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Estado de Minas SEXO

Quanto mais quente, melhor

O Brasil está entre os 10 maiores consumidores de produtos eróticos do mundo, graças, sobretudo, às mulheres. Além do interesse, crescem as cifras da indústria nacional, que aumentou em 80% seu faturamento nos últimos quatro anos


postado em 17/06/2011 08:40 / atualizado em 17/06/2011 17:19

Por Daniella Borges // Especial para o Correio

O empresário Daniel Passos, de 31 anos, é dono da maior sexshop do país(foto: Arquivo pessoal )
O empresário Daniel Passos, de 31 anos, é dono da maior sexshop do país (foto: Arquivo pessoal )
O mercado erótico cresce vertiginosamente no Brasil graças a 15 milhões de brasileiros que consomem produtos de sexshop como estratégia para apimentar as relações a dois ou para conhecer os pontos de prazer do próprio corpo. A despeito do comportamento do consumidor, quem se diverte mais ainda com a máxima “quanto mais quente melhor” são os empresários do setor que, em quatro anos, assistiram ao crescimento de 80% no faturamento. É um salto de R$ 500 milhões para quase R$ 1 bilhão, de 2005 a 2009, em que 40% corresponde à comercialização de artigos de sexshop. Os números foram divulgados em abril pela Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual (ABEME), durante a 18ª Erotika Fair, em São Paulo.

Não é à toa que Daniel Passos, empresário de 31 anos, dono da maior sexshop do país exibia sorriso largo no estande da Loja do Prazer, na feira erótica. Rodeado de modelos vestidas sensualmente, Passos revelou que a Loja do Prazer, que vende exclusivamente pela internet, entrega mensalmente cerca de 10 mil pedidos em artigos de sexshop para todo o país. “É um negócio que vem crescendo muito, porque há um tabu sendo quebrado e a vergonha das pessoas em comprar produtos eróticos diminuiu. Além disso, a imagem que se tinha de uma loja de sexshop era aquela coisa underground, de submundo. Não é mais assim.”

Foi em 1998 que Passos registrou o domínio lojadoprazer.com.br, mas o negócio só deslanchou em 2002 quando começou a anunciar em sites de conteúdo adulto. Passos inovou o jeito de o brasileiro comprar prazer quando juntou a percepção do comportamento do consumidor, a paixão pela ferramenta internet e a vivência pessoal. A conversa com ele revela um moço atento ao que o outro deseja. E não é um grande risco dizer que o diferencial do rapaz está na maneira como parece construir as relações cotidianas. “Trato cada cliente como se fosse único e prezo pela excelência no atendimento.”
Ao contrário de muitos empresários, Passos não questiona o consumidor que queira trocar um produto, mesmo sem motivo aparente. A atitude parece ser reflexo da maneira como o empreendedor leva a vida pessoal. “É fácil agradar muitas mulheres, o mais difícil é agradar a mesma mulher todos os dias.” Ele foi casado por 11 anos e atualmente está em um relacionamento estável.

Do que elas gostam
“O dia que o Brasil cresceu em consumo foi o dia em que a mulher passou a olhar para o parceiro, porque o grande barato da brasileira é se exibir, seduzir o companheiro e montar um grande momento para ele”, avalia Paula Aguiar, que também tem livros publicados sobre o tema sexshop. De fato, as estatísticas revelam que, no mercado brasileiro, são elas, em 70% dos casos, responsáveis pela compra de produtos eróticos. Mais que isso. As mulheres também são as vendedoras, cuja participação é apontada pelas estatísticas e por empresários do setor como alavancadora do comércio. “Em 2006 tínhamos 300 consultoras; em 2011, são 40 mil consultoras”, informa Paula.

O cinema também não ficou imune à atuação das mulheres no mercado de vendas de produtos de sexshop. O filme De pernas pro ar, estreado em dezembro de 2010, conta a história de Alice e Marcela, respectivamente as atrizes Ingrid Guimarães e Maria Paula. A primeira perde o emprego de gerente de marketing e se une à dona de uma sexshop para sair da vida de desempregada e até se recuperar de um processo de separação. Os negócios se expandem graças à colaboração de muitas mulheres, que, com suas maletas, saem à venda dos produtos eróticos da sexshop de Alice e Marcela. Um dos cenários é justo a Erotika Fair, em São Paulo, a quarta maior feira do gênero no mundo.

