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Estado de Minas HOMENAGEM

Uma mãe muito especial

Cinco anos depois de ser personagem da Revista como exemplo de superação, Naiara, que tem deficiência visual, volta às nossas páginas. Aos 18 anos, ela espera o seu primeiro filho


postado em 05/05/2011 19:02 / atualizado em 06/05/2011 21:55

Gláucia Chaves // Especial para o Correio

Naiara sempre contou com o apoio incondicional da mãe, Dulcilene: à espera de Henrique (foto: Breno Fortes/CB/D.A.Press)
Naiara sempre contou com o apoio incondicional da mãe, Dulcilene: à espera de Henrique (foto: Breno Fortes/CB/D.A.Press)
Naiara da Silva Fontenelli está nas nuvens. Aos sete meses de gravidez, a estudante mal pode esperar para segurar o primeiro filho nos braços. Quem também está ansiosa com a chegada do bebê é Dulcilene Ferreira da Silva, mãe de Naiara. “Quando ainda está dentro da barriga, tudo é fácil. O problema é quando nasce”, filosofa a professora. Ela fala com a sabedoria de quem teve que aprender a se preocupar não só com fraldas sujas e em manter a temperatura ideal da mamadeira, mas também com as necessidades da filha, deficiente visual desde o nascimento. Dulcilene e Naiara foram, inclusive, capa da Revista do Correio, no ano de 2006, como exemplos de pais e filhos que, juntos, superaram a deficiência.

Até os quatro anos de idade, Naiara não dormia quase nada. “Os médicos disseram que ela sentia muita dor nos olhos”, conta Dulcilene. Quando criança, o pouco resíduo visual do olho esquerdo permitiu que a menina fosse alfabetizada. O problema é que a retina não acompanhou o crescimento do corpo e acabou por se descolar completamente. Hoje, com 18 anos, a jovem ainda mantém o hábito de trocar o dia pela noite. “É bom , porque sempre vai ter alguém para olhar o bebê”, brinca Naiara. Apesar da expectativa da filha, Dulcilene tenta manter os pés no chão. “No início, eu tinha medo dessa gravidez”, confessa. “No caso da Naiara, por exemplo, nem o médico sabia porque ela ficou cega. E se acontecesse de novo?”

Agora, com todos os exames em mãos, mãe e filha dormem despreocupadas: o novo membro da família, Henrique, não tem nenhum tipo de deficiência. “Quando eu falava essas coisas para o marido da Naiara, ele dizia: ‘Você não ama a sua filha? Então. Se ele for deficiente, vamos amá-lo também’”, comenta Dulcilene. “Mas é preciso uma estrutura tão grande... Porque cuidar de deficiente quando é pequenininho dá muito trabalho. Quando cresce, ele se vira”, compara. E Naiara se vira muito bem, obrigada. Além do berço e da cama de casal, o quarto que divide com o marido, na casa da mãe, é o lugar onde ela guarda a bateria, o teclado e o violão, frutos de sua paixão pela música. “Sempre pensei que fosse comprar sapatilha, coisas de bailarina. Mas ela gosta de ‘coisas de macho’, então, só compro bateria, baqueta, essas coisas”, brinca Dulcilene.

No começo, a mãe não nega que foi difícil absorver a ideia de que sua filha já não era mais uma menina. A idade do marido, 11 anos mais velho, também foi um fator que ajudou a aumentar as preocupações — que, com o passar do tempo, caíram por terra. “Eu ficava pensando que ele, um rapaz bonito, formado em engenharia química, poderia ter a namorada que quisesse”, explica Dulcilene. Até mesmo o fato de o pretendente não ser deficiente visual contou pontos contra com a futura sogra. “Perguntei por que ele não ia arrumar uma menina ‘normal’, e ele me dizia que era porque gostava dela de verdade. Hoje, ele é como um filho para mim”, derrete-se.

