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Estado de Minas CELEBRAÇÃO

Elas por todos

O voluntariado é uma das áreas nas quais as mulheres são mais atuantes. Contamos a história de três pessoas dedicadas a causas diversas


postado em 04/03/2012 08:00 / atualizado em 01/03/2012 19:20

Na semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, entram em debate questões como desigualdades sociais e profissionais, saúde, filhos, feminismo e outros. No entanto, existe um tema, muito relacionado às mulheres, pouco reconhecido como uma atividade na qual elas têm uma influência predominante: o voluntariado. Dados do projeto Riovoluntário apontam que 78% das pessoas cadastradas em campanhas e projetos de caridade no Rio de Janeiro são mulheres. O portal Voluntários Online também indica a mesma tendência. Por lá, a ala feminina representa 67,7% dos 31 mil cadastrados. Por fim, uma pesquisa do Ibope Inteligência, encomendada pela organização Rede Brasil Voluntário, mostrou que elas são 53% do montante de voluntários no Brasil. A Revista conheceu exemplos de mulheres que, na capital federal, amenizam a dor do próximo, exercendo a solidariedade.


Vó Vick contra o HIV

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O HIV não é uma ameaça apenas a adultos. Deixa também crianças desamparadas, filhas das vítimas do vírus, marcadas para sempre por uma sentença trazida em um exame de sangue positivado. Will perdeu a mãe para as drogas e foi visto pela última vez entregue ao crack em uma praça de Taguatinga. Shirley tinha 5 anos e havia acabado de perder o irmão mais velho, que escolhera morrer a viver com o HIV, quando foi resgatada. Anos depois, perdeu também a mãe doente. Moisés estava debilitado quando recebeu socorro. Mais tarde, foi assassinado pelos pais a pauladas, cansados do fardo dos cuidados que a criança exigia para controlar a doença.

Will, Shirley e Moisés são apenas símbolos de uma luta maior que acompanha Vick Tavares há uma década. Há cinco anos, a estilista abandonou o ateliê e os tecidos para tomar a frente de uma instituição, a Vida Positiva, que acolhe crianças que vivem com o HIV, além de seus parentes. Vó Vick, como é chamada pelos pequenos, não julga nem condena mesmo casos extremos, como o dos pais que ceifaram a vida do próprio filho. Receber notícias assim de policiais é sempre um golpe. Um choro soluçado, uma lembrança da criança alegre que brincava no quintal da instituição. Mas o HIV exige cuidados intensos. Exige higiene. Comprometimento. Exames de sangue mensais. Seis, sete pílulas diariamente e em horários britânicos. Muitas vezes, exige dinheiro. “Existe amor, mas geralmente as famílias são dependentes de crack, de álcool. Mal conseguem cuidar de si mesmas. Como é que vão dar conta de uma criança assim?”, entristece-se a vovó.

O envolvimento de Vick com a Aids começou na década de 1980, quando perdeu um amigo para o vírus. Estava à míngua, sozinho e depressivo. Revoltada com o preconceito e sensibilizada pela situação, a estilista foi bater de porta em porta nos hospitais em busca de pacientes em estado terminal da doença. Era o abraço que lhes faltava quando já não restavam mais família ou amigos por perto. “Com o meu amigo, eu percebi que aquilo era tudo o que eles precisavam. De alguém ao lado deles, segurando sua mão ao fim da vida. Eu fui ser a mão que faltava.” O contato com os filhos da doença veio só depois, quando começou um trabalho voluntário em uma instituição. Foram quatro anos. E, ao mesmo tempo em que as cargas virais dos pequenos começavam a dar folga, Vick percebia que havia encontrado sua verdadeira vocação.

Na instituição que lidera, as crianças chegam encaminhadas pela Vara da Infância e Juventude, na maioria das vezes já desnutridas, debilitadas, com escaras e urgindo socorro. São acolhidas, recebem medicamentos e acompanhamento médico, são matriculadas na escola e ganham alimento fresco. São 17 crianças e adolescentes sob os cuidados da “vó” e dos funcionários da casa, nove ao todo. “Eu não posso adoecer. Se eu adoeço, como ficam as crianças?” Algumas são abrigadas nos quartos — cor de rosa para as meninas, azul para eles —, outros passam o dia com Vick e voltam para as suas famílias à noite. Mas onde quer que vá, ela carrega consigo um pequeno pendurado nos braços. Eles beijam, choramingam carinho, pedem dinheiro para o lanche da escola. Entre uma frase e outra, ela chama a atenção de algum travesso: “Bater não pode”; “Se for passar a tarde na escola me dê notícias o dia todo no celular”; “Esse R$ 1 que você encontrou no chão não era de ninguém mesmo? Olha lá!”.

