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Estado de Minas COMPORTAMENTO

As belas de hoje

Os concursos de miss mudaram ao longo do tempo, mas ainda conservam uma atmosfera mágica que encanta muitas jovens de diferentes origens e formações


postado em 11/03/2012 08:00 / atualizado em 08/03/2012 18:51

(foto: Carlos Vieira/CB/D.A.Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A.Press)
Aos 23 anos, Carolina Matos está com a vida bem encaminhada. Concluiu duas faculdades, é concursada, está namorando. Seus sonhos, contudo, não estarão completos enquanto não conquistar a faixa de miss Taguatinga. A moça leva a história a sério, e revela um novo perfil de concorrente. Nada de O pequeno príncipe ou de discursos pela paz mundial: agora elas veem a passarela como um trampolim para ambições mais elevadas. “Todas as meninas estão nesse mesmo caminho: estudando para se formar, ter um trabalho. Não há nenhuma que não pense na carreira profissional, mas todas têm o sonho de serem eleitas miss”, resume a jovem.

Brasília teve sua primeira miss em 1959, antes mesmo de a cidade ser inaugurada. A maneira como as mulheres são tratadas socialmente mudou de forma drástica nesses mais de 50 anos, mas a vontade de se sentirem belas pouco se alterou. Cloves Nunes, organizador do Miss DF, acredita que, como as festas de debutante e de casamento, os concursos de beleza fazem parte do imaginário feminino. “As cerimônias, mesmo com as tentativas de se modernizarem, não perdem esse lado tradicional. Por mais que as mulheres tenham mudado, continuam com esses sonhos. E participar de um concurso de miss está entre os maiores”, garante.

Nesses eventos, há bem mais em jogo do que sorrisos e pernas à mostra. As candidatas precisam ser boas oradoras, dominar a etiqueta, aprender a se maquiar, a se vestir e a andar de salto alto, e, sobretudo, demonstrar conhecimentos sobre a realidade local. “Essa é uma possibilidade de mostrar quem sou e o que acontece com Taguatinga. Sou eu quem vê todo dia os problemas da cidade e posso usar o poder de miss para alertar sobre eles”, afirma a candidata Glelany Cavalcante, 18 anos.

(foto: Carlos Vieira/CB/D.A.Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A.Press)
Cloves explica que o engajamento da moças impressiona os jurados e tem um papel importante na captação de patrocínios — até porque ele diz não receber nada para organizar o evento. “Tenho até que tirar do meu bolso.” Cloves herdou o posto em 2004. A antiga coordenadora, que vivia em Uberlândia — “Vinha aqui só para ganhar dinheiro e ia embora”, critica ele —, deixou a vencedora daquele ano ao léu, apenas com a passagem para o Miss Brasil em mãos. Desesperada com a aproximação do tradicional pleito, sem que tivesse nada para apresentar, procurou Cloves, que havia sido convidado para cuidar dos looks das candidatas. “Fomos atrás de tudo para que ela fosse ao Rio de Janeiro. Depois, o diretor do Miss Brasil me convidou para cuidar disso aqui e aceitei”, lembra. O evento recobrou o glamour perdido e, hoje, faz parte do calendário da maioria das cidades do DF.

Linha de montagem

Outro ponto que encanta as participantes é a possibilidade de fazer amigas. Nos dias que antecedem o desfile, todas ficam confinadas em um hotel, em ensaios constantes para o grande dia. Cloves Nunes explica que, nesse momento, duas ordens não podem ser quebradas. A primeira é a de vestir todas as meninas com a mesma roupa. “Inclusive o mesmo par de brincos e de sapatos. Assim, nós zeramos as classes sociais e todas elas são apenas mulheres bonitas disputando um prêmio.” A segunda é a de separá-las em quartos pela cidade que representam. Assim, moças de realidades completamente díspares podem trocar confidências e receios de uma forma que poderia jamais acontecer.

“Isso é algo bem diferente do mundo fashion”, diz Glelany Cavalcante, que já foi modelo durante quatro anos. “No concurso de miss, tudo é mais feminino, mais meigo, mais belo. Mantemos contato com diversas pessoas, vemos que existem belezas bem diferentes da nossa. É uma oportunidade para a vida.” A partir do momento em que inscrevem no concurso, todas trilham o mesmo caminho, seja a jovem nascida na Estrutural, seja a que cresceu no Lago Sul.

Foi essa “máquina de lapidar beleza” que fascinou a cineasta Dácia Ibiapina. Durante suas pesquisas na periferia do DF, ela topou com o Concurso Miss Estrutural 2009 e colheu material para o documentário Entorno da beleza (HIPERTEXTO), ainda inédito nas salas de Brasília. “Para mim, que nunca tinha acompanhado de perto uma temporada de concursos de miss, as surpresas foram muitas: a dureza da preparação, o empenho de todas as pessoas envolvidas no processo, a disciplina exigida, o medo de cair ou de perder o salto durante os desfiles”, lembra Dácia.

A cineasta acredita que os concursos de miss sempre terão seu espaço. “Mas, para além dos sonhos de beleza, há outros: cursar uma faculdade, conseguir uma vaga no mercado de trabalho, ajudar a família a ter melhores condições de vida, etc. Esses se misturam e os concursos são um espaço privilegiado onde algumas meninas bonitas projetam seus desejos de ascenção social e de visibilidade”, observa. Já Cloves Nunes diz ver algo diferente: mesmo preocupadas com o futuro profissional, quando resolvem competir, o grande foco delas é serem coroadas. “A maioria delas quer apenas a faixa e a coroa. Se vier carro, faculdade completa, dinheiro, tratamento estético, bacana. Mas querem mesmo é se tornar misses.”

Em uma das cenas mais tocantes de Entorno da beleza, uma candidata a miss Estrutural está de volta a casa, de frente a um churrasquinho, após não ter vencido. Com cabelos presos, bem diferentes dos cachos negros à solta no dia da competição, ela parece voltar à rotina sem arrependimentos, quase de forma indiferente. O espectador fica sem saber que sonhos — além dos que envolviam a passarela — ela cultiva. Mas fica com a certeza que aquele, especificamente, foi importante, e que, para o resto da vida, ela vai se sentir linda.

Texto da Revista Cruzeiro de 1959, anunciando o primeiro Miss Distrito Federal
Eis uma prova de que Brasília alcançará sua maioridade: terá a sua "Miss", "Miss" a 900 metros sôbre o nível do mar, promoção dos Diários Associados. Dois aviões, com 80 pessoas a bordo, decolarão do Rio de Janeiro no dia 22 dêste, rumo ao sonho que JK transforma em cidade, em tempo recorde, em tôdas as épocas. Mais de 20 candidatas dos Estados e mais outras tantas concorrerão ao neotítulo "Miss" Brasília modêlo 59, Primeira e Única. O corpo de jurados será composto por experts cariocas e brasilienses. Eles viajarão na sexta-feira, e já no sábado, sob o sol de Brasília, haverá o desfile de maiô (16h), na piscina do Palace Hotel, que receberá mergulhos inaugurais. Às 9 da noite do mesmo dia haverá o desfile a rigor, depois realmente um grande baile, seguido de sonoro reparador, sem ruídos,o sono do planalto goiano. "Miss" Brasília permanecerá mais alguns dias no futuro DF, para melhor conhecer as peculiaridades do seu jovem reino.

Leia a íntegra da matéria na edição impressa e saiba sobre os preparativos para o concurso de Miss Decifiente Visual do Distrito Federal

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