Quando chegou o momento de mandar os convites para o casamento, novas indagações. Agora, por parte de amigos e parentes convidados. “As pessoas estranharam, como se a pessoa que não enxerga não pudesse se casar”, diz Dulcilene. A notícia da gravidez fez com que as especulações aumentassem ainda mais: será que Naiara seria uma boa mãe, mesmo sem enxergar? Para Dulcilene, é tudo culpa de uma visão limitada por parte de pessoas desinformadas. “Ninguém sabe muito bem o que fazer na primeira gravidez, sendo cego ou não”, defende. “Lógico que ela vai ter mais dificuldade, mas isso não significa que ela é incapaz.”

 Para aprender a lidar com Henrique, Naiara usa bonecas para trocar fraldas e dar banho. Dulcilene pediu licença no trabalho, sem data de volta, e ajuda a filha em todos os momentos. A dúvida é como proceder quando as duas tiverem que retomar as atividades deixadas em modo de espera durante a gravidez. “Não tenho coragem de contratar uma pessoa para cuidar da Naiara e do bebê. Se ela judiar da criança, a Naiara não vai saber”, diz. “O marido da Naiara viaja muito, não pode ficar o tempo todo com ela.” O jeito, então, é a futura mamãe aprender tudo o que precisa sobre cuidados com crianças o mais rápido possível.

Mudanças necessárias
Além da música, Naiara gosta de outras “coisas de macho”, como o goalball (espécie de futebol criado especialmente para cegos, que jogam com uma bola adaptada com guisos). Em setembro do ano passado, ela participou das Paraolimpíadas Escolares, em São Paulo. Foi sua primeira viagem sozinha. “Eu quase morri. Pensei: ‘E agora, como vai ser?’, mas os treinadores têm uma responsabilidade tão grande que cuidam até melhor que a gente”, relembra Dulcilene. Na época, a equipe de Naiara ficou em segundo lugar, mas a atleta machucou o joelho e, agora, precisa de sessões de fisioterapia duas vezes por semana antes de voltar a treinar. “Agora estou arrastando a barriga e a perna”, diverte-se a jovem.

Naiara está acostumada a ter uma rotina intensa. Até o ano passado, quando estava no último ano do ensino médio, sua semana era dividida entre o estudo em período integral, as aulas de canto, de teclado e de bateria e os treinos de gollball. As noites eram dedicadas aos ensaios com a Banda Brilho, grupo musical formado apenas por deficientes visuais. “Às vezes, os ensaios duravam até as 23h”, conta Dulcilene. “Era uma correria para encaixar os horários de todos. E era eu quem buscava a 'cegaiada' toda em casa, como eles se chamam entre si”, diz, aos risos. Fora música, esporte e escola, Naiara ainda tinha aulas de inglês e frequentava o Clube de Apoio ao Deficiente Visual (Cadevi), onde tinha aulas de orientação e mobilidade do uso da bengala (para melhorar sua capacidade de orientação espacial) e computação. “A gente pedia para sair mais cedo de uma aula para não chegar atrasada na outra”, conta. “Não sei nem como ela encontrou tempo para namorar e se casar. A Naiara nunca teve tempo para ser deficiente.”

Com a gravidez, toda a agenda precisou ser modificada. Até Henrique nascer, em julho, a ordem é descansar e cuidar da saúde. “Ela está vomitando muito, ficando tonta, não dava para continuar com tudo”, justifica Dulcilene. Mesmo assim, a rotina não parou completamente: para não perder o condicionamento físico quando os treinos de gollball recomeçarem, Naiara faz hidroginástica duas vezes por semana, além de aulas de computação. “Ela usa a internet como os outros jovens, as redes sociais e tudo”, conta a mãe, sem esconder o orgulho. O computador de Naiara é adaptado com programas criados para facilitar a vida dos deficientes visuais.

A alimentação também teve que mudar. Naiara trocou arroz, feijão, miojo e salsicha, que costumava comer todos os dias, por verduras, frutas e fibras. “Nos exames, o médico descobriu que ela estava anêmica e deu uma bronca daquelas”, entrega a mãe. O alerta do médico foi claro: se Naiara não passasse a comer direito, não poderia voltar para casa com Henrique depois do parto — já que a anemia não permite uma recuperação adequada aos 1,5l de sangue perdidos durante a cirurgia. “Agora tem gente comendo fígado como se fosse miojo”, diverte-se Dulcilene. “Tudo pelos filhos, né?”, resigna-se Naiara.

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