Revista

Por que elas preferem os cafajestes?

Fantasia? Vontade de se afirmar? Nem elas entendem. Em compensação, eles sabem muito bem o que fazem...

postado em 01/07/2012 08:00

Fantasia? Vontade de se afirmar? Nem elas entendem. Em compensação, eles sabem muito bem o que fazem...Cadinho é rico, bem-sucedido, bem-vestido, carismático e com um ar que conquista qualquer pessoa. Com sua lábia ; e, por que não, fôlego ;, consegue manter três relacionamentos ao mesmo tempo, sendo um bom marido para as suas três mulheres. O personagem, interpretado pelo ator Alexandre Borges na novela das 21h, Avenida Brasil, ressuscitou um modelo de cafajeste bem comum na dramaturgia: aquele que ama as suas mulheres sem fazer mal a elas e, mais que isso, com o desejo de ficar com todas. Com um je ne sais quoi típico do Don Juan, Cadinho vem provando o que muitas mulheres sabem: é quase impossível resistir ao charme desses homens. O cafajeste não é apenas bem explorado pela dramaturgia. Ele existe e parece manter seu reinado, não importa o quanto a evolução dos relacionamentos coloque os sexos, cada vez mais, em pé de igualdade.

Só que, diferentemente do que acontecia antes, muitas delas sabem com que tipo de homem estão se envolvendo. Donas do próprio corpo, elas se deixam levar pelo poder conquistador desses Romeus self-service, mesmo não podendo ter a certeza de que sairão ilesas. ;Foi com ele meu primeiro beijo e, há 15 anos, não importa o que aconteça, sempre que nos encontramos, ficamos juntos;, afirma a advogada Danielle Cassiano, 28 anos. Seu envolvimento pseudo-amoroso com o seu cafajeste nunca lhe rendeu danos sentimentais. Isso porque, desde cedo, ela fez questão de dizer para si mesma ; com a ajuda das análises das amigas ; que aquele rapaz era ótimo para tudo, menos para um relacionamento sério.

;Esse meu é cafajeste mesmo, daqueles galinhas que pegam geral. Ele pode estar namorando, mas a gente se encontra. Eu sei que ele não vale um centavo e que jamais iremos namorar, mas não resisto. Ele tem algo diferente, que o torna irresistível;, garante a advogada. Para o psicólogo Frederico Mattos, que escreve sobre relacionamentos nos sites Sobre a vida e Papo de homem, o desprendimento do homem taxado como cafajeste com um relacionamento sério o faz focar mais em seu prazer. Essa ousadia, segundo ele, é capaz de conquistar a mulher, muito mais do que seu desempenho sexual.

O psicólogo diz que muitos deles chegam a treinar a arte de transar casualmente e, dessa forma, rompem facilmente o constrangimento da primeira relação sexual, deixando mais à vontade aquela mulher, encantada pela conquista do homem desejado. ;Ou seja, é um misto de fantasia com desempenho mediano, que cria a ideia de alta performance. Na cabeça delas, é inegável que ele é fantástico, mas muitos cafajestes convictos já me confessaram que se assustaram com a mulherada achando que a transa foi fenomenal, mesmo ele tendo feito só a parte dele e dormido.;

Fantasia? Vontade de se afirmar? Nem elas entendem. Em compensação, eles sabem muito bem o que fazem...Há, claro, diferenças entre o cafajeste e o mau-caráter. A distinção, porém, pode ser singela no início desses arremedos de relacionamento. Autores do blog Manual do cafajeste (para mulheres), Cafa Campeiro e Cafa Praieiro (sim, eles usam pseudônimos) garantem que o que muda é a forma de encarar as mulheres. ;Um mau-caráter, depois que fica com uma garota, sai tirando vantagem e destratando-a. Considera a mulher um objeto descartável. O cafajeste é apaixonado por mulheres... no plural mesmo;, diz Campeiro. Praieiro explica que uma boa forma de notar a disparidade entre os dois é avaliar a forma como fazem elogios. ;Um mau-caráter é todo desajeitado para elogiar uma mulher. Já o cafajeste sempre faz isso com naturalidade.;

A publicitária Ana Dias, 31 anos, sabe bem o quanto qualquer absurdo pode soar uma verdade canônica quando sai da boca de um cafajeste. Principalmente quando o dito-cujo é, realmente, bom de cama. ;Ele me controlava com sexo. Era nessa hora que pedia as coisas mais bizarras, como me convencer de que meu pai devia pagar nosso aluguel, que a gente devia abrir o relacionamento, etc. Todas nossas brigas se resolviam com sexo e eu caía bonita, porque gostava, né?;, lembra, contando os detalhes do caso que durou dois anos. Ana afirma que, até mesmo quando as puladas de cerca davam errado, ele dava um jeito de envolvê-la.

