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Estado de Minas ENTREVISTA

"Eu odeio Instagram!"

Os badalados fotógrafos Bob Wolfenson e Ludovic Carème falam do novo trabalho em parceria, no qual desbravam o universo da filmagem, dos mistérios por trás de uma grande foto e da relação dela com as mídias sociais


postado em 22/09/2011 18:09 / atualizado em 24/09/2011 19:09

(foto: Lacoste/Divulgação)
(foto: Lacoste/Divulgação)

 

Os renomados fotógrafos Bob Wolfenson e Ludovic Carème toparam o desafio: deixaram pela primeira vez a fotografia de lado, por uns instantes, e se aventurarem no universo da filmagem. A convite da Lacoste, fizeram retratos em vídeos de personalidades brasileiras. São promoters, atores, apresentadores, cantores, arquitetos e modelos que pousaram para a câmera da dupla. A ideia do projeto é reafirmar a marca Lacoste no Brasil trabalhando o conceito “Unconventional Chic”. As imagens — reunidas em um livro — e os vídeos não serão veiculadas em anúncios, só aparecerão na exposição. A mostra foi inaugurada em São Paulo, passou pelo Rio de Janeiro e fecha hoje a turnê em Brasília, no Shopping Iguatemi.

Os fotógrafos foram escolhidos a dedo pelo curador Ricardo Feldman. Bob é um dos maiores nomes da fotografia nacional, conhecido pelos ensaios nus que fez para a revista Playboy e também pelos editoriais de moda publicados nas principais revistas especializadas do Brasil. Ludovic é um renomado retratista francês. Ele se mudou para o Brasil há dois anos e já fotografou personalidades como Pelé e a atriz Marion Cottilard, além de ter publicado imagens no New York Times, Elle, Le Monde e Vogue. A dupla conversou com a Revista sobre a experiência de usar uma máquina de filmagem pela primeira vez e os rumos da fotografia moderna após fenômenos como o Instragram, aplicativo que usa filtros em fotografias compartilhadas nas redes sociais.

Por que, em vez de tirar fotos, vocês resolveram fazer um vídeo?
BOB: O ponto de partida da exposição foram os filmes que Andy Warhol fez para a The Factory. O curador da exposição, Ricardo Feldman, nos mostrou o vídeo e nos disse que estava fazendo um projeto com a Lacoste, mas queria que fosse fotografia em movimento. Porém, a coisa andou diferente. Fizemos um filme e não fotografia em movimento.

Qual é a diferença entre filme e fotografia em movimento?
BOB: Você não reconhece a fotografia em movimento como um filme. A fotografia em movimento fica com uma imagem completamente parada e tem alguma coisa em movimento nessa imagem, que você percebe como um filme. A forma de filmagem enriqueceu mais o nosso trabalho. Nos deu uma outra ótica sobre o trabalho.

Como vocês dirigiram o filme?
BOB: Apesar de serem filmes, os vídeos não têm uma narrativa fílmica. Eles não precisaram ser editados. Rodamos 30 segundos direto, mas dirigi como se estivesse dirigindo uma foto. É o que eu sei fazer.

De que forma vocês mantiveram o trabalho harmonioso e, ao mesmo tempo, respeitaram a característica profissional de cada um?
BOB: Isso aconteceu naturalmente. O Ludovic iluminou de um jeito diferente do meu. Com uma luz mais escura e dramática.
LUDOVIC: Nos encontramos antes para decidir como seria a linguagem das imagens, qual seria o conceito, a cor, a iluminação. Assim, decidimos que o meu trabalho seria mais escuro e mais dramático.
BOB: Na verdade, eu me reconheci no Ludovic nesse estilo mais clean, senão eu não teria feito. Eu não faria uma conversão do que eu queria para me encaixar em um estilo. Os idealizadores da exposição nos deixaram livres para fazer essa leitura.

