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Estado de Minas ENTREVISTA//FRED GELLI

A natureza como musa

Criador da logomarca das Olimpíadas 2016, do Rio de Janeiro, design defende a sustentabilidade como o caminho do futuro e fala da importância do trabalho em coletividade


postado em 25/08/2011 18:01 / atualizado em 26/08/2011 21:44

(foto: Tátil Desig/Divulgação)
(foto: Tátil Desig/Divulgação)
Ele criou um flyer impresso em folhas secas e uma logomarca inspirada nos cartões-postais do Rio de Janeiro. Em ambos os projetos, o designer carioca Frederico Gelli teve como musa a natureza. Até mesmo porque, Fred, como é conhecido o fundador, sócio e diretor de criação da Tátil Design, aposta na biomimética como inspiração. O termo, ainda desconhecido do grande público, descreve uma tendência que acompanha o processo criativo de diversas áreas de conhecimento: aprendizado a partir de soluções propostas pela natureza. Vencedor de mais de 70 prêmios nacionais e internacionais, entre eles o Leão de Bronze, no Cannes Lions 2009, e o ouro, no IDEA Brasil 2009, ele abraça um compromisso diferente com o design. Aposta num processo de criação em que a cadeia sustentável seja peça fundamental. O resultado seria o que ele mesmo chama de “bônus coletivo”. Foi assim com o último projeto: a elaboração de uma logo para as Olimpíadas 2016, no Rio de Janeiro, escolhida entre mais de dezenas de candidatos. No começo do ano, o projeto foi acusado de plagiar a marca da ONG americana Telluride Foundation. No entanto, a acusação foi derrubada após verificação de especialistas em propriedade intelectual. "Tanto nossa marca quanto a da fundação, e até o quadro do Matisse (A Dança), que também foi comparado à marca, bebem da mesma fonte, de um signo universal, que traz pessoas de mãos dadas, dançando, celebrando. Ícone poderoso, encontrado na arte rupestre e indígena", responde à revista Exame. Num bate-papo por telefone com a Revista, o designer conta o que pensa sobre consumo, design e confessa um desejo: que todos possam ser agentes de mudança nesse atual cenário preocupado com o esgotamento dos recursos naturais.

Uma revolução
Originária do grego bio (vida) e mimesis (imitação), a palavra resume o conceito da biomimética: a natureza como inspiração para criação. No livro Biomimética: inovação inspirada pela natureza, a escritora científica Janine M. Benyus defende essa busca contra a tendência moderna de dominar ou melhorar a natureza. E se mostra como uma verdadeira revolução na interação do homem com o meio ambiente. Diferentemente da Revolução Industrial, a Revolução Biomimética inauguraria uma era cujos pilares não estão no ideal de que podemos extrair da natureza, mas sim, naquilo que podemos aprender com ela.
(Fonte: EcoDesenvolvimento.org)

Como a biomimética pode responder por outra perspectiva de consumo e design?
(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)
A biomimética é fonte de inspiração para qualquer área de conhecimento, como engenharia, design, arquitetura. O meio ambiente está há milhões de anos criando soluções que contemplam diversas situações, e de forma criativa. São processos de crescimento e de evolução. Aprender com a natureza a fazer negócios é uma ferramenta poderosa porque esse modelo de consumo desenfreado já está ultrapassado. A gente está passando por uma mudança de paradigma. Nosso modo de vida, forma de produção e conceitos de consumo adotados como base para o princípio do desenvolvimento da sociedade estão absolutamente em xeque. Nesse contexto, o design é fundamental. Teremos desafios. E, como ferramenta, a inspiração na natureza. Um exemplo disso foi a criação do flyer ecológico. A ideia nasceu no festival de publicidade de Cannes, em 2008, após um workshop. De vota ao Rio de Janeiro, pensei numa solução de alto impacto sensorial e baixo impacto ambiental. Logo pensamos na folha seca, porque era outono. Na folha, não há uma gota de tinta. Escrita e desenho foram gravados a laser. Depois, se a pessoa jogasse o flyer no chão, a natureza se encarregaria de reciclar.

