Jornal Correio Braziliense

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Casa, comida e... carinho

O lugar de criação e o tratamento dispensado são dois fatores importantes para formar o caráter do animal

No início do mês, foi notícia o triste episódio em que pit bulls atacaram uma criança de 2 anos, no quintal da casa dela, após terem fugido do canil. A revolta pela criação de cães da raça tomou a internet como um tsunami. Mas a polêmica merece ser ampliada: independentemente do potencial genético, a forma como o animal é criado influi de modo decisivo em seu comportamento ; agressivo ou não.

De acordo com o adestrador de cães Francisco Júnior, do Brasília Park Dog, é importante que o animal encontre um ambiente de equilíbrio e bem-estar. ;O cão que passa o dia acorrentado, preso em um canil apertado, vive sob uma situação de estresse constante. Geralmente, o estresse é estravasado com agressividade, latidos excessivos e mau comportamento;, explica. Ou seja, cães criados em confinamento tendem a ser mais violentos.

E não basta apenas garantir um local espaçoso para o animal viver. Muitas vezes, é preferível que ele esteja dentro de uma casa pequena com a família, do que sozinho em um quintal gigantesco. O adestrador Lucas Von Glehn, explica que além do estresse de viver confinado, a ausência de contato com pessoas e outros animais pode ser outro gatilho para um comportamento inadequado. ;O cão é um animal que vive em matilha. Mesmo que tenha sido domesticado, ele precisa da presença de outros seres. Seja da família que o acolheu, seja de outros cães. Essa ausência de contato não é positiva para o animal;, explica Lucas, que tem no currículo cursos como o Certificat de dressage de chiens (curso de obediência canina e proteção civil da Canadian K9).

O especialista frisa que não bastam os cinco segundo de afagos na cabeça quando o dono estaciona o carro na garagem. O cão precisa de afeto, de convivência, e também precisa gastar energia. Se o local em que o bicho vive é apertado, deve-se reservar horários para estimulá-lo com atividades. ;Vejo casos de clientes que reclamam do mau comportamento, e, depois, confessam que o cão vive preso na área de serviço, só saindo para passear uma vez ao dia. O problema não está com o animal, e sim com os donos;, aponta. O adestrador Francisco Júnior complementa, afirmando que é preciso proporcionar ao nosso melhor amigo não só atenção e espaço, mas socialização com outros animais e pessoas.

Lucas lembra que exageros são negativos em ambos os lados. ;É preciso estar atento também ao excesso de humanização dos animais. O dono que quer cuidar do cachorro como se ele fosse uma criança acaba não respeitando a natureza animal, que forma a identidade dos cães;, aponta.

Para Delma de Souza, que tem dois yorshires em casa, e um pastor belga no jardim, tudo depende da criação. Pela sua experiência, o comportamento canino está ligado tanto ao tratamento dispensado quanto ao local de pernoite. Os que moram dentro de casa são mais dóceis, porém ciumentos. Os que ela criou soltos são mais independentes, avalia.

Do que eles precisam
- Espaço para que se exercitem e gastem energia, ou, no caso de cães que moram em apartamentos, uma média de três ou mais passeios diários, com direito a caminhadas de pelo menos 30 minutos.
- Por ser um animal que essencialmente vive em matilha, o cachorro precisa conviver com outros indivíduos de sua espécie, ainda que de raças diferentes. Além disso, o convívio com as pessoas da casa e seus visitantes ajuda o cachorro a ser um animal sociável e pacífico. Um cão que vive esquecido em um jardim está sob estresse.
- Afeto também pode ser o diferencial entre um cão equilibrado ou não. A relação de amizade e respeito que ele constrói com aqueles que o cercam também ajuda a definir sua índole.
- Liberdade. Jamais mantenha um animal preso durante todo o dia a uma corrente. Essa situação é altamente estressante e pode tornar seu comportamento imprevisível. Cães que passam 24h confinados em canis tendem a apresentar comportamento agressivo.