;Uma vez, ele foi num desses festivais de música eletrônica e eu não estava muito a fim, então, deixei que fosse na condição de solteiro. Acordo no outro dia, seis da manhã, com ele completamente louco, me pedindo para ir até a sala convencer a menina que ele tinha trazido pra casa a ficar com ele. Olha o trampo.; Quando era a vez de Ana sair solteira, nada. O rapaz não queria dividir seu amor com ninguém. Para a publicitária, sua pouca experiência ; ela tinha 21 anos à época ; foi uma das maiores razões para que demorasse tanto para se dar conta que não era saudável continuar naquela situação. Tanto que foi ele quem decidiu dar fim ao relacionamento, deixando-a sem namorado, sem casa e, como ela mesmo diz, sem um pingo de amor próprio.

;O cafajeste sabe do que a mulher precisa. Toda mulher necessita ser bem tratada, receber elogios, ligações inesperadas e de alguém que se preocupe com as coisas simples de sua vida que ninguém mais dá atenção;, explica o cafajeste Praieiro. Os alertas das amigas, segundo ele, sempre envolvem um ;Ah, ele é maravilhoso, mas não vale nada;, algo que causa até mais curiosidade na mulher em saber se o cara é, de fato, tudo isso mesmo.

Muitas mulheres cobiçam aquele tipo de homem intocável e visto como ;galinha; e querem dobrá-lo para provar para si mesmas que são boas na cama ou que têm personalidade forte. ;Só alguém que sonha além do normal pode se deixar influenciar pela ideia de que vai sugestionar um homem volúvel a se manter firme numa relação duradoura;, assegura o psicólogo Frederico Mattos.

A partir das leitoras do blog, Campeiro, do Manual do cafajeste (para mulheres), garante que as mais vulneráveis à lábia cafajeste são as mulheres competitivas e cheias de si, pois tendem a encará-los como um desafio. ;O talento deles não afeta todas;, alivia. Para o seu companheiro de escrita, Praieiro, ao contrário da imagem que passam, as competitivas tendem a ser mais carentes, o que as torna um prato fácil para essa estirpe masculina. ;As mulheres que admitem suas fraquezas e, principalmente, as diferenças entre os homens e as mulheres em relação ao sexo e ao envolvimento não caem tão facilmente;, completa. Mesmo assim, muitas creem que eles são uma experiência necessária.

A advogada Danielle Cassiano acredita que basta se apaixonar para que não precise mais recorrer ao seu cafajeste de estimação. Para a advogada, esse tipo de comportamento é algo que não muda, especialmente naqueles que tiveram uma educação machista, voltada à crença de que mulheres são colecionáveis. ;Acho que há uma possibilidade bem pequena de que um cafajeste possa encontrar amor de verdade. Mas, para nós, a vantagem é que conseguimos diferenciar o errado do correto. Enquanto isso, sigo sem resistir ao meu;, brinca.

Ana admite que tenta, ao máximo, se manter longe do seu cafajeste. Apesar de se lembrar em detalhes de todos os dramas que ele causou em sua vida, ainda sabe bem o quanto ele é atraente. ;A impressão final que tenho é que sofri pra caramba na mão desse cara. Mas, se eu tivesse um pingo a menos de dignidade e ele me chamasse, assim, numa terça chuvosa, com táxi na porta para ir lá ficar com ele, perderia alguns segundos considerando. Ah, perderia.;

Os homens das nossas amigas
Fantasia? Vontade de se afirmar? Nem elas entendem. Em compensação, eles sabem muito bem o que fazem...Jornalista e escritor, Joaquim Ferreira dos Santos tem muitas amigas. E, delas, ouve histórias constantemente. Resolveu transformá-las em um livro ; Minhas Amigas, da Editora Objetiva ; com pequenos contos cotidianos que podem ser de qualquer mulher. E, claro, vários deles começam por causa de homens. À Revista, ele respondeu três perguntas sobre os cafajestes que habitam os ;causos; das suas amigas e liberou um dos contos para os leitores.

