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Estado de Minas MEDICINA

Benefícios colaterais

O uso de anticoncepcionais para tratamentos de saúde é bastante disseminado e conta com o apoio de especialistas, desde que a paciente não se automedique


postado em 23/06/2011 18:08 / atualizado em 24/06/2011 18:10

Larissa Braga exibe sua cartelinha: ovário policístico sob controle(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
Larissa Braga exibe sua cartelinha: ovário policístico sob controle (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)


A menstruação irregular não era apenas um incômodo para a estudante Larissa Braga, 20 anos. Há cinco, descobriu que tinha ovário policístico. A solução recomendada pela ginecologista foi o uso de anticoncepcionais. “Comecei com um bem fraco, que não era eficiente e me fazia menstruar dia sim, dia não, muito bizarro. Hoje, um mais forte funciona muito bem”, conta.
A história de Larissa ilustra bem o uso do medicamento para outros fins que não o de prevenção da gravidez. Os hormônios femininos presentes na fórmula ajudam muitas adolescentes a conviver melhor com problemas de pele e de ciclo menstrual. Algumas marcas dão conta até de doenças pouco conhecidas, como a hiperplasia adrenal, que causa excesso de hormônio masculino nas mulheres. “É preciso cuidar na escolha e na dosagem, porque, para cada mulher, vai existir um tipo melhor. E o uso errado pode, até mesmo, levar a uma gravidez”, frisa a endocrino-pediatra Ana Cristina de Araújo Bezerra.
De acordo com ela, o período ideal começar o uso do remédio é após a fase de crescimento, que cessa entre os 15 e 17 anos. “Há casos em que o uso começa mais cedo, mas só quando há problemas identificados, que precisem do hormônio”, explica. A variedade também justifica o cuidado em escolher qual será o mais indicado. Usar o anticoncepcional da amiga pode ser perigoso, dizem os médicos.
“Não existe uma regra para a escolha do remédio. Há que se analisar o momento da vida da paciente, seu histórico anterior. A Organização Mundial de Saúde (OMS), inclusive, listou os critérios médicos de elegibilidade para uso de métodos anticoncepcionais”, afirma o ginecologista Jarbas Magalhães, secretário da Comissão de Anticoncepção da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). Segundo o especialista, o benefício trazido pelo uso desses medicamentos é maior do que os eventuais efeitos colaterais.
Jarbas ressalta que os anticoncepcionais atenuam a acne, ajudam no controle de peso, diminuem a retenção de líquidos e controlam o ciclo menstrual das adolescentes. As ressalvas vêm em seguida: “Eles podem trazer prejuízos, sim. É preciso sempre a orientação do ginecologista, já que ele saberá trocar a dose”. Exigem atenção as versões com alta dose de progestágenos, hormônios derivados da progesterona. Em excesso, eles podem levar a uma futura osteoporose, já que enfraquecem os ossos. “Os que diminuem massa óssea devem ser indicados com cuidado, para não atrapalhar essas meninas mais na frente. Outros, em excesso, trazem alterações uterinas, mas nada que não cesse com o fim da menstruação”, confirma a endocrino-pediatra Ana Cristina.

Alterações hormonais

Mulheres que usam o anticoncepcional para não engravidar também pode ter benefícios extras. A estudante Johanne Galvão, 20, procurou o ginecologista com essa intenção e levou de brinde o fim das acnes. “A minha pele ficou bem menos oleosa”, observa. A estudante explica que também teve uma melhora no seu ciclo. A despeito da regularidade, ela ficava até sete dias menstruando — e com grande quantidade de sangue.
O dermatologista Maurício Santana orienta a todas as adolescentes que o procuram no seu consultório com problemas como queda de cabelo, acne e oleosidade da pele a procurarem um ginecologista antes de qualquer diagnóstico. Ele explica que, em vários casos, esses são efeitos de alterações hormonais e é a ginecologia quem poderá indicar qual é o melhor tratamento. “O anticoncepcional vai atuar nas causas do problema, que são os hormônios alterados. O dermatologista vai cuidar das consequências, como a acne.”

Descontinuar o uso do remédio, às vezes, é problemático. Larissa Braga conta que, mesmo com seus ovários de volta à normalidade, precisa continuar se medicando para que o problema não retorne. “Uma vez, parei de tomar, fiquei três meses sem menstruar e engordei 10kg. Não quero parar por um bom tempo”, admite, rindo.
Ela diz que também teve pedra na vesícula, uma das consequencias do uso prolongado de anticoncepcionais orais, por isso a atenção do ginecologista ao passado da menina. “Não posso confirmar que a culpa foi deles, mas, como uso há muito tempo, desconfio.” O medicamento também tem contraindicação para mulheres com varizes e aumenta o risco de sangramento em algumas pacientes, destaca Ana Cristina de Araújo Bezerra.
Não existe, até o momento, comprovação científica de o uso de anticoncepcionais tenha de ser interrompido após um ano. “É um mito. A mulher pode tomá-lo sem pausas, desde que o médico fique atento”, garante Jarbas Magalhães. Ele afirma que a escolha do medicamento é baseada em exames físicos detalhados, de modo a detectar tendências de hipertensão, diabetes e sobrepeso. “Todas as adolescentes deveriam procurar o ginecologista para saber se podem tomar anticoncepcionais. As vantagens são muitas”, completa Johanne Galvão.

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