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Estado de Minas FITNESS E NUTRIÇÃO

Fruto proibido

O noni e seus derivados se tornaram um modismo na internet. A Anvisa, porém, é categórica em afirmar que, além de ilegal, o consumo do alimento é perigoso


postado em 10/03/2011 18:21 / atualizado em 11/03/2011 19:22

À fruta de odor repugnante são atribuídas qualidades quase milagrosas ainda não comprovadas pela ciência(foto: Picasaweb.google.com/Reprodução)
À fruta de odor repugnante são atribuídas qualidades quase milagrosas ainda não comprovadas pela ciência (foto: Picasaweb.google.com/Reprodução)
A Morinda citrifolia, mais conhecida como noni, é uma fruta polêmica. Originária do sudeste asiático, o fruto amarelado, com cheiro estranho (em alguns lugares, é chamada de fruta de queijo ou fruta de vômito, devido ao odor) e gosto ruim, não é muito conhecido no Brasil, mas bastante popular na Ásia e nas ilhas do oceano Pacífico. As principais formas de consumo são o suco de noni, as sementes da fruta assadas, o chá das folhas e o extrato em cápsulas — embora os aborígenes australianos prefiram consumi-la crua com sal.

Apesar de alardeado como dono de mais de 101 aplicações medicinais — entre elas, ação antiinflamatória e antioxidante, melhora do sistema digestivo, e até cura do câncer —, o alimento é proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Segundo o órgão, as poucas informações e os estudos toxicológicos disponíveis até o momento são insuficientes para um consumo seguro. Os testes foram realizados somente em ratos. “Com o intuito de proteger e promover a saúde da população, os produtos contendo noni não devem ser comercializados no Brasil como alimento até que os requisitos legais que exigem a comprovação de sua segurança de uso sejam atendidos”, diz o informe.

Apesar de diversos sites na internet garantirem os benefícios do noni — com direito a depoimentos de pessoas cujos males supostamente regrediram com o uso —, a agência cita casos de efeitos colaterais sérios. Por exemplo, há suspeita que o fruto desencadeie hepatite e hepatotoxicidade. A professora de nutrição Juliana Toledo explica que os problemas hepáticos acontecem pois o fígado é a porta de entrada de qualquer substância no organismo, funcionando como um filtro. Como não há pesquisas conclusivas, não se pode dizer com certeza se a causa do fenômeno é a composição nutricional da fruta ou a ingestão exagerada — a recomendação é de, no máximo, 30ml do suco por dia. Ou seja, menos do que uma xícara de café.

Sob suspeita até segunda ordem

É verdade que existem alguns artigos científicos comprovando os efeitos do noni. A maioria vem de países asiáticos e são escritos a partir do uso feito por consumidores regulares (em geral, incrivelmente longevos). É a chamada medicina baseada em evidências. “Mas a população asiática tem um estilo de vida completamente diferente do homem ocidental, cultural e nutricionalmente falando. Não se pode atribuir a longevidade só ao noni, há outros fatores envolvidos. Por isso, não se aceitam esses estudos como base”, explica a professora.

Defensores do noni alegam que a fruta é rica em proxeronina, mas não há estudos que provem a presença ou a função real da substância no organismo. Outra alegação é que a fruta é rica em antioxidantes, substâncias capazes de combater os radicais livres, responsáveis pelo envelhecimento. “A fruta é muito nutritiva, e contém mesmo antioxidantes. O problema é que as pessoas acham que os antioxidantes são a solução contra o envelhecimento. Os radicais livres vão surgindo ao longo da vida, não é tão simples erradicá-los. Não há a comprovação científica dos polifenóis que dizem existir no noni”, conta Juliana.

Segundo a professora, ingerir qualquer derivado de noni é uma irresponsabilidade. “A falta de registro significa que não há comprovação das propriedades e nem da segurança. Pode fazer mal e as pessoas consomem achando que é milagroso, que só faz bem.” Juliana conta que alguns produtos derivados do noni continuam sendo comercializados sob a alegação de que estariam protegidos pela resolução nº 27/2010 da Anvisa, que isenta alguns alimentos de registro. Porém os fabricantes não podem rotular suas embalagens sem o conhecimento do órgão — e o noni se encaixa como “alimentos com alegações de propriedade funcional e/ou de saúde”, que precisam de registro. “Os produtos acabam sendo vendidos em feiras e farmácias de forma ilegal, enganando o consumidor”, alerta.

A professora é a favor do controle da ingestão da fruta. “Se tiver controle do suco, como se tem com o chá verde (que já passou pela mesma polêmica), com registro da Anvisa e estudos comprovando a segurança e eficácia, não vejo problema”, afirma. Apesar da proibição, não é difícil encontrar produtos derivados do noni. Em pesquisa rápida no Google, quatro sites de venda aparecem logo na primeira página, oferecendo sucos, chás, cápsulas e até mudas da planta.

Agradecimentos: Universidade Católica de Brasília

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