Se houve um erro, Vick salienta, foi o do amor demais. As pessoas olham torto quando veem o grau de envolvimento com os internos. Um deles virou sua filha de papel passado. Adotou Luiza (nome fictício), de 8 anos, há pouco tempo. Todo mundo, no entanto, é um pouco irmão ali. -------A luta de Vick agora é para evitar que essas crianças um dia voltem ao abandono. Uma lei sancionada em 2009 pelo presidente Lula fixou em dois anos o prazo máximo de permanência de crianças e adolescentes em instituições. Crianças com HIV, no entanto, não costumam figurar entre as primeiras opções das famílias dispostas a adotar. E, sem um lar estruturado, com pais jogados às drogas, à prostituição ou sem condições de acolherem seus filhos de volta, a tendência é que acabem na rua, sem tratamento adequado ou estudos. Enquanto concedia a entrevista, por exemplo, Vick recebeu uma ligação do escritório da instituição. Um ex-abrigado, aparentemente envolvido com drogas, batia à porta pedindo dinheiro para o almoço. Com sorte, não terá o mesmo destino de Will ou de Moisés.

 

Paixão indígena

(foto: Carlos Vieira/CB/D.A.Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A.Press)

Não eram nem 19h da última segunda-feira quando a advogada Damares Alves recebeu uma ligação desesperada. Uma índia suplicava ajuda na rodoviária do Plano Piloto. Carregava a filha de 4 anos em um cesto agarrado às costas. Escondida de sua tribo, esperava que Damares acolhesse a criança, que vivera dentro do cesto desde o dia em que veio ao mundo. Não fosse a coragem da mãe, teria sido morta logo após o nascimento. A tradição de sua tribo, que rege também outras 40 etnias pelo Brasil, a obrigaria a ceifar a vida da menina, por ser filha de mãe solteira. Por causa dos anos escondidas no cesto, mal mexia os bracinhos. Foi recebida e levada para um hospital.

Não foi por acaso que o celular de Damares tocou no dia anterior à entrevista. Quando menina, ela teve o sonho de que trabalharia com crianças indígenas. Seus pais, que acolhiam idosos em casa, sempre a incentivaram a dedicar parte de seu tempo ao próximo. Com a ideia de focar seu trabalho nas tribos brasileiras, escreveu aos 16 anos cartas para instituições nacionais que ofereciam cursos na área de linguística. Recebeu como resposta de todas que seria bem-vinda, desde que bancasse os estudos. Sem dinheiro, colocou o sonho em stand by e foi trabalhar com realidades mais próximas. Ainda adolescente, estava nas ruas ajudando crianças carentes e usuárias de drogas em Aracaju, onde vivia. Dormiu nas ruas, entrou no camburão e desacatou policiais em defesa dos menores. “Eram meninos de essência boa. Precisavam de oportunidades. E eu, na minha inocência, não via o perigo de estar ao lado deles durante a madrugada. Achava que ao meu lado, ninguém os exterminaria.” Anos depois se mudou para São Carlos e lá começou a trabalhar com usuários de drogas de diversas classes sociais, enquanto cursava direito.

Como advogada, recebeu um convite para trabalhar como consultora parlamentar em Brasília. E foi em um dia comum do trabalho que viu entrar cinco homens de terno pela porta do gabinete. Eram os presidentes das cinco instituições de linguística que procurou quando adolescente. Queriam uma intervenção política para manter as equipes de pesquisa dentro das tribos. Daí em diante se apaixonou pela causa. Entrou nas aldeias, deu voz e ouvidos às suas reivindicações. No fim dos anos 1990, levantou junto ao Congresso a questão do infanticídio nas aldeias. A partir daí, se tornou conhecida por salvar crianças que seriam mortas por motivos diversos: gêmeos, deficientes, filhos de mãe solteiras, primogênitas mulheres. É ela a redatora da Lei Muwaji, que visa proteger crianças indígenas rejeitadas pela tribo. O nome é uma homenagem a uma índia Suruwahá que abandonou seu povo para salvar a filha deficiente, com paralisia cerebral.

A filha adotiva da advogada foi resgatada em uma tribo. Quando bebê foi abandonada pela mãe na floresta. Era a terceira filha do casal, que ainda não havia conseguido um filho homem. Foi achada por outra família, que a criou em condições precárias. Aos 6 anos, a menina, que passava os dias ralando mandioca e era proibida de brincar com as outras crianças da tribo, estava desnutrida, desidratada e tinha um problema na arcada dentária que deixava sua boca torta. Damares pediu à família de criação que deixassem levar a menina para que recebesse tratamento adequado. Seis meses depois, vieram buscar a menina e, ao verem-na usando aparelhos ortodônticos, a recusaram. Desde então, ela vive com Damares. Estuda em uma escola pública e faz tudo o que meninas da cidade grande fazem. Os pais, no entanto, querem que ela estude e volte para a casa. Damares concorda. Com a educação que recebeu, ela se tornará uma porta-voz do seu povo.

