O fato é que, se antes a fotografia era restrita a poucos, hoje o mundo se rendeu a cliques e flashes do cotidiano. O Brasil já se tornou o quarto maior consumidor do mundo de câmeras digitais, segundo pesquisa da fábrica japonesa Canon. Não à toa, uma das gigantes do mercado disse, em junho passado, que abrirá uma fábrica na Zona Franca de Manaus. A única sede da marca fora de território asiático deve concorrer com outros peixes grandes que investem no país. A Nikon é um desses ; outra empresa japonesa que abriu uma sede no país em abril do ano passado.
Os smartphones também têm parte na disseminação dessa febre pelo registro diário e instantâneo. A cada minuto, 29 smartphones são vendidos no Brasil. A estimativa é da empresa de pesquisa IDC, que calculou 15,4 milhões de aparelhos vendidos até o fim do ano. Outra vantagem é que, recentemente, os smartphones também puderam participar da maior rede social de fotos do mundo. Há dois meses, o Instagram deixou de ser um aplicativo exclusivo da Apple para ganhar usuários de outros celulares inteligentes. De acordo com dados da própria rede, antes dos usuários de Androids ; sistema operacional de smartphones que não são da Apple ; participarem do Instagram, eram 30 milhões de usuários. Depois que eles entraram, o número passou para 50 milhões e, a cada semana, 5 milhões querem compartilhar fotos e ;curtir; os registros de amigos e pessoas de todo o mundo.
Para os usuários da rede, o barato de fotografar no Instagram é poder experimentar efeitos visuais que nada mais são que antigos recursos de câmeras analógicas. Artigo vintage, as analógicas se tornaram referência para que aplicativos como o Instagram ;copiassem; os efeitos de Polaroids, Laikas ou Lomos ; câmeras consagradas de décadas passadas. Para o professor da Faculdade de Comunicação da UnB Marcelo Feijó, essa é uma grande qualidade do aplicativo. ;Ele arejou a linguagem fotográfica. De certa forma, e paradoxalmente, esse aplicativo agregou à fotografia contemporânea o passado, graças à possibilidade de experimentação de lentes. Você fotografa à moda de antigamente, chamando atenção para como a fotografia era feita há anos;, observa o fotógrafo.
Luiz Humberto Pereira Martins, decano da UnB, e um dos fotógrafos mais importantes do Brasil, faz parte da geração do analógico e observa esse movimento veloz da fotografia e da disseminação de imagens com certa perplexidade. ;Acho que um lado bom desse momento está no ato de fotografar como um exercício contínuo. Só que não é bem assim: as pessoas vão fotografando de forma muito caótica e maluca, sem o menor cuidado, sem pensar na fotografia antes de fazê-la. Acredito que vivemos um momento de muita rapidez, de pouca permanência e reflexão;, pondera.
Para o bem ou para o ;caos;, o fato é que a fotografia em seus diferentes suportes está na mão de mais pessoas de diferente culturas e classes sociais. Todas registrando a sociedade e suas nuances em tempo real. Isso porque a imagem prevalece como linguagem universal. Professor do curso de pós-graduação em marketing e comunicação digital do Centro Universitário Iesb, Marcelo Tognozzi arrisca um palpite. ;Não consigo imaginar textos prevalecendo sobre fotos. Creio que a internet tende a ficar cada vez mais visual. Até o Twitter, que no início era só texto curto, abriu espaço para as fotos. O Facebook já tem um serviço de mensagem que funciona com vídeo em vez de textos. Portanto, não vejo outro futuro que não esteja ligado à imagem e ao compartilhamento cada vez maior.;
Compartilhar ou não?
Esse tipo de ações piratas acontece porque, segundo o professor Marcelo Tognozzi, estamos na era do compartilhamento. ;Quando alguém faz parte de uma rede social e torna público ; ou melhor, compartilha ; dados sobre trabalho, interesses e família, de certa forma está abrindo mão da sua privacidade em relação a esses dados;, destaca.
Essa superexposição mostra que o conceito de privacidade mudou de uma década para cá, quando as redes sociais ainda não tinham o mesmo alcance. O Facebook, que desbancou a popularidade do Orkut, já soma 800 milhões de usuários, segundo dados publicados no respeitado site de tecnologia Mashable. Desse total, 50% entra na rede social todos os dias para conferir imagens, vídeos e textos. Só de fotos, são 250 milhões inseridas diariamente. O reflexo não podia ser outro: cada vez mais os chefes sabem o que o empregado faz no tempo livre, o marido descobre flertes da esposa, os amigos se dão conta de que não foram convidados para a mesma festa e a lista de mal entendidos não para por aí.
;Nos Estados Unidos, por exemplo, há cinco, 10 anos, quando alguém queria cair na gandaia total, tomar um porre, fumar todos os cigarros e transar sem restrições ia para Las Vegas. Hoje, o que acontece em Las Vegas está no Facebook, no Twitter, no Flickr, no You Tube, etc. Essa transparência acaba afetando a vida das pessoas em relação à questão da privacidade. Mas, o que é compartilhado pode ser considerado privado? Privado, hoje em dia, é aquilo que não é compartilhado nem está disponível em celulares, tablets, laptops, micros, entre outros;, define Tognozzi. No fim das contas, a disseminação da fotografia em diversos meios ainda não encontrou o caminho que o especialista denomina de bom senso.
Leia a íntegra desta matéria na edição n; 374 da Revista do Correio