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Estado de Minas MEDICINA

O perigo de não dormir

Não pregar os olhos durante a noite traz inúmeros problemas, desde baixa imunidade até acidentes de trabalho


postado em 29/07/2012 08:00 / atualizado em 27/07/2012 12:39

Os efeitos de uma noite mal dormida ou mesmo em claro ficam, literalmente, estampados na cara. Além das olheiras, o ar cansado de quem está com os pensamentos inquietos é apenas algumas das consequências do martírio noturno. A insônia, contudo, tem efeitos menos aparentes e bem mais perigosos do que apenas cansaço no dia seguinte. Segundo especialistas, quem sofre com a dificuldade para dormir está mais propenso a desenvolver diversos problemas de saúde, como distúrbios respiratórios, fibromialgia e doenças ligadas à tireoide. Não dormir também está associado a questões econômicas e mesmo de segurança pública. O insone produz menos no trabalho e os motoristas sonolentos representam um perigo nas estradas e nas vias urbanas.

Muitas vezes menosprezada, a insônia costuma ser encarada como simples consequência de dias difíceis ou resultado de preocupações futuras. Acreditar nisso, porém, é minimizar a questão, que merece mais cuidado. O problema virou foco da atenção de médicos e especialistas e está no centro das rodas de discussão científica atuais. Em junho deste ano, cientistas e pesquisadores do mundo inteiro reuniram-se em Boston, nos Estados Unidos, para a Sleep 2012, conferência mais importante e respeitada sobre o tema.

A preocupação não é injustificada. Segundo dados da Associated Professional Sleep Societies (Associação Profissional das Sociedades do Sono), entidade que realiza pesquisas relacionadas ao sono em todo o mundo, a insônia faz parte da rotina de 10,2% a 40% da população mundial. A mesma pesquisa reforça que o ritmo frenético de cidades movimentadas, como São Paulo, se reflete nos hábitos noturnos dos moradores. Na capital paulista, por exemplo, a taxa de insones atinge cerca de 45% das pessoas.

O sinal de alerta, de acordo com os critérios adotados pela Associação Brasileira do Sono (ABS), é dado quando a dificuldade para pregar os olhos à noite persiste por pelo menos três vezes por semana, durante o período de um mês. Como resultado, toda e qualquer atividade fica comprometida, inclusive, as tarefas profissionais. Luciano Ribeiro Pinto Junior, neurologista do Instituto do Sono de São Paulo, explica que isso acontece porque o sono, em quantidade e qualidade insuficientes, reduz a capacidade de manter a atenção durante o dia. “Para cada 24 horas que a pessoa passa sem dormir, há um declínio linear, de cerca de 25%, no desempenho de tarefas que requerem atenção.”

O médico salienta ainda que a insônia não tem apenas uma causa. É preciso levar em consideração fatores psicológicos, cognitivos, sociais, biológicos, comportamentais e até mesmo genéticos que podem desencadear o quadro. “O indivíduo que não dorme pode estar sofrendo por causa de uma briga com o namorado(a), mas também porque toma medicações que interferem no sono ou porque tem problemas psiquiátricos”, exemplifica. Há ainda a predisposição genética ou costumes que atrapalham as horas de descanso, como assistir à televisão momentos antes de ir para a cama. “Jovens têm mais dificuldades de dormir por causa do contexto em que vivem, especialmente por causa da tecnologia,” considera. Asma, doenças pulmonares, tabagismo e hipertensão também funcionam como um despertador pessoal.

Noite sem dormir significa dia seguinte difícil na certa. “Quem dorme pouco ou mal adoece, emburrece, envelhece e não emagrece”, lista Luciano Ribeiro. Os que convivem com a insônia ainda enfrentam mais problemas no ambiente de trabalho do que os bocejos ocasionais. Alterações sensoriais, como diminuição do campo visual e ilusões de ótica; fala lentificada e com pouca entonação; além de uma capacidade questionável para tomar decisões são consequências, no mínimo, suficientes para transformar o expediente em um inferno. O médico explica que funções cerebrais que envolvem flexibilidade, originalidade do pensamento, planejamento e fluência verbal se deterioram com a privação de sono. Em outras palavras, é como se o cérebro esquecesse de algumas palavras momentaneamente, o que exigiria mais esforço e o aumento na entonação da voz para articulá-las.

