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Estado de Minas CAPA

Nos bailes da vida

Relatos de cura da depressão, de resgate da autoestima e de muitos outros benefícios tornam ainda mais especial a celebração dos 200 anos da chegada da dança de salão no Brasil


postado em 28/07/2011 20:20 / atualizado em 29/07/2011 20:05

Carolina Samorano / Especial para o Correio

Jeanne Pellerano: um ano e meio de zouk rende um show na pista(foto: Carlos Vieira/Esp. para o CB/DA Press)
Jeanne Pellerano: um ano e meio de zouk rende um show na pista (foto: Carlos Vieira/Esp. para o CB/DA Press)

Era 1989, verão europeu, clima quente em Amsterdã, capital holandesa. Cerca de 150 mil pessoas espremiam-se diante de um palco, acompanhando como podiam os refrões, apesar das diferenças de idioma — e de ginga. As batidas do ritmo eram por si só um convite ao rebolado. Loalwa Braz era a vocalista e puxava os versos dos sucessos da franco-brasileira Kaoma. Chorando se foi levou ao mundo um novo conceito de Brasil e de música, numa época tensa, em que todos estavam preocupados demais com os passos da União Soviética e dos Estados Unidos. Os dois gigantes ameaçavam levar seus conflitos ideológicos a uma disputa armada. Foi bem nesse momento que os movimentos sensuais da lambada ganharam um significado maior. Dançar a dois era o mesmo que celebrar a amizade.

Aquele show na Holanda foi, nas recordações de Loalwa, o maior público do Kaoma, responsável por explodir as batidas da lambada mundo afora. “No Rio, fazíamos show no Canecão para 3 mil e poucas pessoas. Lá, foram 150 mil.” No Brasil, Chorando se foi ficou à frente de Vogue, de Madonna, na lista das mais tocadas de 1989. Na França, ocupou o primeiro lugar nas paradas por 12 semanas seguidas e vendeu 2 milhões de cópias. O refrão da composição — que, na verdade, é boliviana e não brasileira — foi cantarolado com sotaque francês, chinês, australiano, alemão, britânico. Pelo Kaoma, foi gravada em português, inglês e espanhol, mas ganhou versões em outras vozes, como a da cantora japonesa Akemi Ishii. Virou hit infantil em cassetes da Xuxa e dos pequenos do Trem da Alegria.

Mais de duas décadas separam as saias rodadas de outrora das de hoje. A lambada perdeu espaço primeiro para o axé, depois para o pagode, o forró, o sertanejo universitário e o pop importado dos norte-americanos nas paradas. Não fosse o recém-lançado single On the floor, de Jennifer Lopez, que usa a melodia do sucesso do Kaoma, seria um tanto antiquado ser flagrado na rua murmurando distraidamente Chorando se foi. De sucesso passou a cafona, como quase tudo o que remete aos anos 1980 e 1990. Mas há uma razão para que ela seja celebrada. A dança de salão comemora 200 anos no Brasil, comemorado 13 de julho de 1811, data da publicação do primeiro anúncio de aula de dança de salão no país.

Evidentemente, não foi inventada com a lambada, mas não seria mentira dizer que, com ela, foi reinventada, sobretudo ao aproximar o jovem da dança a dois e afastar o estigma que colocava as danças de par como “coisa de velho”. Muitos dos professores que hoje ensinam os primeiros passos de tango, bolero, forró e a caçula zouk chegaram aos salões com a lambada e neles ficaram.

Hoje, o dois-pra-lá-dois-pra-cá e suas variações de giros, cruzadas e passadas peculiares a cada um dos seus incontáveis ritmos é democrático. Jovens de 20 e poucos anos dividem sua ginga com senhoras e senhores de meia idade e simpáticos setentões. “A dança de salão é possivelmente a atividade cultural mais praticada hoje do Brasil, arrisco dizer. Se colocarmos lado a lado com os esportes, talvez perca para o futebol”, contenta-se Luis Florião, pesquisador, professor de dança no Rio de Janeiro e presidente da Associação Nacional de Dança de Salão, a Andanças, criada em 2003 para organizar, reunir informações e disseminar a dança de par no país.

