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Estado de Minas COMPORTAMENTO

Espelho, espelho meu..

Pesquisas feitas na Inglaterra e no Brasil tentam dimensionar o tamanho da vaidade feminina. Acordar com os fios do cabelo rebeldes, por exemplo, pode significar um dia inteiro de mau humor


postado em 10/06/2012 08:00 / atualizado em 01/06/2012 20:51








Legenda:
Renata Monteiro gasta toda manhã uma média de 30 minutos para cuidar da maquiagem e do cabelo


Toda mulher já acordou naquele dia em que nada parece certo. Cabelo sem jeito, olheiras profundas e uma espinha enorme no meio da testa acabam com o dia de qualquer pessoa. Pesquisa divulgada em março pelo jornal britânico Daily Mail afirma que, em uma vida de 63 anos, 26 deles são gastos se preocupando com os fios que acordaram rebeldes — considerando pelo menos uma hora e meia de raiva, três dias por semana. O estudo ainda aponta que 12% das duas mil entrevistadas descarregam a frustração no companheiro, enquanto 14% despejam tudo nos filhos. Para compensar o cabelo difícil, 8% capricham na maquiagem e 13% resolvem o problema com um chapéu. Em contrapartida, ao acordar com o cabelo bonito, 67% das entrevistadas têm um dia muito melhor do que os normais.
A relação das mulheres com a maquiagem também é bastante estudada. Uma pesquisa para a feira Vitality Show, ocorrida em março na Inglaterra, constatou que mais da metade das três mil entrevistadas disse se sentir à vontade de cara lavada em frente aos familiares e aos amigos. Mas 70% não gostariam de serem vistas pelos colegas de trabalho sem maquiagem; 91% cancelariam um primeiro encontro se não pudessem se arrumar e 16,6% nem atenderiam a porta sem passar algum cosmético no rosto. A pesquisa afirma também que uma mulher vaidosa gasta cerca de 21 minutos por manhã preparando o rosto para um dia de trabalho.
As duas pesquisas foram feitas com britânicas, mas no Brasil a necessidade de estar bonita pode ser ainda mais forte, uma vez que o país ocupa o segundo lugar mundial em número de cirurgias plásticas e é o terceiro que mais consome cosméticos. “É algo cultural. A mulher brasileira se cuida muito e o poder aquisitivo cresceu bastante nos últimos anos”, avalia a pesquisadora Amalia Pérez, que estuda a vaidade e descobriu que, ao contrário do senso comum, as mulheres costumam se arrumar para satisfação pessoal ou para serem reconhecidas na sociedade. “As pessoas se arrumam para mostrar aos outros que estão bem. É algo de fora para dentro. Isso, porém, não implica necessariamente que aqueles que não se cuidam não estão saudáveis por dentro. Só começa a ser preocupante quando a pessoa que sempre se arrumou para de repente”, explica Amalia. O que normalmente se pensa é que as mulheres se cuidam para os outros, mas o número de pessoas que querem se transformar em um troféu para o companheiro e ficam horas na frente do espelho é menor do que aquelas que o fazem para si mesmas.
A pesquisadora Amalia Pérez falou com brasilienses vaidosas, outras que não se consideram ligadas em beleza, além de profissionais que trabalham com o assunto. E fez algumas descobertas interessantes. Por exemplo, a questão da idade não interfere na vaidade — as mulheres mais velhas se cuidam tanto quanto as jovens, e esse fenômeno é bem ligado ao costume que a pessoa incorporou durante a vida — e o fato de se cuidar não interfere na autoestima. “Curiosamente, esperávamos que as mulheres vaidosas se achariam muito bonitas ou horrorosas. Mas, para as nossas entrevistadas, aparentemente, a frequência com que vão ao salão de beleza não tem relação alguma com a autoestima”, conta Amalia.
Mas para a psicóloga Ciomara Schneider, a relação da mulher com a beleza tem, sim, raízes na autoestima. “Uma pessoa em quadro depressivo não se importa se o cabelo está bagunçado ou se o rosto está cheio de espinhas, ao passo que outras pessoas costumam compensar nos cosméticos as frustrações do dia a dia, e acabam exagerando para tentar chamar atenção e ganhar a aprovação dos colegas”, explica. Segundo Ciomara, uma das características principais da personalidade das mulheres é a necessidade de se sentir amada, enquanto os homens visam prestígio e poder.
Segundo Ciomara, com todas as pressões do dia a dia —incluindo as propagandas com mulheres perfeitas —, algumas mulheres não aguentam e começam a compensar a carência afetiva e os problemas em uma maquiagem bem caprichada, que esconda o que está realmente acontecendo. “Querer sair bonita e bem arrumada é normal e positivo. Só quando se torna exagerado é que pode estar escondendo um problema”, afirma a psicóloga.
Essa preocupação com a beleza, além de estar começando cada vez mais cedo, é cultural. “Para os meninos, o sonho de criança é ser jogador de futebol e ganhar muito dinheiro. Já para as meninas, a vontade é ser modelo, alta, magra e bonita. Leva tempo para construir a inteligência, mas quatro horas no salão deixam qualquer mulher maravilhosa. É espantoso, porque é isso que nossa sociedade vem valorizando. Somos os americanos de ontem”, afirma a pesquisadora Amalia. Para a psicóloga Ciomara, a criança muito vaidosa é, normalmente, influenciada pelos pais, e essa necessidade de se sentir bonita pode ser perigosa se ela se sentir fora do padrão de beleza e não se aceitar. “Hoje existem meninas de 7 anos que querem fazer química nos cabelos. É aí que deve entrar o controle dos pais.”, acredita Ciomara.

Tempo bem gasto
Mas é claro que se arrumar é prazeroso e, para a maioria das mulheres, a rotina de beleza se tornou um momento de esquecer a vida agitada e cuidar de si mesma. A nutricionista Renata Monteiro, 34 anos, se considera bastante vaidosa. Todos os dias, sai de casa às 5h30 da manhã para a academia — sem se esquecer de aplicar o protetor solar — e depois do banho, dá início à sessão diária de maquiagem. Pelo menos meia hora é gasta para manter tudo no lugar. Hidratante, filtro solar, pó compacto, blush, sombra, delineador e rímel fazem parte do pacote diário.
Sobre o bad hair day, Renata conta que já está acostumada e nem gasta mais seu tempo se estressando muito com os fios — o cabelo acorda rebelde todos os dias. “O cabelo é um capítulo à parte. Como é cacheado, sempre acorda ruim e de acordo com o clima. O jeito é lavar e passar dois ou três tipos de cremes”, ensina a nutricionista. Ela afirma que se cuida para se sentir bem e não para os outros. “Se acordo meio triste, fico feliz enquanto me arrumo.”

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