Há pelo menos 10 anos, a servidora pública Ângela D’arc , 37 anos, usa produtos eróticos. Começou para agradar ao namorado, com quem está ainda hoje, que gostava do “brilho no corpo deixado pelo óleo de massagem. De lá para cá, fez cursos de massagem sensual, streaptease, incentivou amigas a irem ao sexshop até que, ela mesma tornou-se facilitadora dos cursos e também passou a vender produtos eróticos. “Apimenta muito a relação, dá um ânimo bem legal, inova. Quando a gente começa a conhecer novos produtos e a experimentar novas sensações, o outro também começa a investir mais.” Ela complementa: “O mercado melhorou muito. Nada de ambientes escuros e fechados ou produtos mais na linha GLS. Há agora mais produtos para casais.”

Negócio de R$ 24 milhões

Eliana Bertpaglia está, junto com o marido, à frente da maior fabricante de produtos eróticos da América Latina(foto: Arquivo pessoal )
Eliana Bertpaglia está, junto com o marido, à frente da maior fabricante de produtos eróticos da América Latina (foto: Arquivo pessoal )
Eliana Bertpaglia é loira, exuberante, espalhafatosa e ostenta joias e bijuterias que, de certa maneira, traduzem o poder que é estar à frente, junto com o marido Edvaldo Bertipaglia, da Hot Flowers, a maior fabricante de produtos eróticos da América Latina. Edvaldo conta orgulhoso sobre como iniciou na vida como vendedor de produtos de limpeza e até fundar a empresa em 2003. “Eu sou a rainha dos sexshop do Brasil”, brinca a loira. A Hot Flowers cresceu 1000% nos últimos quatro anos e o faturamento é de R$ 24 milhões. E quer expandir mais.

“Faço planos de vender para o Mercosul, exportar, para isso há alguns meses venho trabalhando na legislação. Ainda não conseguimos exportar para outros países por causa da burocracia.” Bertpaglia acredita que em cinco anos o Brasil terá um mercado consumidor ainda maior. Para ele, em cinco anos, 30 milhões de brasileiros consumirão produtos eróticos. “Há um mercado muito grande para ser trabalhado, principalmente no interior do país.” A Hot Flowers tem cerca de 600 produtos em seu mix e Edvaldo e Eliana testam pessoalmente os produtos e também presenteiam casais amigos. “Se o produto não atender à minha expectativa, eu paro a fabricação. Com os amigos, a gente percebe uma intimidade maior entre o casal que usa.”

Criatividade X tecnologia
O Brasil está entre os 10 maiores mercados consumidores de produtos eróticos no mundo e oferece ao consumidor um mix de cerca de 12 mil itens. Não é pouco se considerarmos que, no mundo, há cerca de 70 mil itens. O mercado é grande, mas ainda falta tecnologia para concorrer com fabricantes como a China, os Estados Unidos e países como Alemanha e Inglaterra. Os produtos chineses representam 70% das vendas em todo o mundo. “A gente teve que ser mais criativo para inventar produto, já que não temos tecnologia”, avalia Paula Aguiar, presidente da Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual (Abeme).

Para Paula Aguiar, o mercado brasileiro é impulsionado pelas mulheres(foto: Arquivo pessoal )
Para Paula Aguiar, o mercado brasileiro é impulsionado pelas mulheres (foto: Arquivo pessoal )
Para se ter ideia, no Brasil há cerca de 10 mil pontos de venda, uma média de 40 mil consultoras ou sacoleiras, que levam o produto de porta em porta, 30 fabricantes, 50 distribuidores, 15 importadores e 650 lojas virtuais. Entre os produtos mais vendidos estão a linha de cosmética sensual. Foram 60 milhões de unidades vendidas em 2010, com média de preço de R$ 8. São as bolinhas explosivas, os géis e os cremes excitantes, para massagem, sexo oral ou anal, além de velas e óleos. De todos os itens comercializados, 45% é de fabricação nacional. “No Brasil, tudo ainda é puro aprendizado, porque as indústrias tiveram que aprender a entender o comportamento dos consumidores brasileiros”, diz Paula.

Entre os fabricantes mais criativos está a marca Desejos e Prazeres, dos irmãos Saggiori, que tem até pó que faz ejacular colorido, o Hypnotic Dreams, em reverência a Hypnos, Deus do delírio. Marcelo é administrador de empresas e trabalhou em salões de beleza renomados, em que o corte de cabelo chegava a custar cerca de R$ 400. “Queremos levar as pessoas para o mundo da fantasia.”

