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Estado de Minas REPORTAGEM DE CAPA

Caçadores de preciosidades

Apaixonados por arte, colecionadores não medem esforços em busca de uma peça antiga, que tenha muita história para contar. E, apesar de tão jovem, Brasília esconde tesouros prontos para serem garimpados


postado em 26/02/2012 08:00 / atualizado em 27/02/2012 09:55

Inauguração de Brasília, 1960. Junto às obras arquitetônicas de Oscar Niemeyer, outras peças de arte de grandes arquitetos e pintores embelezavam as salas e corredores dos prédios do Eixo Monumental. Móveis assinados por gênios do design brasileiro, como Sérgio Rodrigues, Zanine Caldas e Jorge Zalszupin, e pinturas e esculturas de importância nacional e mundial: Miró, Portinari, Djanira, Di Cavalcanti. Em poucas décadas, porém, tal patrimônio se dissipou pelas salas e depósitos do governo. Se deterioram, foram leiloados e outros tantos desapareceram. Eis que, em meados dos anos 2000, com o projeto de recaracterização dos palácios da Alvorada e do Planalto, dois indivíduos foram responsáveis pelo resgate — com requintes hollywoodianos — das relíquias perdidas. Cláudio Rocha, diretor de Documentação Histórica da Presidência da República, e Rogério Carvalho, idealizador do projeto e participante da curadoria dos palácios do Planalto e da Alvorada, se tornaram espécies de caçadores de relíquias oficiais da cidade. A prática, porém, não é uma missão exclusiva de empreitadas governamentais. Pelo Brasil, os caçadores de preciosidades, sejam elas antiguidades ou obras de arte, estão em todo lugar. Em busca de pequenas frações da história, eles desmontam a distância entre o passado e o presente. São garimpadores de feiras de antiguidades, antiquários, garage sales, leilões de arte. Mais do que objetos, eles colecionam histórias tão valiosas quanto as peças que tanto apreciam.

Com o olhar treinado

(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)

Todo sábado, às 7 da manhã, a praça Benedito Calixto, em São Paulo, ganha vida. Ou melhor: recicla vidas. É quando senhoras e senhores chegam para organizar suas barracas, abrindo sacolas e caixotes de madeira arrematados com elástico em carrinhos de rodas. Minuciosamente, eles agrupam objetos que contam muito sobre suas vidas, e de seus antepassados. Coleções de óculos antigos, imagens sacras, molduras de madeira vazias, objetos de porcelana, castiçais de prata, caixinhas de música e luminárias, móveis pé palito, além de muitas quinquilharias começam a ser expostas à espera de outros donos e utilidades.

Tudo é feito rapidamente porque antes das 8h os compradores já começam a aparecer. O boato de que as melhores peças são vendidas no começo da manhã faz muita gente madrugar para conseguir um bom negócio. Ainda assim, é às 11h que a feira de antiguidades mais famosa de São Paulo mostra porque é celebrada na cidade. Fica lotada de jovens, senhores, turistas, famílias e gringos dispostos a garimpar.
Muito além dessa amostra semanal do passado, no centro do bairro Pinheiros, estão outros campos férteis para a exploração de relíquias das mais diversas sortes. Tem sempre alguém querendo vender, e milhares de interessados em arrematar boas peças.

Em Brasília, o comércio de antiguidade tem contornos diferentes das grandes cidades do país. Por aqui não há uma geração passada. Boa parte de quem chegou à capital nos anos 1960 é viva, o que impede o fomento de feiras populares de antiguidades, que, em geral, são alimentadas por espólios ou aposentados que vendem pertences valiosos para aumentar o orçamento doméstico ou mesmo para ajudar filhos e netos que não se interessariam por tal relíquia familiar. Ainda assim, no Distrito Federal existe, por exemplo, a feira do Gilberto Salomão, com uma roupagem pouco popular e muito sofisticada, que nos idos anos 1980 era considerada a melhor feira de antiguidades do Brasil.

Não vale dizer que o candango está desamparado. Os entendidos no assunto aprenderam a explorar as formas de alcançar as relíquias escondidas da capital. O psicólogo e professor Fernando Sardinha, por exemplo, se tornou figurinha certa pelos garage sales (vendas de garagem) da cidade. Visita, pelo menos, dois por semana. E raramente sai sem uma boa aquisição. Dos seus 350 quadros pendurados pela casa, algumas belas obras foram garimpadas nesse tipo de venda. Os garages são comuns em Brasília pelo alto trânsito de famílias que moram por aqui temporariamente. E, em geral, deixam tudo que estava na casa à venda por preços que Sardinha considera altamente atraentes. As melhores compras que já fez nessa caça incluem uma cristaleira francesa antiga, um lustre de cristal Baccarat, algumas peças de prata e boas pinturas, como um quadro de Lasar Segal, que arrematou de uma família que se mudava daqui. Tudo pela metade do valor de mercado.