1. O quanto os homens, direta ou indiretamente, foram o tema que iniciou as histórias que originaram as crônicas inspiradas nas suas amigas?
Minhas amigas é um livro totalmente macho, sem se vangloriar de tal. É um olhar masculino, sem cafajestice, suponho, sobre as mulheres que passaram por minha vida. Não tenho feito outra coisa, além de fechar milhares de colunas, além de observá-las, caminhando, conversando, fazendo todos os encantos que são comum à espécie. É o livro de um admirador, que admira a maneira que elas têm de se expor. Homens só contam lorotas, todos príncipes, nunca levaram porradas. Elas confessam fracassos, ridículos e sonhos impossíveis. O livro parte disso, o olhar embevecido de um homem pela graça, quase loucura, com que elas se movem.

2. Num dos contos, você conta a história de uma amiga que só se envolve com ;os mais lamentáveis malandros;. Para você, o que define, então, um cafajeste atualmente?
Nada contra os cafajestes. Alguns são divertidos e, em alguns momentos da vida, uma mulher não quer nada além disso, uma boa cafajestagem. Cafajeste é o que mente, trai. As ;minhas amigas" sabem identificar um cafajeste, caem na tentação de experimentar essa caricatura do macho, e algumas se divertem com suas estripolias. O problema é o canalha. O canalha a humilha, é perverso, pois chegou sem se apresentar. O cafajeste tá na cara, vai quem quer.

3. O cafajeste também pode ser considerado um conhecedor da alma feminina? Por quê?
O cafajeste clássico, tipo Baby Pignatari, Ronaldo Bôscoli, é um craque na apreensão da mulher e seus desejos. É aí que ele se dá bem. Não oferece platitudes, não cita Drummond nem Bandeira. Ele brinca com os esterótipos do jogo homem-mulher, encena o jogo da sedução, coloca as armadilhas mais óbvias e coloca a mulher como a deusa maior da civilização. É uma programação para maiores de 30 anos. Há ingredientes de sexo, dominação e muito humor. Hoje, há a versão feminina também, da mulher que seduz pelo jogo, que brinca com os estereótipos e, depois de saciada com a conquista, parte para outra. Eu tenho uma amiga que é assim. Irresistível.

Um dos contos do livro Minhas amigas
Eu tenho uma amiga de olhos escuros e pele suave, talvez a mais bonita de todas, que põe a vida amorosa na contramão da sua elegância intrínseca. Só namora os mais lamentáveis malandros. Sofre. A cada fim de caso diz que entendeu por onde falha o seu GPS sentimental e jura não pegar mais os atalhos machos que ele oferece ; até que na semana seguinte, no próximo bar de sexta à noite, lá está ela sendo puxada pelos cabelos. Ri sem jeito, canta junto o samba que estiver tocando e beija a boca do cafa. Ninguém tem nada com isso. No último aniversário, eu fiz o fino. Dei de presente A educação sentimental, de Flaubert, e deixei que a literatura fizesse efeito. Até agora, nada. Acho que ainda não leu.

A qualquer sinal de paixão por um cafajeste, fuja!
Fantasia? Vontade de se afirmar? Nem elas entendem. Em compensação, eles sabem muito bem o que fazem...Se há algo que Vanessa de Oliveira entende é homem. Antes de se tornar escritora, ela havia sido garota de programa e, por conta dessa experiência ; suas contas chegam a 5 mil programas ;, pôde provar todos os ;modelos de macho; disponíveis. Em seu último livro, ela fala sobre o que considera o mais perigoso dele, o psicopata do coração. ;Eles são como vírus que se alastram pela vida da mulher e têm intenção de fazer mal. Minam a vida aos poucos;, explica. Para ela, o egoísmo é o ponto que une os psicopatas aos cafajestes, com a diferença que o segundo não é mau por natureza. ;Não se formam cafajestes da noite para o dia. Eles vão criando rotinas de conquista, sendo menos espontâneo. O problema é que as mulheres não dão atenção ao homens mais espontâneos;, reclama.

Vanessa explica que a frase típica do cafajeste é ;Você está ficando louca; e só é dita quando, ironicamente, a mulher está em seu momento mais lúcido na relação. Ou seja, quando o desmascara. ;Ele tende a se fazer de vítima, se valendo do lado emocional da mulher, que, se deixar, vai encontrar justificativas para manter o relacionamento.; Ela sabe do poder da lábia de um cafajeste e afirma que é possível aproveitar o que ele tem de bom sem se envolver. ;Porém, a qualquer sinal de paixão, fuja! Porque, se ela existe, também existirá a esperança de que ele vai mudar. E isso dificilmente acontece. Se não, goze enquanto procura um amor;, brinca. A autora definiu os tipos de cafajestes para a Revista, e definiu quem é o psicopata.