Não dormir custa caro
Para o empregador, os prejuízos aparecem de todos os lados. Além da produtividade comprometida, funcionários que não dormem bem correm 700% mais riscos de sofrerem acidentes de trabalho, como afirma a Fundação Nacional do Sono (Fundasono). Desconcentrado, o indivíduo pode colocar em risco a própria integridade física. Dependendo da gravidade do acidente, o resultado pode ser um dedo decepado e até a morte. E não são poucos os que batem o ponto com sono: ainda de acordo com a entidade, a insônia crônica atinge mais de 10% dos trabalhadores. Cerca de 15% a 20% deles apresentam um ou mais transtornos do sono, mesmo que mais brandos.

Geraldo Rizzo, neurologista e especialista em sono de Porto Alegre, diz que as empresas têm 60% mais gastos com a saúde dos funcionários insones. “Um estudo americano analisou mais de 7 mil trabalhadores e descobriu que os custos relacionados ao problema custam de US$ 15 bilhões a US$ 90 bilhões ao bolso do empresário”, completa. Ainda de acordo com a Fundasono, a abstenção profissional entre insones é de 2,8 vezes maior do que entre os que dormem normalmente. Eles também precisam de mais consultas médicas, hospitalizações e consomem mais medicamentos.

Se não faltam, os empregados que passam noites em claro vão trabalhar doentes, o que não é bom do mesmo jeito. Sonecas inoportunas, a famosa “piscadela” mais demorada, tornam-se quase incontroláveis para quem está morrendo de sono. Elas surgem durante as atividades.

A memória também já não é mais a mesma entre os que passaram a noite despertos. De acordo com um estudo feito pelo Laboratório do Sono da Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos, e apresentado no congresso World Association os Sleep Medicine, no ano passado, adultos privados de sono têm 40% menos codificação de memória quando comparados aos que tiveram uma noite de sono tranquila. Para chegar a esse resultado, os estudiosos analisaram a performance de dois grupos diferentes: um havia dormido oito horas, enquanto as cobaias da outra equipe não haviam pregado os olhos um minuto sequer durante a noite.

Para contornar os prejuízos, Geraldo Rizzo destaca que algumas empresas já tentam adotar estratégias para evitar funcionários caindo de sono durante o expediente. “É comum ver salas de repouso nas instalações desses locais”, comenta. “É preferível um indivíduo dormindo por duas horas, do que trabalhando desatento.” Melhor para todos. O médico ainda cita outros estudos que indicam que empregados sonolentos têm menos satisfação no trabalho, tendem a ficar mais irritados que os demais e, geralmente, têm mais problemas nas relações interpessoais.

Risco sobre rodas
Outra consequência séria da insônia, além da cara feia dos chefes, é o perigo de acidentes automobilísticos. Não dormir também é um potencial causador de desastres ao volante. Dirceu Rodrigues Álves Junior, chefe do departamento de Medicina de Tráfego Ocupacional e diretor de comunicação da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), afirma que 42% dos acidentes são causados pela privação do sono. “A insônia aumenta de três a sete vezes o risco de eles acontecerem”, completa. Outros levantamentos mostram ainda que mais de 50% das fatalidades no trânsito ocorrem à noite e estão intimamente relacionadas com motoristas sonolentos.

Entre veículos ligados a empresas, os números também são preocupantes: cerca de 42% a 49% dos acidentes envolvendo esse tipo de transporte se deve à sonolência ou à desatenção do motorista. De 2% a 8% dos insones já sofreram pelo menos um acidente ocasionado ou relacionado ao problema. Dirceu explica que, além da insônia, outro causador de problemas nas estradas é a sonolência diurna, geralmente derivada de noites mal dormidas. “A temperatura ambiente dentro do carro, o balanço da viagem e o som do veículo funcionam como indutores do sono”, justifica.

Sem uma boa e reparadora noite de sono, o especialista diz que é impossível manter as três funções básicas para assumir a direção. A primeira é a cognitiva, que abrange a atenção, a concentração, o raciocínio e a vigília do indivíduo. A segunda diz respeito às funções motoras, como as respostas e reflexos aos estímulos. Por último, há a função sensório-perceptiva, que diz respeito aos sentidos como tato, visão e audição. “Quando se está privado de sono ou o sono não foi de qualidade, há alterações importantes em tais funções”, reforça.