“Assim como muitas famílias amigas me tornei uma acolhedora porque quando essas crianças chegam para tratamento nem sempre têm onde ficar. Elas estão com o psicológico muito abalado. Se não estivessem aqui, estariam mortas. Provavelmente, enterradas vivas. Luto por essa segunda chance. Pelo direito à vida”, frisa a advogada.

No girar dos ponteiros

(foto: Carlos Vieira/CB/D.A.Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A.Press)

A semana tem 168 horas. Os cinco dias úteis, 120. Mãe de três filhos já crescidos, a assistente social Vanusa Rocha Monteiro Lopes, 60 anos, trabalha 60 horas em cinco dias. Mais as oito horas de sono necessárias para o bom funcionamento do corpo, adicione 40 horas. Em um dia comum, são oito horas trabalhando no Centro de Atenção Psicossocial (CAP) da Secretaria de Saúde na rodoviária. Lá é oferecido tudo o que um dependente químico precisa para mudar de vida: atendimento médico, acompanhamento psicológico, atendimento aos familiares — “os chamados codependentes”, esclarece a assistente social —, oficinas ocupacionais, triagem de dependentes e encaminhamento para comunidades terapêuticas.
Vanusa participa também do projeto Consultório de Rua, no qual sai do posto com alguns profissionais e vai conversar com dependentes químicos, moradores de rua, alcoólatras e prostitutas. “Abordamos essas pessoas, examinamos as necessidades — se houver necessidade de atendimento médico imediato, prestamos socorro na hora e, se preciso, encaminhamos para um hospital —, e colocamos nossos serviços à disposição. Eles precisam saber que estamos lá para ajudar”, conta.

Como o posto atende 24h, ainda há uma escala de plantão que adiciona 20h às 40h obrigatórias do CAP. A rotina é corrida e o trabalho não tem 100% de sucesso ou resultados imediatos para animar. “Há muita reincidência, a dependência química é cruel. E é um serviço difícil, é o dependente que tem que tomar a decisão de ser atendido e sair daquela vida. Se ele não quiser, posso fazer pouco. Mas, quando vemos alguma mudança, o trabalho é supergratificante”, explica Vanusa. A maior parte do tempo da assistente social é, então, direcionada para o outro, para quem precisa de ajuda e tem pouca ou nenhuma condição de mudar a realidade. Descontando o trabalho, as horas de sono e as duas horas semanais do curso de espanhol que frequenta, o que sobram para Vanusa seriam 66 horas por semana para cuidar da família e de si mesma.

Mas no pouco tempo que resta, a assistente social fica à disposição da Sociedade Humanitária Brasileira, onde é presidente. “Sempre fui muito sensível à causa animal, desde criança. Meu pai gostava bastante de bichos e eu aprendi cedo a interagir e me sensibilizar ao abandono”, lembra Vanusa. Segundo ela, a sociedade tende a colocar os animais em último lugar na escala de atenção, e a adesão de voluntários ainda é muito pouca. Há 10 anos, em um passeio pelo Gilberto Salomão, a assistente social encontrou um estande da SHB e quis saber mais. Acabou como voluntária da ONG. Ajudava nas feiras de adoção e no que mais pudesse ser útil.

Ao começar a frequentar o abrigo, se envolveu ainda mais com a causa e, quatro anos depois, se tornou presidente da ONG. Agora, tudo o que acontece na SHB passa pelas suas mãos. “É um volume de ações muito grande. Sei quem visita o abrigo, o que acontece lá com os tratadores, a comida, os tratamentos, sei quem pretende adotar, acompanho os animais, faço o contato com as clínicas que os atendem para tentar descontos, sei o que acontece no setor de finanças, negocio com pet shops para montarmos as feiras semanais de adoção e estou nos eventos”, enumera. A ONG se sustenta com doações, mas a dívida junto às clínicas veterinárias ainda é grande. Para tentar abater o débito, a SHB organiza ainda rifas e bazares e os 10 voluntários que fazem parte se viram como podem. “Vamos administrando, a vida é uma superação a todo instante”, diz a assistente social.