Tipos de cafajestes, segundo Vanessa de Oliveira.
O cafa leve ; Ele se acostumou a trair da mesma forma como os outros de diferentes graus. Esse traidor não chega a ser um homem sem caráter e nem mesmo um psicopata, o fato é que ele é um cara fraco. E, apesar de ser infiel à companheira, é leal a ela. Ele não quer o mau de sua mulher ou namorada, apenas está querendo se dar bem. Na maioria das vezes, esse tipo de traidor vai na onda dos amigos e, quando trai, preocupa-se em ser discreto. Ele, por exemplo, vai até uma outra cidade, onde ninguém vai nem sonhar que ele irá sair com alguém, e contrata uma garota de programa. Ele não trai de forma compulsiva nem é um caçador diário de mulheres. Faz isso de vez em quando para se sentir ;vivo; e ;mais homem;. Preserva a família e não quer, sob hipótese alguma, que alguém saiba porque, no fundo, não quer ferir ninguém nem tampouco decepcionar as pessoas à sua volta.

O cafa compulsivo ; Esse traidor é, sim, um sujeito mau-caráter. Além de infiel, ele é desleal a quem está com ele. Não se preocupa em preservar a pessoa com quem tem um relacionamento e muitas das traições são, inclusive, com pessoas que estão perto dele e de sua família. O traidor de grau 2 está quase sempre paquerando ou flertando, e as pessoas com quem ele sai pertencem ao seu circulo do dia a dia. Ele fica com a amiga da mulher, com a funcionária da loja, com a secretária, com a vizinha, com aquela prima de segundo grau e fica também com outras pessoas de lugares longínquos. Ele não se importa em fazer isso bem debaixo do nariz da companheira e de outras pessoas. É tão acostumado a trair que nem fica nervoso quando o faz. Além do mais, acha interessante o fato de estar traindo com pessoas que se conhecem sem que elas saibam ; ou que pelo menos uma delas não saiba. Esse homem é cheio de artimanhas e, geralmente, um cara descolado. Gosta de parecer esperto aos outros que estão à sua volta, por isso não se preocupa tanto assim em ser extremamente discreto. É como se quisesse ter a fama de ;pegador;. Ele não deixa a verdade toda à mostra, mas também não chega a escondê-la, porém, faz de uma forma que nada se prova ; apenas as suspeitas vigoram. Não é considerado psicopata do coração porque não tem por objetivo o sofrimento alheio, apenas o seu engrandecimento pessoal.

O psicopata do coração ; É mau-caráter, infiel, desleal, maldoso e extremamente cínico. Esse homem não foi acostumado a ser assim. Nasceu assim. Faz parte da natureza dele trair, enganar, iludir, mentir, usurpar, pisar, magoar e humilhar. Ele se diverte com isso e se sente mais inteligente do que outras pessoas quando consegue enganar todos a sua volta. Alimenta-se da luz de suas vítimas. Digo vítimas porque um psicopata do coração nunca tem uma mulher, uma namorada ou uma companheira, todas elas na verdade não passam de suas vítimas. Não faz nenhum tipo de seleção e, no fundo, toda mulher para ele é igual. Está sempre procurando por uma nova caça e basta desejar um determinado alvo que vai em busca dele. Para esse tipo de traidor, o fim justifica os meios pelos quais ele agirá. Não lhe interessa se vai iludir para depois se desfazer da pessoa quando outra caça surgir à sua frente. Não se importa em machucar pessoas, ele apenas quer que seu desejo seja realizado imediatamente. Sente-se bem quando percebe que alguém está sofrendo por ele.

Na ficção
Eles são irresistíveis. E quando partem para as telas, conseguem criar ainda mais ilusões nas mulheres. Relembre alguns dos cafajestes mais famosos da televisão.

Jorge Tadeu
Na novela Pedra sobre pedra (1992), o fotógrafo interpretado pelo cantor Fábio Jr. chega à cidade de Resplendor e causa um alvoroço entre as mulheres casadas, mesmo após a sua morte.

Alfie
No filme Alfie ; O sedutor (2004), o ator Jude Law é um britânico que esbanja charme e vai a Nova York disposto a colecionar o maior número de americanas possível para sua lista de conquistas.

Mr. Big
Entre 1998 e 2004, os fãs do seriado Sex and the city sempre quiseram saber quem era o famoso Mr. Big (Chris Noth), o amor eterno da protagonista Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker). Entre as idas e vindas do relacionamento, só no último episódio é que o nome dele era visto no celular dela.

Barney
Há poucos personagens que têm mais orgulho da sua condição cafajeste do que Barnet Stinson (Neil Patrick Harris). No seriado How I met your mother, ele está sempre à caça e não tem pudor algum de dar em cima de todas as mulheres ao seu redor.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação