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Recordar é viver

Eles nasceram na década de 1980, mas até parece que já eram asolescentes naquela época. Conheça a história de dois jovens que sentem saudade de um tempo que não viveram

A imagem no perfil do site de relacionamentos é o primeiro indício da nostalgia de Wagner Lutterbach. No lugar da foto do rapaz, o Mestre dos Magos, personagem do desenho animado Caverna do dragão, estampa a página virtual. Nascido em 1987, Wagner consome produtos culturais das décadas de 1980 e 1990 como forma de alimentar um sentimento nostálgico.

Ele coleciona objetos e qualquer outro tipo de material que se relacione a alguma época do passado, tais como moedas antigas, cartões telefônicos e revistas. ;Programas de TV, desenhos animados como Pica-Pau e até a série Barrados no baile, assisto sempre que posso;, admite. Mas a principal válvula de escapa do jovem de 24 anos são as músicas, que nos momentos de nostalgia ;vem com tudo;. ;Acho que é uma forma de tentar fugir da realidade que temos de encarar. Com o passar dos anos, temos, cada vez mais, responsabilidades.;

Já Paulo Sérgio Soares Faria, 27 anos, vê fotos, assiste a filmes, lê matérias antigas e reportagens e tenta associar esses fatos a algum momento da vida. Rock dos anos 1980, episódios raros de Chaves e de Chapolin, heróis japoneses, como Jaspion, Sharivan e Cybercop, minisséries, como Engraçadinha, e novelas da extinta Manchete, programas como o de Chacrinha e Os Trapalhões;Tudo isso alimenta a nostalgia do estudante de letras. ;Muitos já me aconselharam a buscar ajuda profissional. Outros, com senso de humor apurado, me dizem para abrir um museu.;

Ambos admitem que preferem o passado ao presente. Wagner conta que nostalgia é um sentimento muito presente em sua vida. ;Sinto falta de tantas coisas e me interesso por tudo que tenha a ver com o passado.; Paulo afirma ter veneração pela nostalgia. ;Não me considero um rapaz feliz. Insisto em acreditar que o conceito de felicidade está no passado e não no futuro.;

A analista do comportamento Lílian Boarati afirma que essa postura, apesar de ser considerada normal, pode se tornar um sintoma emocional associado a um quadro de depressão e apatia. ;Não é que seja uma doença, mas precisa ser tratada;, afirma. Mesmo assim, a analista conta que há pacientes com esses sintomas que encaram a nostalgia como algo bom. ;Eles até curtem o sentimento que os faz ficarem mais sensíveis, atentos e afetuosos. Nesses casos, a nostalgia é positiva na vida deles, desde que não se prenda ao passado e atrapalhe os relacionamentos presentes, causando-lhes sofrimento;, alerta.

Outro ponto comum entre Wagner e Paulo é o fato de sentirem falta de uma época que não viveram. ;Talvez entenda a nostalgia como uma obra de arte;, divaga Paulo. Wagner concorda. ;Digo que tenho saudades até do que não vivi, como os anos 1980. Talvez seja uma forma de tentar escapar das pressões e correrias do cotidiano e fugir para uma época sobre a qual ouvimos histórias sensacionais;, explica. Esse comportamento é explicado por Lílian Boarati como uma representação afetiva de momentos não vivenciados na tentativa de, por meio do consumo de produtos culturais ou da busca de fatos passados, realizar a fantasia de algo que se gostaria de ter experimentado.