Vocês preferem fazer fotos para revistas ou para exposições?
LUDOVIC: Cada um é um trabalho diferente. As revistas têm uma importância, e são nelas que eu me encontro. Mas exposições são a mais longo prazo, ficam mais tempo em evidência.

O que atrai você a fazer fotografia no Brasil?
LUDOVIC: O Brasil é uma megalópole. Quando saio de casa, se for para o lado direito, vou encontrar um mundo. Mas se for para o esquerdo, vou encontrar outro. Eu viajo o mundo perto de casa. E ainda encontro mundos diferentes. Isso é fantástico.

Bob, por você ser brasileiro, existe uma linguagem que é esperada em seus trabalhos internacionais?
BOB: Sem dúvida. Tem uma coisa no primeiro mundo — ou nos chamados grandes centros — que existe uma paternalização do exótico. Se você é brasileiro, tem que fotografar futebol, papagaio, travesti e selva. Mas eu, sinceramente, estou pouco me lixando para isso. São Paulo é uma cidade brasileira que tem o mundo inserido dentro dela. Tirar foto no Brasil é tirar foto de coisas brasileiras, das grandezas e das misérias do Brasil, com características do ambiente que você está fotografando, com a técnica, com as pessoas. Há muitos anos eu ouço isso: ‘A sua fotografia não é brasileira’. Como não é brasileira? Toda pessoa de fora tem olhar exótico sobre qualquer lugar. As pessoas têm no imaginário que a França é a torre Eiffel e uma bengala. No Brasil, a história é a mesma. Acham que o nosso país só tem isso, e se você não corresponde a isso....

Há um tipo de pessoa que vocês preferem fotografar?
BOB: A fotografia é um encontro. Quando você vai fotografar alguém, não sabe o que vai encontrar. Quando alguém chega no meu estúdio, eu tenho uma constante. Sei a câmera, a luz e o que eu mais ou menos imagino. Mas o resto a gente não prevê. A gente não sabe como vai se desenrolar, é impalpável.

(foto: Lacoste/Divulgação)
(foto: Lacoste/Divulgação)


Como você dirige um retrato, que é o caso da exposição, se você não está dirigindo um personagem e, sim, a expressão de uma pessoa?
LUDOVIC: Como o Bob disse, a fotografia é a natureza de um encontro. Não fazemos a foto sozinhos. Tem alguém que produz, tem a pessoa fotografada e tem a nossa visão. A foto não existe sem essas pessoas. É uma relação de confiança.
BOB: Tem muito senso comum em relação à fotografia. Um é que, quando você faz um retrato, você tem que captar a alma da pessoa. Isso é uma balela! Você tem que captar o que é captável. Às vezes, você só consegue captar a superfície. Mas isso é importante também. A ideia que a pessoa tem que estar descontraída é ridícula! Um dos melhores retratos que eu tenho é do João Cabral de Melo Neto. Ele estava completamente contraído e contrariado de estar sendo fotografado. Dirigir um retrato é estar ali. A sua personalidade é que manda. A sua e a do fotografado. É um encontro de personalidades. Esse encontro é que vai dar a química da imagem. Eu dirijo com a minha personalidade, o Ludovic dirige com a dele, e temos resultados completamente diferentes.

O retrato sempre ter que ser uma coisa parada? Esse projeto tira um pouco esse senso comum?
BOB: Fazer um retrato em uma situação consentida é muito diferente de fazer um retrato em uma situação roubada. Você faz uma direção. Você está de um lado, o retratado está do outro. Mas quem escolhe a foto é você. Tem opções. Em um retrato roubado, você, às vezes, tem uma chance de fazer aquela foto.
LUDOVIC: No retrato pousado, você estabelece uma relação de confiança. Você escolhe um lugar, uma luz e um posicionamento. O retrato roubado é a memória de um momento e de um encontro. Se fosse no dia seguinte, tudo poderia ser diferente. Pois a vida é sempre diferente.

Vocês incorporaram no trabalho essa nova linguagem de fotografia disseminada pela internet, como o Instagram?
BOB: Eu odeio o Instagram! Qualquer coisa que pareça o Instagram eu descarto. O Instagram ficou tão carne de vaca, tão agressiva, tão franqueada. Fez todo mundo se achar fotógrafo. Qualquer coisa que parece o Instagram, eu não faço.

Como sobreviver, então, nesse meio em que todo mundo se acha fotógrafo?
BOB: Esses fotógrafos tipo Instagram nunca vão concorrer comigo e nunca vão me tirar trabalho. Você sempre vai precisar de alguém que tem algum estilo particular, um conceito, uma ideia. E também uma técnica acoplada àquela ideia. Não vai ser fácil achar essa pessoa. Sempre vai ter a necessidade de alguém com personalidade. O Instagram é uma coisa de um milhão de pessoas.

Mas você não acha que o Instagram pode criar uma geração inteira interessada em fotografia?
BOB: Nesse sentido, pode ser bom e ruim. É bom porque você democratiza, e a possibilidade de sair gente boa é maior. Por outro lado, para chamar atenção, você precisa fazer um esforço mil vezes maior do que a minha geração e a do Ludovic tiveram que fazer. Antes, para você ser fotógrafo, precisava ter o conceito matemático e físico. Hoje, não. Agora, é só você ver se está bom ou ruim, se está mais claro ou mais escuro. Obviamente, eu não vou ser contra isso. Isso é bom! Mas, por outro lado, é ruim. Ninguém estuda, ninguém procura saber. Um monte de gente fica me mostrando fotos no Instragram e dizendo que são geniais. Muitas pessoas realmente acreditam nisso. Eu, não. Simplesmente não acho genial, na maioria das fotos falta técnica.
LUDOVIC: Hoje em dia, os fotógrafos não saem mais para fotografar na rua. Essa rotina é importante para estudar a luz. Muitos novos fotógrafos não têm o cuidado com a luz. A terminologia da fotografia é escrever com a luz. As pessoas acham que podem resolver os problemas de luz de uma foto na tela do computador, tirando o efeito real dela.

Como Brasília inspira a fotografia?
BOB: Eu vou no clichê: as obras de Nieymer. Já fiz grandes fotos nas obras de Nieymer. Tanto para moda quanto para o meu arquivo pessoal. Mas Brasília tem uma luz que é muito particular. Dá um espectro lindo nas fotografias.

Até que ponto vocês têm interferência no que é colocado de moda na fotografia?
BOB: Na medida do meu expertise, pouco. Eu me rodeio de profissionais competentes, que fazem da moda a vida deles. Eles conhecem profundamente o universo das roupas e das tendências. O meu trabalho é muito mais na construção da imagem de moda do que uma interferência na roupa. O fotógrafo de moda está para a moda como o diretor de cinema está para o filme. Ele precisa ser um pouco arquiteto, um pouco fotógrafo, um pouco psicólogo, um pouco diretor, um pouco coreógrafo, um pouco iluminador. Ele só não precisa ser músico, ao contrário do diretor de cinema. Ele precisa ter noções de tudo isso e não precisa ser profundo em nada disso.
LUDOVIC: A fotografia é um trabalho de equipe. Não conseguimos dar conta de todo o processo. Nesse trabalho, escolhemos o stylist Paulo Martinez. Eu confio completamente nele. As roupas e a maquiagem que ele escolhe estão sempre coordenadas com a luz e a construção da imagem.

Bob, você fotografa a moda brasileira há décadas. Acha que essa indústria evoluiu ou ainda tem muito que fazer?
O Brasil hoje tem uma indústria de moda muito evoluída. São Paulo é a maior capital da moda da América Latina, a que mais se desenvolveu. O sistema da moda brasileiro está se organizando e se profissionalizando. Isso se reflete diretamente no meu trabalho. O resultado final desse processo aparece nas minhas lentes. Hoje, consigo realizar imagens mais requintadas, que aparecem em revistas nacionais altamente qualificadas.

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