Para encaixar tudo o que tem que fazer nas poucas horas do dia que sobram, o celular de Vanusa fica disponível 24h. E não tem fim de semana ou feriado. O tempo que sobra fica disponível à causa animal. No dia em que a entrevista foi feita, um feriado, a assistente social estava ao telefone conversando com uma das voluntárias. “Qualquer dificuldade que aconteça no abrigo ou em qualquer área da ONG, os voluntários me ligam e eu tento resolver”, conta. Vanusa ainda dá seu jeitinho de visitar o abrigo duas vezes por semana. “Vou para supervisionar, presto atenção no estado físico dos animais, na ração e nos medicamentos, resolvo problemas com os funcionários.”

Na área de proteção animal, é muito comum que os protetores surtem — as pessoas ficam com a carga emocional bem afetada, uma vez que já são sensíveis. “Quando você começa a ajudar, não quer parar mais e acaba ultrapassando os limites, fica descompensado mesmo. Eu tento me trabalhar bastante para não chegar nesse ponto, e acho que tenho uma estrutura emocional bem sólida. Mas é um trabalho diário, não se sabe o dia de amanhã”, pondera.

Sem limites

(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)
(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A.Press)

Na Associação de voluntários do Hospital Universitário de Brasília (AV-HUB), dos 60 participantes ativos, apenas quatro são homens. E é a dedicação quase maternal de cada uma dessas voluntárias que leva conforto para diversos pacientes do hospital. Márcia Bernardes, 57 anos, Glória Sá Vasconcelos, 62, e Sílvia Maria Agostinho, 64, são vozes ativas nos corredores do hospital. Distribuindo sorrisos, histórias de livros infantis, um ombro amigo, suplementos de higiene, próteses mamárias feitas artesanalmente e o que mais esses pacientes necessitarem. Dividem suas vidas com milhares de desconhecidos, com “o coração aberto”, como costumam dizer.

Todas elas têm em comum o exemplo dos pais em ações voluntárias na infância. Na casa onde Sílvia nasceu, nunca se comemoravam as festas tradicionais da família. O Natal, a Páscoa e até mesmo os aniversários das filhas eram celebrados em comunidades carentes. “Minha mãe dizia que eles já tinham muitos motivos para comemorar todos os dias, e que nesses dias especiais, devíamos levar alegria a quem não tinha nada.” Ajudar, então, se tornou parte de sua rotina de infância. Mais velha, começou a ajudar leprosos da cidade de Anápolis, Goiás. Em 1995, Sílvia descobriu um câncer de mama e, depois do tratamento, sua oncologista a convidou para ajudar na confecção de próteses de pano para mulheres mastectomisadas. Ela logo se envolveu no projeto e começou a frequentar o centro de oncologia, buscando dar apoio e instrução para os pacientes de câncer. Desde então, promove pequenos shows de músicas, dias de multirão de beleza e palestras, entre outras ações que preenchem boa parte dos seus dias.

Foi por meio de Sílvia que Márcia conheceu o projeto. Trabalhou por seis anos em campo ajudando os pacientes diretamente e, há 5 anos, ocupa a presidência, se dedicando a parte burocrática da associação. “Essa coisa de ajudar sempre esteve dentro de mim. Lembro de observar minha lavando e passando as roupas, costurando rasgos e pregando botões das roupas que eram doadas para o projeto de caridade que ela tocava junto à igreja. Ela colocava as roupas em saquinhos plásticos, pareciam novas. Era muito capricho e cuidado, e quis trazer isso para minha vida”, lembra Márcia. E foi quando se aposentou que decidiu que dedicaria seu tempo livre ao próximo. Nesses quase 12 anos na ativa, já viveu histórias emocionantes pelo hospital. “Lembro de um menino com o qual me apeguei muito. Era muito carinhoso. Era HIV positivo e foi abandonado pelos pais no hospital. Fazia tudo por ele, tínhamos uma amizade muito grande. Viajei e quando voltei soube que ele tinha falecido. São momentos difíceis desse trabalho, mas vale saber que fizemos a diferença na vida deles”, explica.

Glória, que trabalha diretamente na ala da pediatria, coleciona amizades com as crianças e com seus pais. Certa vez, lia história para uma roda de crianças, quando um enfermeiro a interrompeu. Ele pediu que ela lesse uma história para uma menininha que estava muito depressiva, e não queria sair do quarto para as atividades. “Fui no quarto e comecei a ler para ela. No dia seguinte esse enfermeiro me procurou pelos corredores, afoito, dizendo que ela saiu do quarto hoje perguntando quando eu chegaria para ler mais histórias. Ela teve uma melhora imediata. E meu nome foi parar até no prontuário dela, explicando a mudança do quadro”, recorda.

 

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