Se é a mais praticada e se comemora hoje duas centenas de anos, é evidente que o Brasil tem muito a contar sobre ela. Da polca, umas das primeiras danças a desembarcar por aqui e que emprestou sua influência a muitas outras, à recém-criada zouk, que incendeia jovens em casas noturnas, a dança de salão foi se recriando nos pés de professores e dançarinos. Continua como uma eterna mutante, dada a sua natureza de se misturar. Ademais, é multiuso: serve como recreação, queima calorias e é terapia para mentes inquietas. Tem valor cultural para o país e valor pessoal inestimável. Os adeptos garantem: “dançar é viciante”. Nas próximas páginas, entenda o porquê.

Que dança é essa?
Um pouco mais sobre alguns dos ritmos de par mais populares no Brasil

Samba
Existem diversas teorias e cada uma delas dá conta de uma origem diferente: africana, europeia, ameríndia, para dizer algumas. Origem do nome à parte, o samba dos salões se fez da mesma forma que o próprio povo brasileiro — misturando um pouco de cada ritmo e cultura. Junte a polca, trazida da Europa no século 19, a umbigada africana e — quem diria — a valsa. E fez-se o samba, nascido nos salões, casas de família, clubes, dancings e gafieiras e que até hoje conserva a ginga e a sensualidade do povo do Rio de Janeiro.

Lambada
O ritmo dos anos 1990 foi o grande responsável por espalhar pelo Brasil a dança a dois. Quem nunca rebolou “chorando se foi quem um dia só me fez chorar”, ou nunca cantarolou distraidamente “adocica, meu amor, adocica” que atire o primeiro LP de Beto Barbosa. Antes do estouro virar hit infantil, com Lambada da alegria, do Trem da Alegria, foi durante algum tempo considerado de “baixo calão”, devido aos movimentos sensuais. É um ritmo genuinamente brasileiro, assim como o samba, e está presente em mais de 100 países.

Zouk
O ritmo do momento também é conhecido como “lambada do Rio de Janeiro” ou “lambada-zouk”. Por isso, não se espante se um dia entrar num baile de zouk e se deparar com pessoas dançando à moda dos anos 1990. Ele surgiu pelas bandas cariocas na metade dos anos 1990, quando a lambada deixou de ser gravada. Sem música que acomodasse seus giros sensuais, os lambadeiros acabaram achando no zouk, ritmo caribenho com raízes africanas, a batida perfeita para sua dança — adaptando um passo aqui, um giro acolá. Embora a música seja de fora, o rebolado ainda é bem brasileiro e nada tem a ver com o zouk dançado no Caribe, muito mais parecido com o merengue.

Forró
“Que dança é essa / Dança pobre / Dança rico / Chega mais para ver”, era o convite, em 2001, dos forrozeiros do Falamansa para que todo mundo se arriscasse num arrasta-pé. Foi mais ou menos por essa época que o ritmo tomou conta dos discmans de adolescentes e jovens, dos programas de auditório e das estações de rádio. Mas sua história é bem mais antiga. O forró nasceu do baião de Luiz Gonzaga e existe hoje em diversas formas — são mais de 20 subtipos, calcula-se. Na sua forma original, tem influências do xaxado, do xote, do frevo e do baião. Atualmente, um dos mais populares é o forrock, tocado com aparelhagem eletrônica e dançado mais ao estilo da lambada. Mastruz com Leite e Calcinha Preta são alguns de seus representantes mais conhecidos.

Soltinho
Ao contrário dos outros ritmos, o soltinho não tem um estilo musical para chamar de seu. Vem do Rio de Janeiro e surgiu como uma forma bem abrasileirada de se dançar ritmos como o chachacha, o rock, o fox trot e o suíngue. Mesmo assim, a origem exata dos passos, meio ao estilo de John Travolta em Embalos de sábado à noite, não é consenso entre os especialistas. Mas é provável que o nome tenha aparecido lá pelos anos 1980, embora a dança já exista há bem mais tempo no país — antes chamada de fox ou suíngue.

Bolero
Um pouco de tango, um pouco de dança flamenca e uma música de origem espanhola ajudaram a moldar esse estilo. O bolero existe no mundo inteiro, mas foi no Rio de Janeiro que ganhou movimentos novos e alguns passinhos do tango, como cruzadas, caminhadas e giros — nas outras regiões, a dança ficava mesmo na base do dois-pra-lá-dois-pra-cá. Mesmo com tantas diferentes influências e formas, o bolero sempre foi uma dança de galanteio, suave e romântica: o objetivo do cavalheiro é conquistar sua dama, num jogo de sedução que pode durar três minutos — ou uma vida toda.

