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Estado de Minas MEDICINA

Os cânceres do sangue

O tecido sanguíneo pode ser afetado por uma gama de doenças agressivas em maior ou menor grau. Linfomas, leucemias e mielomas são as mais comuns


postado em 10/02/2012 16:01 / atualizado em 12/02/2012 13:20

(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
Em agosto passado, a notícia de que o ator Reynaldo Gianecchini havia recebido o diagnóstico de um linfoma raro, do tipo não-Hodgkin, sacudiu algumas mentes despreocupadas. Galã de novela, de aparência superssaudável e carreira a mil, parecia inconcebível que uma notícia desse porte caísse sobre seu colo — e de seus fãs. O ator segue em tratamento e se recupera de um transplante autólogo de medula óssea, quando são reimplantadas células-tronco do próprio paciente. A sua doença, o linfoma, é um dos cânceres mais frequentes na população adulta. Por ano, são diagnosticados 12 mil novos casos no Brasil e alguns especialistas estimam que uma em cada cinco pessoas, eventualmente, receberá a mesma notícia que Gianecchini. Já a leucemia, outro tipo de tumor de células sanguíneas, tem uma média de 9,5 mil novos casos anuais. Menos frequente em adultos (que representam entre um 1% e 2% dos portadores), é o câncer mais comum em crianças, principalmente em sua forma mais agressiva.

Os médicos afirmam que, de forma geral, a detecção dos cânceres de sangue — exceto os mais nocivos, que levam seus hospedeiros a emergências hospitalares em questão de dias — ainda é tardia no país. São oito meses, em média, entre o primeiro sinal e o diagnóstico. “Para quem tem um câncer no sangue, isso é muito. Quem tem câncer tem pressa”, enfatiza Cármino Antônio Souza, hematologista da Unicamp e presidente da Associação Brasileira de Hematologia, Hematoterapia e Terapia Celular (ABHH). Parte da culpa, ele aponta, é da falta de conhecimento dos sintomas da doença, tanto por médicos plantonistas quanto pela população. “No primeiro sintoma, muitos correm ao pronto-socorro, que já não é o melhor lugar para ir. E lá, se um médico vê uma íngua na região do pescoço, ele não vai suspeitar de cara de um câncer, porque a chance de ser é realmente pequena. Mas ele precisa estar preparado para desconfiar. O médico só diagnostica aquilo que conhece”, sublinha.

Entre os tipos mais comuns de câncer de sangue estão os linfomas, as leucemias e o mieloma múltiplo. Este último afeta as células plasmáticas, mais comum entre a população idosa. Em se tratando de linfomas e leucemias, as classificações são muitas. Para o linfoma, por exemplo, existem os Hodgkin, agressivos e quase sempre curáveis, e os não-Hodgkin, como os diagnosticados em Gianecchini e na presidente Dilma Roussef, em 2009. Os não-Hodgkin, por sua vez, podem ser de células B (que correspondem a 80% dos casos), e de células T, cuja evolução é um pouco mais lenta, embora mais resistentes à quimioterapia. Já a leucemia pode ser linfóide ou mielóide, aguda ou crônica, subtipos que apresentam sintomas, evolução e tratamentos bastante diferentes.

(foto: Reprodução da internet)
(foto: Reprodução da internet)
O grande problema de alguns desses tipos, no entanto, é que nem sempre leucemias e linfomas apresentam sintomas nos seus estágios inicias. O não-Hodgkin do tipo células T, por exemplo, só começa a dar sinais de sua chegada quando a doença já se encontra avançada. “Os pacientes, às vezes, contam histórias de meses. Uma íngua que apareceu há quatro meses, uma febre que começou no mês passado. Aí você vai examiná-lo e encontra três, quatro ínguas pelo corpo. Nesse ponto, embora o estado geral do paciente seja bom, a doença já pode estar longe do seu estágio inicial”, alerta o hematologista Jorge Vaz, do Hospital de Brasília. Outro caso clássico de doença assintomática é a leucemia crônica. “Algumas leucemias só aparecem em exames de rotina porque não apresentam sintoma algum. Há casos, inclusive, que você não precisa submeter o paciente logo de cara a um tratamento e ele consegue viver normalmente por uns 10 ou 12 anos sem nenhum tipo de sintoma.”

 

Cada diagnóstico, uma sentença
Como leucemias crônicas assintomáticas são a exceção à regra, há uma infinidade de outros tumores sanguíneos que há muito não só despertam a curiosidade médica como têm ajudado a oncologia a dar passos largos rumo a novos e menos agressivos tratamentos. A leucemia mieloide crônica (LMC), por exemplo, foi responsável por uma enorme revolução no tratamento oncológico quando, nos 1990, os médicos descobriram o cromossomo portador da mutação que desencadeava o seu aparecimento. A descoberta deu origem à substância conhecida hoje como imatinibe, usada não só no tratamento da LMC, mas muito eficiente também contra alguns tumores gastrointestinais. “O tecido sanguíneo é muito acessível. Para que você possa estudá-lo, basta colher uma amostra de 5ml de um paciente. Por isso, a medicina avança tanto no tratamento contra cânceres sanguíneos”, tranquiliza o oncologista Gustavo Fernandes, coordenador da Unidade de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês Brasília.

O mieloma, por exemplo, que até bem pouco tempo era motivo de preocupação, deixou o estigma de incurável para trás. A viabilização do transplante autólogo — o mesmo pelo qual passou Reynaldo Gianecchini — e o advento de drogas como a talidomida e a lenalidomida renovaram as expectativas dos portadores da doença. “Muita gente até torcia o nariz quando fazia um diagnóstico desses”, frisa Fernandes. “Mas hoje o tratamento dá resultados excelentes. É gostoso tratar a doença e ver essa evolução no paciente” continua.