Wilso é doutorando da cadeira de química na Universidade de São Paulo (USP) e, antes de abrir a empresa com o irmão, foi químico de marcas como a L’Óreal. Toda a linha de mais de 70 produtos é inspirada em deuses da mitologia. A ideia é “unir o divino e o profano”. “Os nossos produtos são diferentes de tudo que a gente tem por aí. E tem que ter cuidado por que ao abrir você libera o Deus que está aqui dentro e dentro de você”, argumenta Wilso, que de tanto inventar até lembra o Professor Pardal, o famoso inventor personagem da Walt Disney. Um dos produtos da marca, o Clone Chocolate “copia o melhor do namorado”. Se quiser copiar, assim, a mão do parceiro, basta fazer a forma com o produto. Vira uma barra de chocolate. Dá para lambuzar. Criatividade não falta.

O perfil da consumidora
- 29,7 anos é a média de idade das consumidoras;
- 71,9% são casadas ou em relacionamentos sérios;
- 57,6% preferem ir com as amigas à sexshop, 32,6% vão sozinhas e apenas 9,8% preferem ir com o marido;
- 88,6% preferem comprar cosméticos sensuais, como óleos, géis e cremes;
- 50% consideram importante a opinião dos atendentes e/ou vendedores;
- 57% não se sentem confortáveis com o atendimento masculino ou quando há homens por perto durante a compra;
- 53,7% das mulheres entrevistadas para essa pesquisa afirmaram que participariam de cursos e eventos nas lojas de sexshops ou em outros locais.
Fonte: Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual (Abeme)

O que as mulheres compram
Bolinhas que estouram
Géis e cremes para sexo oral
Velas e óleos de massagem
Lingeries, fetiches e fantasias
Próteses e vibradores

O que os homens compram
Géis e cremes excitantes
Géis para sexo anal
Produtos que prometem aumentar o pênis
Filmes pornográficos
Próteses e vibradores
Fonte: Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual (ABEME)


Entrevista/Paulo Tessaroli
Especialista em sexualidade humana, Paulo Tessaroli, atende casais e mantém o programa Affair com você, transmitido pela All TV. Em entrevista à Revista, ele aconselha o uso de produtos eróticos, mas com reservas.

Os produtos eróticos influenciam a relação a dois?
Primeiro, vamos classificar o que é um produto erótico. É um recurso que possibilita o acesso ao corpo de uma forma diferente, que sem o produto também ocorre, mas com ele traz uma resposta sexual diferente, com sensações diferentes ou resultados diferentes.

Mas se pode classificar esse resultado como melhor ou pior?
Não é uma questão de comparação. Veja o caso do vibrador? O que ele faz? Em vez de friccionar o clitóris, vibra em cima do clitóris. A ação de vibrar ou de friccionar em tese produz o mesmo resultado, a excitação — se a mulher não tiver nenhuma dificuldade emocional de chegar ao orgasmo. Mas não dá para comparar uma masturbação feita com a mão àquela feita com o vibrador. Não dá para classificar em bom, ruim, melhor ou pior.

Então, depende do momento?
Depende do momento, da intenção, da ocasião. Por isso, o termo “diferente”. Mas veja, se o vibrador fosse tão bom assim, quando a mulher o descobrisse não largava mais. As mulheres que atualmente têm vibrador, e são muitas, não abrem mão da masturbação manual por elas mesmas ou pelos parceiros. É um mito achar que produto erótico pode substituir uma pessoa.

Qual é a maior utilidade de um produto erótico?
Ele é bárbaro no desenvolvimento sexual de homens e mulheres, na descoberta de sensações corporais que não eram conhecidas na sua profundidade e na sua intensidade. Pode ser que, por meio do produto, a pessoa ganhe uma consciência corporal mais profunda.

Há uma mudança na perspectiva sexual, então?
Essa mudança se deu em relação ao público feminino, em relação ao interesse da mulher. Porque a mulher está sempre interessada em beleza, cheiros, aromas, em produtos que possam ser aplicados no corpo. Desde a mais simples à mais aristocrata. A indústria também passou a dar um enfoque diferente ao produto. Hoje, você não vê aquelas gôndolas gigantescas, com próteses penianas, algemas, chicotes.

O senhor aconselha o uso de produtos eróticos?
De uma forma muito objetiva, sim, mas com reservas. Sim, com consciência. Se o produto erótico é conhecido, se foi escolhido para um determinado objetivo, aí tudo bem. Agora, se a vida sexual não está boa, pode ser frustrante. É preciso clareza: “Para que você quer isso? Qual resultado você espera disso?”. Ou seja, depende do uso e da expectativa que você tem com o uso. Muitas pessoas compram o produto por curiosidade e, aí, num curto espaço de tempo, esse produto é deixado de lado, porque provalmente o conhecimento sobre o produto, aliado à expectativa de uso dele, juntamente com a intenção de comprá-lo, criou uma expectativa alta demais.

 

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