Dançando lambada, ê…


Lowalva Braz: por causa da lambada, estava entre as 100 pessoas convidadas para dar as primeiras marteladas no Muro de Berlim(foto: Arquivo pessoal)
Lowalva Braz: por causa da lambada, estava entre as 100 pessoas convidadas para dar as primeiras marteladas no Muro de Berlim (foto: Arquivo pessoal)
Em janeiro de 1990, o Kaoma, que estava estourado já no Brasil e na Europa, fez uma apresentação no Palladium, em Nova York. A estranheza que os movimentos e a batida do ritmo causaram aos norte-americanos na época ficou eternizado numa matéria do jornalista Jon Pareles para o New York Times. “A lambada não é nada tão especial”, ele escreveu. “Parece uma espécie de merengue lento tocado por uma banda de polca”. Sobre a dança — “homens sem camisa e mulheres de minissaias”, salientou — disse que era “lasciva”, frisou que algumas vezes a moça se curvava tanto em direção ao chão que “sua cabeça chegava quase a tocar o palco” e observou que, “se o público seguisse o exemplo, os quiropratas certamente encontrariam sua maior bonança”.

A lambada foi um dos maiores estouros em termos de música do Brasil. Quando foi chamada para integrar o Kaoma, Loalwa Braz estava com 32 anos. O convite para o teste de vocalista exigia cantoras de 20 e poucos. A formação original da banda contava com músicos brasileiros, africanos, caribenhos e franceses. Chorando se foi estava pronta para estourar. Já havia sido traduzida de sua versão original, Llorando se fué, do músico boliviano Ulises Hermosa, e ganhado batida contagiante. Em poucas semanas, o mundo inteiro se curvava diante da música. Holandeses dançavam quase com a mesma desenvoltura de brasileiros. A banda emplacou também Dançando lambada. Beto Barbosa cantou Adocica, a voz de Sidney Magal embalou a abertura da novela Rainha da sucata, da TV Globo, com Me chama que eu vou, e mesmo o público infantil se encontrou em Lambamania, de Sandy e Júnior, e Lambada da alegria, do Trem da Alegria.

A dança chegou aos países muçulmanos e, de repente, Loalwa Braz, líder do Kaoma, se viu dando explicações sobre o figurino das moças lambadeiras. “Eu dizia que a dança era de Porto Seguro, onde as pessoas dançavam de biquíni e saída de praia. Eles se chocavam, claro.” As meninas, por lá, não abandonavam suas saias, mas arrematavam com meias grossas. Para se ter uma ideia do tamanho da repercussão da lambada, em 1989, Loalwa estava entre as 100 pessoas que ganharam o direito de dar as primeiras marteladas no Muro de Berlim, quando ele estava prestes a vir abaixo. Tudo isso graças ao simbolismo que a dança, até então estranha aos jovens no mundo inteiro, ganhou: celebrar a união e a amizade dos povos e raças. “Lembro de ver pessoas dos dois lados dançando lambada abraçadas em cima do muro”, recorda Loalwa.

A lambada foi a salvação da dança de par no Brasil, segundo Luís Florião, da Andanças. Passada a moda da valsa, que durou até os anos 1960, os jovens encontraram nas danças individuais, como a disco, sua identidade entre os anos 1970 e 1980. Por isso, durante algum tempo, dançar corpo a corpo era o mesmo que estar lá pela quarta ou quinta década de vida, pelo menos. “A lambada não era cafona, não era careta. E por isso o jovem se permitiu”, resume o pesquisador. Hoje, grande parte dos frequentadores das antigas casas de lambada é de professores dos mais variados ritmos nas academias. Marcelo Amorim e Chiquinho Alves, ambos figuras antigas pelos salões brasilienses, começaram a ensinar os primeiros passos tão logo se entenderam com o ritmo baiano. “Todo professor, ainda que não tenha começado com a lambada, deve a ela alguma coisa”, diz Marcelo. “Porque aprendeu com alguém que aprendeu com ela, e por aí vai”, completa.

Passado um hiato de 10 anos, a segunda geração de dança de par que invadiu os salões da meninada foi a do forró universitário, no início dos anos 2000, que trouxe para os holofotes o xote açucarado dos meninos do Falamansa e do Rastapé, e formou outra leva, um pouco mais jovem, de professores de dança. Embora ele seja ainda o mais procurado nas academias, como confirmam Marcelo, Chiquinho e Luís, o mesmo tem ocorrido, em proporções mais modestas, com o zouk brasileiro, derivado da lambada. Ironia do destino ou não, o zouk é agora a prova da máxima dos anos 1980, segundo a qual enquanto viver o lambadeiro, viverá também a lambada.


5, 6, 7, 8…

Há cinco anos, Dirce e Luciano frequentam os salões: nos bailes, uma nova e grande família(foto: Carlos Vieira/Esp. para o CB/DA Press)
Há cinco anos, Dirce e Luciano frequentam os salões: nos bailes, uma nova e grande família (foto: Carlos Vieira/Esp. para o CB/DA Press)

Um estúdio de dança é um território em que não se começa a contar do um. “Cinco, seis, sete, oito” é a ordem do professor Marcelo Amorim, dono de uma academia especializada na Asa Norte. Antes que ele chegue ao oito, todos estão a postos. E daí sim, na passada da música, os números voltam a se encaixar, mas não além do quatro. “Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro.” Já passa das nove da noite e nenhum dos oito casais espalhados pela sala aparenta cansaço ou indisposição. Diante do espelho, assumem uma pose autocrítica rigorosa. “O pé está errado”, um senhor ensina a sua parceira. “O braço é mais alto, não é?”, observa uma aluna. “Não quero mais te perguntar/Se devo ou não te procurar”, eis a voz do cantor, que embala os ganchos, giros e tesouras dos dançarinos, movimentos típicos do samba de gafieira, tema da aula daquela terça-feira.

O samba de gafieira é um dos ritmos mais desafiadores nos salões, ao lado do tango. Marcelo Amorim, professor há 24 anos, 14 deles em Brasília, se recusa, no entanto, a apontar qualquer ritmo como mais fácil ou mais difícil. A medida é a da dedicação necessária. “O samba de gafieira e o tango têm movimentos mais complexos. Demora mais para o aluno sair dançando”, justifica. Mais do que a contagem dos passos — aquela que começa no cinco e termina no oito — e o som que se ouve do lado de fora da academia, dançar, ali, é interagir. Quinze casais já se formaram num só ano entre os passos agarradinhos da academia. Um deles casou-se na sala de aula, embalado ao som do seu ritmo preferido. Dançar em Brasília é compartilhar. As pessoas se conhecem, criam um grupo de amigos, saem para dançar aos fins de semana.

A aula segue. Alguns têm facilidade nos ganchos, outros trocam as pernas. “Direita na frente”, chama a atenção Marcelo. Dirce Macedo, 39 anos, e o marido, Luciano Segredo, 41, executam os movimentos com a prática de quem já os repetiu muitas vezes. Pacientes, repetem tudo em câmera lenta para os colegas mais atrapalhados. Depois, repassam sozinhos. O casal gaúcho mora há 10 anos em Brasília. Antes da gafieira, gastavam a ginga com as danças típicas de sua terra no Centro de Tradições Gaúchas. Levou dois anos para que Dirce convencesse o marido a se matricular numa escola especializada. “Eu queria samba. Ele achava que já sabia dançar.” Cinco anos depois, a camisa suada de Luciano entrega que não só o samba, mas também o tango e o bolero o pegaram de vez, inclusive fora da academia: a vontade de praticar os levou aos bares e clubes de samba da cidade, onde multiplicaram os amigos, antes restritos aos pais de colegas do filho, de 9 anos.

Marcelo e Dirce vão duas vezes por semana à academia. Na terça, são três aulas seguidas. Uma delas, com iniciantes. Voltam níveis, às vezes, para repassar técnicas, limpar movimentos, como eles justificam. Se um viaja, o outro não tem motivos para faltar às aulas. Nos bailes, ela dança com outros, enquanto ele faz uma pausa para a cerveja, e ele puxa damas para dançar, se ela engata um papo com as amigas. “Todo mundo se respeita. É como uma grande família. O que vale é dançar”, observa Luciano.

 

À moda carioca


O relógio ainda não marca nem dez da noite. Os cabelos delas e as camisas deles já estão ensopados de suor. Quem ousa começar a noite de sexta-feira antes das onze nesta casa noturna de música latina não economiza o rebolado. Depois, o público vira um mexido de quem está ali para gastar a sapatilha na pista de dança e de quem não entende nada de dança, mas muito de tequila, troca de olhares, beijo na boca. A casa está em Brasília já há 13 anos, instalada na L4 Sul, não muito longe do centro. A batida do zouk inaugura a noite por ali e dá a partida no fim de semana. Quem não está na pista, espalha-se pelos cantos, timidamente, sem atrapalhar os casais concentrados na arena. O que se atreve a atravessar por ali sem um par, nem tem a intenção de arrumar um e embalar na batida do ritmo, inevitavelmente tromba, recebe pisões, caras feias, golpes de cabelo e olhares não muito amigáveis. A pista é para quem dança. Fim de papo.

Modinha entre os jovens chegados aos salões, a dança zouk nasceu com os cariocas, nos pés dos antigos lambadeiros órfãos de suas batidas, quando elas praticamente desapareceram das prateleiras nos anos 1990. Deu-se que o rebolado da lambada foi achar na música zouk sua perpetuação, adaptando-se um pouco um ou outro passinho à batida mais lenta do ritmo. A música, na verdade, tem raízes fincadas na África e foi importada da Martinica, no Caribe. E não que os caribenhos não sejam bons de zouk. Por lá, na sua versão dançante, ele tem mais a ver com o merengue e bem menos com a lambada. Mesmo assim, nos permitiram emprestar o nome, ainda que torçam o nariz e batam o pé dizendo que o que veem por aqui “não é zouk”, segundo relatos dos mais habitués das pistas.

Música caribenha, origem africana, os versos em creole, o rebolado brasileiro. Tanta mistura fez com que algumas pessoas, em nome de separar joio de trigo, batizassem o zouk de Lambada do Rio de Janeiro, em homenagem à sua origem. Outros preferem zouk brasileiro e existe a vertente que adota lambada-zouk. E há ainda os que não admitam a ligação entre o ritmo dos anos 1980 e o que ferve hoje entre os jovens. Zouk é zouk. Lambada é lambada. O zouk tem mais sensualidade, espirais, torções de tronco. Os cavalheiros pegam suas damas ora pela cintura, ora pela nuca. Elas jogam a cabeça para os lados, para cima e para baixo, rebolam sobre suas coxas, testa colada com testa.

Entre uma música e outra, as damas sentam ou correm às suas rodinhas de amigos, esperando o convite pela próxima dança. Ludmilla Ramos, 22 anos, quase nunca espera mais do que um minuto a mão estendida de um cavalheiro. A experiência e os passos desinibidos de quem tem intimidade com o zouk lhe dão o privilégio de só parar por iniciativa própria, nunca por falta de par. Joga os cabelos de um lado para o outro, vai de uma ponta a outra da pista, destaca-se dos iniciantes, geralmente recolhidos às bordas. Ludmilla sabe dançar o zouk e aproveita os cavalheiros mais experientes para deixar o restante dos dançarinos pasmados com sua desenvoltura. “Mas não me recuso a dançar com quem sabe pouco.” Faz parte do ritual da dança compartilhar com os outros a sua ginga. Pena que eles às vezes — por falta de jeito e nenhuma maldade, que fique claro — lhe machucam as costelas tão forte agarram, ou jogam sem querer suas damas contra outros casais na pista.

A intimidade dura o tempo de uma música. Menos de um minuto depois, o ritual recomeça com outro parceiro. Num ambiente assim, o troca-troca de parceiros é natural. A sensualidade da dança, também, embora quase sempre ela seja isenta de maldade. Jeane Pellerano, 27 anos, também toma boa parte das atenções na pista. Não só pelos cachos loiros e o vestido curto vermelho. Aparentemente, um ano e meio de aulas lhe deram alguma segurança com os rodopios do zouk. Todas as sextas, e eventualmente demais dias da semana, ela sai para dançar. Para ela, o zouk veio antes da academia, quando ela ainda se limitava a segurar um copo e observar, de longe, os passos de quem ocupa a pista. “Sem aula é difícil”, reconhece. A malemolência ali é ensaiada.