O amor pela arte foi influenciado por uma herança de um tio, que recebeu quando era bebê: um quadro do pintor Jean Dunand, grande artista do Art Déco, que pertenceu ao ex-governador de Pernambuco Agamenon Magalhães. O governante deu o quadro a seu tio de presente. Quando saiu de casa, aos 18 anos, Sardinha levou a obra consigo, debaixo do braço, e descobriu, meses depois, que a peça era, de fato, muito valiosa. Mas, em vez de vender, o então office boy decidiu que aquela seria a primeira peça de sua coleção. Sardinha usou seu primeiro salário para comprar o segundo quadro, durante uma exposição de arte em Olinda. Dividiu o valor da obra em 12 vezes e nunca mais parou de consumir arte. Hoje, em sua coleção, tem exemplares de Tarsila do Amaral, Portinari, Di Cavalcanti, Djanira, Cícero Dias, Picasso, Mariot, além de mais recentes, como Poteiro e Galeno. Tudo isso sem nunca ter participado de um leilão na vida.

Mas se as pesquisas o motivam a comprar preciosidades, muitas vezes, suas compras só se revelaram preciosidades após muita pesquisa. Hugo Rodrigues, 28 anos, filho de Sardinha, se tornou seu detetive de arte particular. O pai compra uma bela obra ou antiguidade nos garage sales, e Hugo vai atrás da história dos quadros na internet. Este ano, Sardinha arrematou um lote de oito quadros por R$ 800. Entre eles, alguns não tão bonitos e outros que chamaram a atenção do colecionador. Uma das peças em especial parecia valiosa. Hugo observou o quadro e percebeu que na parte de trás da moldura havia um selo levemente rasgado e escurecido com verniz e sujeira. O rapaz tirou uma foto do tal selo, tratou a imagem no computador e conseguiu formar algumas palavras em alemão que estavam escritas nele. Digitou a frase na internet e achou fotos de selos parecidos. Descobriu que o quadro pertencia a Nicholas Taunay, um pintor que veio ao Brasil durante a Revolução Francesa, após invadir Munique ao lado de Napoleão Bonaparte. A obra, comprada por R$ 100, vale, pelo menos, alguns milhares de dólares. Para Sardinha, que pesquisa e arquiva a história de cada quadro em pastas, esse é apenas mais um conto de sua coleção.

No papel de Indiana Jones

(foto: Carlos Vieira/CB/D.A.Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A.Press)

No coração do Executivo, a busca oficial de Cláudio Rocha e Rogério Carvalho começou quando o escritório de Oscar Niemeyer, situado no Rio de Janeiro, enviou o projeto da reforma do Palácio do Planalto. Ambos se espantaram com a quantidade de sugestões de obras e móveis de design internacional solicitada e sugeriram aos arquitetos responsáveis que seria interessante usar peças brasileiras originalmente feitas para a capital federal. Assim como um sem número de obras de arte que estavam perdidas por Brasília. O escritório aprovou a ideia e eles foram à caça.

Juntos, começaram a circular pelos órgãos públicos federais. Olhos atentos e cheios de curiosidade, entravam em todas as salas, vasculhavam armários, visitavam as garagens e passavam horas explorando os depósitos de cada ministério e palácio. Meio detetives, meio Indiana Jones, eles desbravaram cada canto e lá encontraram os mais preciosos bens, que hoje ornamentam o Palácio do Planalto pós-reforma. Entre as principais maravilhas reencontradas está, por exemplo, um quadro do surrealista catalão Joan Miró, que decorava a salinha escondida em que trabalhava uma secretária que nunca havia ouvido falar no pintor. Em outra ocasião, acharam, encostada na parede de uma garagem, uma imensa tela do pintor Firmino Saldanha, feita especialmente para o Palácio do Planalto, coberta de poeira. Era a mesma obra que figurava na sala de reunião da Presidência nos tempos da ditadura ferrenha do ex-presidente Costa e Silva. Perto dali, tapetes Casa Caiada bordados à mão em pura lã, enrolados e largados, imundos, num canto.

Mas era nos depósitos dos palácios e ministérios que as relíquias abundavam. Mal se abriam as portas e a dupla já avistava móveis de jacarandá maciço desenhados por Sérgio Rodrigues e Jorge Zalzuspin empilhados. Muitos deles, sozinhos, custam mais de R$ 20 mil em antiquários internacionais. Alguns quebrados, outros arranhados e todos muito sujos. Lá, também encontraram outras relíquias: outro quadro de Miró abandonado, castiçais e floreiras de bronze, um imenso relógio de 1678, que pertenceu a Luis XIV e que, segundo pesquisas de Rogério, não sairia por menos de R$ 250 mil no mercado de antiguidades. Por lá, também estavam as duas mesas de jacarandá usadas por Juscelino Kubitschek. Para Cláudio, o abandono de tais peças segue a mesma linha de raciocínio: alguém que passou a ocupar as salas em que estavam esses objetos os achou cafonas ou inadequados e mandou que algum funcionário sumisse com a peça dali. E, assim, relíquias começaram a se acumular nos depósitos.

