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Estado de Minas MEDICINA

Uma pausa no estresse

Mais e mais pessoas consideram a meditação como um antídoto contra as pressões desgastantes da vida moderna


postado em 29/01/2012 08:00 / atualizado em 27/01/2012 12:49

(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
Deitado sobre um colchonete, o desafio é concentrar-se em cada parte do corpo, dos dedos dos pés até o ouvido. “Há quanto tempo eu não pensava no meu próprio pé?”, alguém observa. Preste atenção no seu corpo e, em hipótese alguma, se esforce em esvaziar a mente. O exercício é de meditação, mas o propósito, segundo dita a prática budista da plena atenção, é focar no presente, no seu corpo e na sua vida, ao contrário de simplesmente esquecê-los. Para além de uma realidade mais zen e de qualquer religião, os que ali se encontram têm um objetivo bem mais prático: diminuir o estresse e amenizar o que ele faz ao corpo.

A meditação da plena atenção é uma prática oriental milenar que vem ganhando força em consultórios médicos, clínicas de reabilitação, hospitais e casas de meditação. Conquistou até os mais céticos dos estressados. O responsável pela tomada da prática meditativa pela ciência e pela medicina integrativa foi o neurocientista norte-americano Jon Kabat-Zinn, quando, na década de 1970, elaborou o que ficou conhecido como Programa de Redução de Estresse da Plena Atenção (MBSR, na siga em inglês) — 8 semanas de aulas de meditação que prometem reduzir o estresse, aumentar a qualidade de vida e, se aliado a tratamentos médicos, amenizar sintomas físicos, como a dor. Há quem consiga até diminuir a dose dos medicamentos ou, no caso da diabetes, por exemplo, em que o estado emocional influencia nos níveis de insulina, manter a doença, relativamente, sob controle.

“O que muda é a forma de reagir a um estímulo estressante. E o essencial é que cada um descubra os seus pontos fracos no processo”, explica a psicóloga Ângela Lins, da equipe responsável pelo programa na Sociedade Vipassana de Meditação, em Brasília. Na prática é como se, frente a situações de estresse — de uma fechada no trânsito a uma notícia ruim dada pelo médico —, você conseguisse parar, respirar e aceitar antes de xingar o barbeiro ou descabelar-se pelos dias de sofrimento que ainda virão. Além disso, como a técnica consiste basicamente em voltar-se para si mesmo, a tendência é aumentar o autoconhecimento, ajudando cada um a identificar as raízes do mau humor e da fragilidade emocional.

A proposta parece viajante, mas a ciência já dá suporte suficiente ao programa de Kabat-Zinn. Tanto que, lá fora, ele é usado em mais de 250 clínicas médicas e aceito por grande parte dos planos de saúde. “É uma forma de economia. Menos estressadas, as pessoas adoecem menos”, analisa Régis Guimarães, professor de meditação e colega de Ângela na Vipassana. Aqui, no Brasil, no entanto, meditar contra o estresse ainda é raro. “Ainda existe um certo preconceito e as pessoas tendem a confundir com medicina alternativa ou com algo de cunho religioso. Mesmo os médicos mais abertos têm receio de serem mal interpretados por seus pacientes”, acredita Régis.

Menos estresse, mais saúde

(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
Quando, há cerca de três meses, a servidora pública Regina Nogueira, 44 anos, participou de uma palestra sobre os ensinamentos de Jon Kabat-Zinn, mal sabia que enfrentaria horas de meditação pela frente. Ela conciliava um trabalho pesado, porém temporário, com uma rotina desgastante de estudos para concurso e ainda peregrinava em consultórios médicos em busca de tratamento para uma alteração na visão que comprometia sua qualidade de vida. Os exames, à época, não apontaram problema físico. Um dos profissionais que consultou disse a Regina com todas as letras que problema dela era, na verdade, puramente emocional. “O que me atraiu foi a palavra ‘estresse’”, lembra. “Jamais pensei que fosse meditar. Sempre achei que meditação fosse algo muito ligado a religião. Imaginava que ficaria ouvindo pregação”, conta.

Passados os dois meses do programa, Regina se despediu das manchas no campo visual, perdeu o preconceito com a meditação — inclusive comprou almofada e colchonete próprios — e passou a encarar a vida de forma diferente. “Eu vejo a meditação quase que como um manual de sobrevivência. Não vivo mais cada dia da semana ansiosa pelo sábado, pelas férias, pelo Natal. Parei de viver como se estivesse esperando alguma coisa.”

Já o empurrãozinho que fazia, todas as semanas, a professora Elisabete Menezes, 42, sair de Taguatinga e ir até o Plano Piloto era a depressão, aprofundada por um processo difícil de separação. São muitos os que procuram o MBSR como forma de aliviar os sintomas desse mal. “Para mim, foi um divisor de águas. Só assim consegui entender melhor o que estava acontecendo. Percebi que o problema não é dos outros e que, se alguém precisa mudar e se adaptar, sou eu”, conclui, recuperada do turbilhão.