Mas o que fazer para evitar todas esses problemas causados pelo cansaço de uma noite em claro? “Para quem está com sono durante o dia, o único remédio que existe é dormir”, resume Dirceu. “Já quem tem insônia está com um problema de saúde. É um indivíduo doente, com imunidade baixa e neurotransmissores alterados. Ele precisa de um tratamento para corrigir isso.” Para os que passam por períodos de escassez de sono, uma má notícia: não adianta nada tirar um dia inteiro para dormir, na tentativa de recuperar o tempo perdido. Segundo o especialista, uma vez perdido, o sono não é reposto. “Se você não dormir, já perdeu o equilíbrio do organismo”, frisa. “A regulação hormonal já foi alterada e a imunidade já está baixa.”


Tratamentos
- Não-farmacológico : nesse tipo de tratamento, como o nome sugere, não há o uso de remédios. Os médicos usam a terapia comportamental cognitiva (TCC) para analisar pontos importantes do cotidiano do paciente. Após uma avaliação psicossocial, o TCC é feito em seis a oito sessões em grupos de até dez pessoas. Além de informações sobre o problema, os insones são apresentados a técnicas para adaptar alguns comportamentos que podem estar atrapalhando o sono. De modo geral, o tratamento demora até quatro meses.
- Farmacológico: aqui há o uso de medicamentos para o controle da insônia. Podem ser hipnóticos, antidepressivos ou tranquilizantes. O problema são alguns efeitos adversos, como dor de cabeça, náuseas, tonturas e, em alguns casos, dependência. Basicamente, os remédios atuam em receptores ou sub-receptores cerebrais que estimulam o sono. A escolha do medicamento, contudo, deve ser feita apenas pelo médico, uma vez que a insônia pode estar associada a outras doenças, como depressão. Nesses casos, a insônia é um sintoma, e não a doença propriamente dita.
Fonte: Associação Brasileira do Sono

Você sabia?
- Insônia engorda: alguns estudos apontam que não dormir normalmente faz com que algumas subtâncias, como a grelina (hormônio produzido pelo estômago e que dispara a sensação de fome), aumentem, enquanto outras, como a leptina (que inibe o apetite e estimula o gasto de energia), diminuam.
- Mulheres sofrem mais: para cada homem insone, há três mulheres que também não conseguem dormir. Não se sabem exatamente os motivos, mas acredita-se que elas sejam mais propensas ao estresse do que os homens, o que impacta a qualidade do sono
- A insônia é mais frequente em idosos do que em adultos jovens: a pessoas mais velhas têm 1,5 mais dificuldade de dormir do que adultos com menos de 65 anos. Segundo a Associação Brasileira do Sono (ABS), a prevalência de insônia no idoso varia de 19% a 38%.
- Quanto mais doenças, mais insônia: tanto homens quanto mulheres que sofrem de doenças cardiovasculares, artrite, obesidade, enfisema pulmonar, asma, diabetes, doença renal ou câncer têm mais chances de se tornarem insones
- Somente 30% dos adultos com dificuldade de dormir procuram ajuda profissional para resolver o problema: dos que procuraram tratamento, apenas 19% foram ao consultório especificamente para discutir as dificuldades para dormir, mas sim as consequências disso, como queda no rendimento e queixas sobre a saúde de modo geral

Tipos de insônia
- Insônia ocasional: dura apenas alguns dias, mas pode aparecer novamente de tempos em tempos. É causada por estresse agudo ou mudanças ambientais, como mudanças no fuso horário ou hospitalização.
- Insônia aguda ou transitória: pode durar de uma a três semanas. A frequência está associada a fatores estressantes mais sérios, como perdas pessoais agudas, traumas emocionais, problemas prolongados no trabalho/família ou doenças graves.
- Insônia crônica: dura mais do que três semanas. A frequência é causada por doenças clínicas ou psiquiátricas (como insuficiência cardiovascular, hipertireoidismo, asma ou depressão). Pode estar ligada ao uso de certos medicamentos, ao uso abusivo ou dependência de drogas ilícitas e de álcool ou transtorno primário do sono.

Impactos da insônia
- Sonolência diurna
- Fadiga
- Falta de energia
- Irritabilidade
- Ansiedade
- Falta de concentração e de memória
- Dores musculares
- Depressão
- Acidentes de trabalho
- Diminuição da libido
- Risco de depressão
Fonte: Coletiva de Imprensa sobre Insônia, realizada na cidade de São Paulo em 22 de junho de 2012

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