Outras peças também foram encontradas no Tribunal de Contas da União, na Granja do Torto, no Itamaraty, no Palácio do Jaburu e na Universidade de Brasília, onde Rogério encontrou um banco de design em um depósito a céu aberto, debaixo de chuva. No Senado, a dupla conseguiu autorização de José Sarney para frear os leilões esporádicos que vendiam a preço de banana móveis e artigos valiosíssimos. Recuperaram 400 peças que seriam leiloadas. Rogério lembra de um lote inteiro com 17 espelhos de cristal e moldura de jacarandá cujo o valor inicial do lance seria de R$ 150. No mercado, cada espelho custaria, por baixo, R$ 5 mil.

Os caçadores de relíquias realocaram todas as obras de arte de salas particulares — com exceção de membros do alto escalão, como a presidente — para os corredores com maior circulação. Como explica o superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan-DF), Alfredo Gastal, foi criado um curso de menores aprendizes em restauração de móveis, com adolescentes de escolas públicas do Distrito Federal, para recuperar todo o mobiliário, além de tapetes e estofados. Todo esse reaproveitamento significou uma economia de R$ 3,5 milhões para os cofres públicos, já que parte dos gastos com decoração foi dispensada. Hoje, o Palácio é tido com um museu do design brasileiro das décadas de 1950, 1960 e 1970. Além de expor pelos corredores arte brasileira e internacional da mais alta qualidade. Tudo aberto para visitantes e curiosos.

 

A nova geração de colecionadores

(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)

Oto Dias tem apenas 32 anos e uma coleção respeitável. Cerca de 5 mil livros, 500 gravuras, alguns documentos históricos e antiguidades diversas. A mania começou quando criança, a exemplo do avô, que colecionava máquinas fotográficas. Oto começou a juntar selos, moedas, cartões telefônicos. Quando entrou para a faculdade, virou habitué dos sebos da capital e da biblioteca da Universidade de Brasília (UnB) e, sem perceber, começou sua coleção. Edições antigas, livros com dedicatórias memoráveis, livros de arte, de poesia. E foi por meio do interesse que as ilustrações dos livros suscitavam que ele começou a colecionar gravuras.

Hoje, Oto é um especialista no assunto. Viaja pelo Brasil atrás de bons negócios, conhece os artistas pessoalmente e fomenta esse mercado contaminando os amigos com o mesmo vício. Membro da nova leva de colecionadores, honra a mania da sua geração reinventando as formas de consumo: faz boa parte das aquisições virtualmente. Na internet, arrematou peças raras, participou de leilões, comprou produtos internacionais e já se deixou levar por falsificações. Certa vez, comprou por uns R$ 500 uma gravura de um artista por um site de compras. Quando a gravura chegou, Oto decidiu trocar a moldura da obra. Descobriu que se tratava de uma falsificação das mais vagabundas. A "gravura" era uma foto impressa em papel couché. O vendedor disse que nem ele sabia que se tratava de uma falsificação, e o golpe virou prejuízo. Oto não esquenta. Para quem lida com arte, esse tipo de situação, ele garante, "faz parte".

Mesmo com todo o potencial para marchand ou curador, Oto ainda não vive disso. É pesquisador e só vende alguma gravura da coleção para os amigos mais chegados e insistentes. Na melhor das hipóteses, faz trocas com outros colecionadores em busca de peças mais raras. E em compras aleatórias, já fez excelentes negócios. Certa vez, arrematou uma gravura por R$ 30 e, depois de certa pesquisa, descobriu que o trabalho era assinado por um expressionista alemão.

 

Na Tevê
Reality shows gringos mostram o dia a dia das atuais celebridades do ramo:

Caçadores de relíquias, no History Channel (terças, às 23h)
Os especialistas em antiguidades Mike Wolfe e Frank Fritz percorrem o mundo em busca de relíquias para o antiquário que mantêm. Os caras compram verdadeiros tesouros das mãos de pessoas que desconhecem seu valor. O programa é famoso nos Estados Unidos, e é possível visitar a loja da dupla pela internet: www.antiquearchaeology.com. Também dá para assistir a episódios divertidos pelo YouTube.

Trato feito, no History Channel (terças, às 20h)
A série é um reality show sobre um antiquário e loja de penhores de Las Vegas (EUA). Mostra a relação entre homens de três gerações, que fazem diversas apostas de compras para o acervo da loja, pondo diferentes preços nos mais variados pedaços da história.

Gosto antigo
O ato de colecionar e de atribuir valor a um objeto antigo é tão velho quanto a própria sociedade. Do período paleolítico, quando os homens agrupavam velhos objetos como um pré-conceito de um museu, passando pelo rei da Babilônia Nabucodonosor, grande colecionador de antiguidades. Já o primeiro museu que se tem notícia, no moldes dos de hoje, data do começo do século 17.

Lei na na edição impressa a reportagem completa, com outras histórias de colecionadores

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