De volta à vida
Para a servidora pública Mônica (nome fictício a pedido da entrevistada), o programa de redução do estresse teve um significado bem maior do que apenas combater os aborrecimentos da rotina. Ela se recuperava de uma depressão profunda, consequência de um estresse pós-traumático ocorrido no ambiente de trabalho, e não conseguia se adequar à medicação receitada pelo médico. Afastada do emprego há mais de uma ano, vivia trancada em casa, se incomodava mesmo com os barulhos mais rotineiros, como o da água que rega a grama no jardim da quadra, e não suportava aglomerações. A ordem veio do terapeuta. Ir todas as semanas ao curso significava não apenas quebrar um preconceito — “achava que era uma coisa ‘paz e amor’ demais” — , mas vencer o medo de sair à rua e enfrentar pessoas novas e, até então, desconhecidas.

A meditação se mostrou um remédio poderoso para Mônica. Em casa, os filhos e o marido perceberam a mudança no humor: a tolerância aumentou e as janelas abertas deixaram de ser motivo de briga. Ela finalmente se entendeu com a dosagem dos medicamentos e, o mais importante, voltou a trabalhar, embora num ritmo menor. “Eu ficava frustrada se não conseguia cumprir alguma tarefa no trabalho ou em casa. Agora, passei a respeitar os meus limites e a me concentrar em uma coisa de cada vez. Antes, eu queria fazer tudo e não fazia nada”, resume.

Com o aval da ciência
Em São Paulo, o Hospital Albert Einstein, mantém um grupo de profissionais que aplica o MBSR nos pacientes em tratamento de câncer — uma prova de que a medicina começa a acreditar que o estado emocional dos pacientes faz, sim, diferença no tratamento. “Os resultados são notáveis. Eles já estão diagnosticados e recebendo o melhor que a medicina pode oferecer a eles. O programa ajuda a entender o que eles podem fazer por si mesmos naquele momento. Não adianta tentar descobrir o porquê da doença nem olhar para frente e se preocupar com o prognóstico. Eles precisam estar atentos ao hoje”, explica o cirurgião Paulo de Tarso Lima, especialista em medicina integrativa e líder da equipe do Albert Einstein.

Mesmo o trabalho dos médicos fica mais fácil quando o paciente tem um treinamento em meditação. “Tem gente que chega ao consultório e não sabe nem dizer o que sente. Mas a gente percebe que quem passa pelo programa aponta exatamente qual é a sensação que incomoda”, completa o médico. Pacientes internados em Unidades de Tratamento Intensivo ou já debilitados pela doença recebem uma versão adaptada do programa — em vez dos tradicionais oito dias, treino é reduzido a dois ou três.

Aos poucos, a ciência confirma o que Oriente sempre soube. Um estudo comparativo conduzido desde 1993 pela equipe de Kabat-Zinn com 2,5 mil pacientes distribuidos em 150 programas MBSR observou que 97% deles relataram conseguir lidar melhor com o estresse; 84% afirmaram estar com a saúde melhor; 95% se mostraram mais atentos e preocupados com a própria saúde e 99% ficaram satisfeitos com os resultados do programa. Muitos pararam de fumar e de beber, mudaram a alimentação e passaram a assistir menos tevê. Outras pesquisas similares mostraram reduções nas doses de analgésicos e nos níveis de dor, como uma publicada no Journal of Beahvioral Medicine, que mostrou que 44% dos pacientes que sofriam com dor crônica diminuíram o uso de medicamentos para dor e 28% os abandonaram completamente.

A mais recente pesquisa em cima do programa de Kabat-Zinn, aplicada por uma equipe de pesquisadores do centro de psiquiatria do Hospital Geral de Massachussets, nos Estados Unidos, foi publicada no início do ano passado no periódico Psychiatry Research: Neuroimaging. A equipe de estudiosos avaliou 16 voluntários e um grupo de controle formado por outras 16 pessoas. A conclusão? Meditar um pouquinho por dia durante as oito semanas propostas pelo programa da Plena Atenção não só traz bem-estar, como parece aumentar a espessura do córtex cerebral e do hipocampo, área do cérebro ligada ao aprendizado, à memória e à introspecção.

O resultado foi aferido na comparação entre imagens dos cérebros dos participantes duas semanas antes do início do programa e duas depois de concluída a experiência. “Embora a prática da meditação esteja associada a uma sensação de paz e de relaxamento físico, os praticantes também percebem benefícios cognitivos e psicológicos que permanecem mesmo a longo prazo”, disse Lazar à imprensa. “As mudanças na estrutura do cérebro podem justificar algumas dessas melhoras relatadas. As pessoas não se sentem melhor apenas porque estão passando um tempo do dia relaxando”, atestou a pesquisadora.

Agradecimento: Sociedade Vipassana de Meditação

 

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