E como design e sustentabilidade estão dialogando nesse cenário?
Já existe uma tendência. Pessoas e empresas entenderam que a lógica de consumo deve ser outra. No entanto, os conceitos da década de 1950 ainda norteiam a forma como produzimos as coisas. Cria-se um aparelho novo, depois de certo tempo ele apresenta problemas e logo temos que comprar outro. A obsolescência do programa gera mais compra e o design ainda opera nessa lógica. Ele ainda está contribuindo para essa dinâmica de consumo linear e desenfreado. Explico: você extrai matéria-prima, cria o produto, consome e joga fora. Já existem empresas de design no mundo, em quantidade crescente, que estão trabalhando com outra lógica e perseguindo soluções de menor impacto ambiental que acenam para um novo paradigma, que sai do produto para o serviço. Nesse cenário, a tecnologia ter um papel fundamental. Já vemos essa diminuição de consumo “físico” a partir de download de música, livros, revistas, etc. Agora, essas pressões para mudanças devem ser políticas e da sociedade porque, num futuro próximo, vamos pagar o verdadeiro valor das coisas. Quero dizer, pagar por todo o processo, do começo ao fim da produção do objeto. E, quando esse custo estiver sendo contabilizado, vamos ver diferença no preço final e teremos que adotar mudanças de hábitos de consumo.

Que caminho ainda falta para profissionais e empresas percorrerem nesse sentido?
Inevitavelmente a natureza não se antecipa ao problema enquanto desenvolve um “produto”. De alguma maneira, ela elege o organismo que está mais habilitado a viver nessa nova condição. O que ela faz é gerar alternativas e colocar variações de organismo em cada ecossistema para que “alguém” se dê bem. O que falta para a gente, no entanto, são mudanças que já estão a caminho: leis rigorosas, escassez de matérias-primas, pressão da sociedade…Tudo isso está ganhando cada vez mais peso na nossa lógica de consumo. E, quando esse peso for inadministrável, a lógica vai mudar. Acredito que falta, de um modo geral, uma contundência maior desses fatores até essas pressões ficarem insuportáveis. Infelizmente, temos esse hábito: tentamos tirar o máximo proveito desse modelo de consumo que não é sustentável e que já está falido. Mas sou otimista. Não existe nenhuma grande empresa no planeta que não esteja desenhando soluções para uma nova ótica. Todas têm áreas de inovação, laboratórios e perseguem soluções que ressoam esse novo paradigma.

Para a criação da logo das Olimpíadas Rio 2016, um dos aspectos que você ressaltou como fundamental foi o trabalho coletivo. Por quê?
(foto: Ismar Ingber/COB/AFP)
(foto: Ismar Ingber/COB/AFP)
Esse pensamento tem a ver com a forma como a nossa empresa trabalha. Somos um time ao longo de 22 anos. Por isso, quando pensamos nesse projeto, ao mesmo tempo em que realizávamos vários outros, todo mundo se manifestou e quis participar. Não dava para a gente fazer nossa equipe competir. Então, toda a empresa participou do processo. Nasceu de um insight da empresa do Rio e passou pelas mãos da equipe de São Paulo. Briefamos os caminhos estratégicos e todos começaram a trabalhar. Tinha gente trabalhando no conceito e desenhando a logo na hora do almoço, no fim de semana, à noite… A criação mobilizou toda a equipe de formas diferentes. Todos, literalmente, meteram a mão na marca. A marca é do grupo. Todos participaram, deram opinião. A logo eleita, que concorreu com outras 139 agências, foi o projeto mais alterado de forma coletiva. Para mim, essa vitória responde pelo futuro, que é da co-criação. Da soma de conhecimentos, saberes, ações. Mais do que nunca vamos ter que nos unir. Pensamos por muito tempo de uma maneira cartesiana, mas vamos ter que derrubar as fronteiras das áreas de conhecimento para uma abordagem holística. É engenheiro trabalhando com físico, consultando sociólogo…Todos juntos para resolver um problema, por exemplo, como o do sistema de transporte. No final, o bônus é coletivo. Mas para isso, teremos que aprender a lidar com o ego.

Esse processo coletivo é o futuro do design?
Não necessariamente. O design, como profissão, tem uma abrangência enorme. Pode ser de moda, industrial e por aí vai. Diria que tudo o que se produz no design será produzido de maneira coletiva. Mas isso não vai esbarrar no design autoral. No design de uma cadeira ou de um copo, por exemplo, ainda haverá a expressão da pessoa, de um artista. Nesse caso, continua fazendo sentido o design autoral. Mas quando se pensa em grandes desafios, nos problemas do consumo de eletroeletrônicos, por exemplo, em como desenhar um celular que possa durar cinco anos e que seja atraente, esse tipo de projeto vai exigir sim a soma de saberes, o coletivo. Vai exigir um design comprometido com as demandas da nossa vida, com a demanda de todos.

 

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