafam ou vomitam, mas sempre tem alguém para ajudar. No banheiro de balada ou de bar, já fiz muitas amizades”, conta Juliana.

Se o lado externo desse cenário fosse comparada a um palco, o banheiro, definitivamente, seria o backstage das mulheres. “Eu, pelo menos, penso assim. Inclusive porque nele podemos ser nós mesmas, revelar nossas fragilidades e compartilhá-las. No banheiro, a gente se familiariza com outras mulheres. Elas contam problemas muito parecidos com os nossos”, diz Júlia.

Enquanto isso, sentados na mesa do bar, os rapazes indagam por que elas levam tanto tempo lá dentro. Alguns chegam a cogitar — como brincavam os humoristas do extinto Casseta e Planeta  — se haveria uma mesa de pingue-pongue em todo banheiro público feminino. “Eles até nos perguntam: ‘Vocês não conseguem ir sozinhas de jeito nenhum? Mas mesmo que a gente explique, acho que os homens não acreditam naquilo que contamos e vai ser assim mesmo: eles ficam com a pulga atrás da orelha”, prevê Juliana.

Nas entrelinhas de um banheiro
 A escritora Rosângela Ojuara e a bióloga Nurit Bensusan compartilham o mesmo interesse, coincidentemente, desde o ano de 2007. A primeira sentiu-se em dívida com o público masculino após revelar a intimidade deles no livro Como pegar seu homem pelo pé — e permanecer com ele e decidiu escrever o livro O que as mulheres conversam no banheiro (Ed. Novo Século). Enquanto isso, a segunda teve a ideia de publicar crônicas “sanitárias” em Os banheiros que vivi (Ed. Esquina da Palavra).

Por dois anos, Rosângela frequentou banheiros de botequins, restaurantes cinco estrelas, lounges, boates, metrôs, aeroportos, rodoviárias, aerobarcos, cinemas, teatros, casas de shows, cafés, boates de strippers e de faculdades em diversos estados do país. “Em Brasília mesmo, lembro de ter ido num banheiro e, escondida para prestar atenção no que as outras mulheres conversavam, me deu vontade de dar um lencinho para a garota que não parava de chorar porque viu o amante com outra mulher”, lembra.

Já a bióloga Nurit organizou diferentes histórias sobre banheiros de Brasília ao Himalaia escritas por outras 10 mulheres. “Tudo começou como conversa de bar. Até achei que a história não fosse para frente, mas não queria deixar o tema morrer”, conta. No livro Os banheiros que vivi, Nurit e as outras escritoras e amigas ainda fizeram um miniguia de banheiros públicos de Brasília. “Levamos em conta limpeza, arquitetura, decoração, acesso e preocupação ambiental, mas constatamos que, independentemente de que tipo seja, o banheiro feminino ainda é o mais limpinho”, defende.
Tanto Rosângela quanto Nurit concordam que o lugar é propício a fofoca. “Temos dois assuntos principais: homem e mulher. Por isso, de certa forma, o banheiro é um confessionário”, observa Rosângela. Para a bióloga, no toalete feminino, elas também falam sobre rugas, idade e outros aspectos da vaidade feminina. Mas, para Nurit, o banheiro não deveria ser considerado um divã. “Acho que conversamos em qualquer espaço. Talvez o banheiro sirva para conversarmos sobre algo pontual. Coisas que precisam ser ditas naquele momento, mas nada de passar muito tempo lá.”

Atualmente, em alguns banheiros, as mulheres podem dedicar mais do que cinco minutinhos ao papo com a amiga. É o que a escritora Rosângela observa: “Os banheiros de alguns locais são tão amplos, com sofás, grandes espelhos, cestas com sabonetes, remédios, perfume… Se deixarem, elas não saem de lá”, brinca. Nos anos 1930, as moças pediam licença para “empoar o nariz”. Embora as desculpas de hoje sejam outras, muito pouco mudou. “Não dá para abrir mão de chamar a amiga para aquela passadinha no banheiro”, arremata Rosângela.

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