Para todo mundo bailar


Amparada pelo professor Chiquinho, Therezinha Braga, 78 anos, encontrou na dança a cura para a depressão(foto: Carlos Vieira/Esp. para o CB/DA Press)
Amparada pelo professor Chiquinho, Therezinha Braga, 78 anos, encontrou na dança a cura para a depressão (foto: Carlos Vieira/Esp. para o CB/DA Press)

Existem poucas unanimidades na dança de salão. Os ritmos são mutantes. Ou não são. É permitido misturar. Ou não é. Existe apenas um tipo de forró. Ou existem mais de 20. O tango é a mais difícil delas. Ou é a gafieira. Uma delas, no entanto, é proferida por 10 entre 10 professores e confirmada sempre que possível por praticantes, iniciantes ou iniciados: dançar é para todos. A democracia é evidente nas turmas de dança pelas academias. Velhos, jovens, pessoas cheias de ginga ou inimigos do ritmo dividem a mesma aula. Cada um acompanha como pode, mas todo mundo sai dançando e, não raro, leva de souvenir alguma coisa boa da aula para casa.

Therezinha Braga, de 78 anos, fez mais do que isso. Achou perdida num canto da sala de aula a alegria de viver e deixou por lá anos de terapia que não estavam surtindo muito efeito. Tia Tê, como é carinhosamente chamada pelos alunos, chegou à dança já tardiamente. Era a comemoração dos seus 70 anos e os filhos insistiram para que ela surpreendesse a família com uma coreografia de tango. A missão de ensinar os passos sensuais da dança argentina à professora de pintura foi dada a Francisco Alves, o Chiquinho — ele também um filho da lambada —, professor de dança há 20 anos em Brasília, muitos deles no Clube dos Previdenciários, na Asa Sul. As primeiras aulas não foram moleza. “Eu nunca tinha segurado num cavalheiro assim antes”, ela lembra, com água nos olhos. Tia Tê casou-se muito cedo. Sempre admirou da porta os bailes de dança — o marido nunca concedeu-lhe uma noite dançante.

Eleusa, com o professor Chiquinho: bolero depois da perda do filho(foto: Carlos Vieira/Esp. para o CB/DA Press)
Eleusa, com o professor Chiquinho: bolero depois da perda do filho (foto: Carlos Vieira/Esp. para o CB/DA Press)
 

Os primeiros encontros no salão da academia eram mais de lágrimas de constrangimento e tristeza do que de passadas e giros. “A família não ia bem”, ela limita-se em dizer. Perdeu o medo das aulas, apresentou-se linda no dia da sua festa, vestida de luvas, meia calça e cílios postiços. Largou o terapeuta e adotou as aulas como seu antidepressivo. Passou a fazer as unhas, pintar os cabelos, frequentar os bailes da academia e, principalmente, virou habitué dos palcos, local onde ela jamais havia pensado subir na vida. Desde que entrou para a dança, nunca faltou a um espetáculo.

O efeito antidepressivo pegou também a aposentada mineira Eleusa Andrade, de 69 anos. As aulas de bolero, os encontros periódicos com os colegas de dança, as gargalhadas surgidas entre um e outro passo errado tiraram Eleusa do luto pela perda do filho para a leucemia, há oito anos. “Percebi que se ficasse mais um minuto em casa enlouqueceria”, conta. “Costumo dizer que Deus usou a dança para me puxar do buraco.” Na academia, ela conta, encontrou mais do que o galanteio e o romantismo que marcam os passos do seu ritmo preferido, o bolero. “Uma terapia, um prazer e uma família, já que a minha mora longe”, enumera. “Além da qualidade de vida.”

Flávio, com a professora Gabriela: mais autonomia e menos timidez(foto: Carlos Vieira/Esp. para o CB/DA Press)
Flávio, com a professora Gabriela: mais autonomia e menos timidez (foto: Carlos Vieira/Esp. para o CB/DA Press)

Amiga de jovens e idosos, a dança ainda chega um pouco mais longe. Bateu à porta de Flávio Selvati, hoje com 23 anos, há um ano e meio. Portador de síndrome de Down, Flávio procurou a academia para fazer aulas de street dance. “Mas ele sempre se deu mais com o forró”, comenta a mãe de Flávio, dona Maria Madalena. Quem comanda os passos de Flávio é a professora Gabriela Póvoa, em aulas particulares. Natural que Flávio tenha dificuldades, mas a dança trouxe a ele mais do que um hobby. Flávio, que antes tinha dificuldade mesmo no dois-pra-lá-dois-pra-cá, hoje consegue, por exemplo, tomar a iniciativa de estender a mão e convidar Gabriela para um xote. “Ele tem mais autonomia com relação à dança e à própria vida”, analisa a professora. Fora dali, os benefícios também ficam evidentes à mãe do forrozeiro. “Ele está mais desinibido, mais feliz.”

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