De você para você mesmo
O transplante autólogo, praticado no Brasil há uma década, revolucionou o tratamento do mielomas e de algumas leucemias e linfomas para os quais a única alternativa era a quimioterapia comum ou o transplante alogênico, com uma amostra de medula óssea altamente compatível ao material genético do doente. O procedimento autólogo é feito em três etapas: primeiro, colhe-se uma amostra de células-tronco do próprio paciente. Depois, o doente recebe quimioterapia de ataque, que destrói a medula cancerosa do paciente e dá lugar a uma nova. Por fim, são reimplantas as células retiradas e, em pouco tempo, a medula óssea está recomposta. “Ao contrário do método de transplante tradicional, o autólogo não oferece risco de rejeição e oferece apenas 5% de risco complicações graves, contra 30% nos transplantados alogênicos”, aponta o hematologista Jorge Vaz.

Diagnosticada há dois anos com mieloma múltiplo, a aposentada Maria da Conceição Oliveira, 66 anos, prepara-se agora para a última etapa do seu transplante autólogo, exatamente na idade limite em que o procedimento é recomendado. Os dias difíceis seguintes ao diagnóstico — feito depois de uma peregrinação por diferentes especialistas em busca da causa para a anemia mostrada em um exame de sangue — deram lugar à confiança. “Eu nunca tinha ouvido falar na minha doença nem em transplante autólogo. Achei até que tivesse leucemia no início e tive muito medo. Mas o mais difícil passou e eu estou confiante de que tudo correrá bem”, conta, mais aliviada.


Transplante de medula, ainda um problema
Mas se Maria da Conceição pôde usufruir do transplante autólogo, há casos ainda em que a esperança reside no transplante alogênico. Os poucos para os quais o imatinibe, descoberto nos anos 1990, não representa a solução. Segundo cálculos da Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia (Abrale), uma fundação e apoio a doentes e familiares, cerca de 1,8 mil pacientes aguardam hoje na fila por um doador de medula compatível. Até outubro do ano passado, o Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome), contava com mais de 2,5 milhões de cadastros. “O problema é que, no Brasil, o tempo médio entre o cadastro do doador e a convocação é de dez anos. Mas, nesse período, os dados não são atualizados, o que significa que muitos nunca serão localizados”, lamenta a presidente da Abrale, Merula Steagall. “É um desperdício de investimento, já que cada doador cadastrado custa para o governo R$ 780”, continua.

Mesmo que o transplante alogênico ainda seja a cura para muitos pacientes, as dificuldades vão muito além de encontrar um doador compatível — a cada 10 mil cadastrados, apenas um será convocado. “A maior probabilidade é entre irmãos. O sonho de qualquer médico que precise realizar um transplante alogênico de medula é encontrar aquelas famílias com 12, 13 filhos”, salienta Gustavo Fernandes, do Sírio-Libanês. Depois de realizado o transplante, a torcida é pela recuperação do paciente sem complicações. A mais comum é a chamada Doença do Enxerto Contra o Hospedeiro, ou Dech, quando a nova medula reconhece o receptor como um corpo estranho. “O transplante alogênico é possivelmente um dos procedimentos mais complexos da medicina, porque você substitui a fábrica de sangue do paciente”, resume Fernandes. “Quando você transplanta um rim, por exemplo, é o organismo que rejeita o órgão transplantado. Mas se você transplanta o sistema imunológico, é o sistema que vai rejeitar o organismo inteiro. A boa notícia é que as medidas de suporte vêm ganhando com a tecnologia e o procedimento está bem mais seguro do que era”, ameniza.

Doação de medula óssea
Idade: O doador deve ter entre 18 e 55 anos.
Saúde em dia: Ao se voluntariar, o potencial doador passa por alguns exames de triagem para detectar HIV, sífilis, hepatite, doença de Chagas, HTLV, anemia, grupos sanguíneos e Fator Rh.
Cadastro: No cadastro, feito em um hemocentro, são colhidos do doador apenas 10 ml de sangue. A amostra passa por um exame laboratorial (o HLA), que determina suas características genéticas.
Arquivo: As informações ficam armazenadas em um cadastro nacional, o Redome.
Compatibilidade: Quando é encontrado um doador compatível, o voluntário é chamado para fazer outros exames de compatibilidade genética. Só depois o doador decide se vai mesmo prosseguir.
Procedimento: Na doação, o voluntário recebe anestesia geral e a medula é aspirada do osso da bacia através de uma agulha. A quantidade de medula óssea retirada do doador é de apenas 10% do total e, com aproximadamente 15 dias do procedimento, ela já está recomposta.

Para doar em Brasília
Fundação Hemocentro de Brasília
Hospital de Base
Mais informações: (61) 3327-4413

Os números do transplante
- São encontrados doadores para apenas 25% dos pacientes.
- Desses, cerca de 30% morrem de complicações decorrentes do procedimento.
- A cada 10 mil cadastros no Redome, apenas um é chamado.

Atenção aos sintomas
Quanto a isso, não há regra. A doença pode, inclusive, permanecer assintomática por um longo período. Porém, é preciso estar atento a alguns sinais:

Leucemias

Febre
Infecções frequentes
Cansaço
Anemia
Sangramentos na gengiva, no nariz ou fluxo menstrual anormal
Palidez
Manchas vermelhas pelo corpo
Hematomas frequentes
Dor óssea

Linfomas
Ínguas no pescoço, axilas, virilhas e atrás dos joelhos
Infecções
Febre noturna ou no final da tarde
Sudorese
Perda de peso

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