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Estado de Minas ENTREVISTA

Das passarelas para as Olimpíadas

Jum Nakao é o nome por trás do figurino da festa de encerramento das Olimpíadas. Ele se inspirou na pluralidade do Brasil, sede dos jogos em 2016, para criar as roupas e adereços que vão apresentar nsso país para o mundo


postado em 12/08/2012 08:00 / atualizado em 10/08/2012 16:31

(foto: Carlos Vieira/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/Esp. CB/D.A Press)
O semblante calmo de Jum Nakao esconde um homem inquieto. Da mente criativa desse paulistano de 45 anos pipocam ideias a todo instante. O artista já criou rebuliço no São Paulo Fashion Week, em 2004, ao colocar na passarela ousados vestidos de papel. Ele também desenhou o figurino de séries de TV como Hoje é dia de Maria, de Luiz Fernando Carvalho; assinou parcerias com marcas como a Nike; apresentou trabalhos em bienais de artes nacionais e internacionais e segue reinventado o ordinário.

Estilista, artista plástico, designer de móveis, consultor, quase um criador de sonhos, Jum Nakao tem a pluralidade como grande aliada. Não à toa, recebeu um convite especial do Comitê Olímpico Brasileiro: criar 300 figurinos e adereços que vão compor a apresentação do Brasil no encerramento das Olimpíadas de Londres. Em apenas dois meses, ele conseguiu transformar o “inefável”, como gosta de definir, em algo concreto e, até o momento desta entrevista, sigiloso.

Atento aos últimos arremates para a grande festa que também anunciará o Brasil como próxima sede olímpica de 2016, o artista diz que ainda não sentiu o inevitável frio na barriga. Na última semana, esteve em Brasília para orientar novos talentos do Capital Fashion Week, evento de moda da cidade, e conversou com a Revista. Enquanto a ansiedade está sob controle, ele adiantou informações sobre esse grande espetáculo, a que deve assistir no backstage do estádio olímpico. Mesmo que um contrato não lhe permita revelar exatamente o que vai ver na TV hoje, às 17h – nós também não vamos estragar a surpresa, não é? – , Jum Nakao deixa escapar um ou outro detalhe nesta conversa.

Como foi esse convite para participar da festa de encerramento das Olimpíadas em Londres?

Recebi o convite da direção do Comitê Olímpico Brasileiro para fazer o encerramento da participação dos Brasil nas Olimpíadas em Londres. A direção criativa da cerimônia de encerramento me chamou para fazer o design, o leiaute, figurinos e adereços que compõem o espetáculo. Já estou trabalhando nisso há dois meses. Será uma versão reduzida da abertura, mais curta, como uma degustação do que virá em 2016 no Rio de Janeiro. Algo como: cenas do próximo capítulo. Mas eu não fui o único brasileiro convidado. Há uma equipe grande de outros artistas participando. Não chega a ser do tamanho dos créditos de Avatar, mas é muita gente (risos). Fiquei responsável pelos figurinos.

Você teve contato com outros artistas para alinhavar as ideias?
Sim. Recebi todo o briefing de como seria a cerimônia e fiz um projeto, que apresentei para todos os artistas e responsáveis pela coreografia etc. Não posso revelar detalhes porque temos um acordo de confidencialidade e não posso estragar a surpresa. O tema também é segredo. Extremamente sigiloso. O que posso adiantar é que não adotamos uma visão restrita do país porque a apresentação será para quatro bilhões de pessoas. Não dá para ser uma linguagem que não seja universal. Mesmo quando você vê qualquer abertura de cerimônia, mesmo que as pessoas por trás da realização sejam pessoas com uma linguagem mais sofisticada, quando se apresenta um trabalho para esse número de pessoas, você tem que ser generoso com os valores percebidos no Brasil.

Podemos esperar algo no estilo Yes, nós temos bananas, araras azuis e tom carnavalesco?

Isso eu também não posso revelar (risos).

Imaginamos que não será nada pejorativo ou preconceituoso e que você tenha explorado um pouco da regionalidade do país.
(Pausa) Então, recebo um script que é o roteiro do espetáculo, aprovado por brasileiros e pelo Comitê Olímpico Internacional. O que faço apenas é incluir um pouco de sonho, de poesia, de história e emoção ao roteiro, que pode cair para um lado já conhecido do Brasil. Quando você está dentro de um projeto que envolve 300 figurinos, quando há muita gente em cena, trabalhamos em equipe. É como se você jogasse com um time. Claro que para criar uma identidade, um conto e uma fábula sobre o Brasil, eu imprimi a minha linguagem, minhas referências e sutilezas para trazer um pouco do universo onírico ao espetáculo.

Onde foi produzido o figurino?
Um pouco em Londres, um pouco no Brasil e um pouco em Roma também. Contamos com uma equipe dos melhores profissionais. Pessoas que trabalham para Hollywood, na produção de grandes filmes. A mão de obra é de todos esses lugares. É mais do que só um figurino.

As pessoas que vão vestir os figurinos serão de outros países ou brasileiros?
Os artistas são brasileiros, mas têm pessoas do mundo inteiro que são voluntários e que estarão trabalhando no backstage, na infraestrutura. As Olimpíadas tem esse caráter de reunir voluntários que querem participar da grande cerimônia.

Com toda essa grande estrutura e responsabilidade, você já está sentindo um frio na barriga?
Não, porque o espetáculo já está desenhado na minha cabeça. Agora, é trazer esse universo do inefável, do que faz parte desse cenário de sonhos para dialogar com a realidade. Essa diplomacia com o que é viável, com o que é possível, se faz necessária. Quando recebi o convite, me senti honrado e pensei: vou fazer o maior desfile da minha vida. Acompanhei a prova dos figurinos, mas tenho uma equipe grande trabalhando nisso também. Quando você pensa que está acontecendo agora uma Olimpíada e que ao final dela o Brasil será as cenas dos próximos capítulos, a gente tem que passar esse gostinho estético, um pouco do que é o Brasil para todos os outros países. É uma mensagem diplomática. Antes de fechar as cortinas teremos esse tira-gosto. Para mim, esse trabalho é de uma dimensão que nunca imaginei. Um dia, quero fazer o desfile de uma escola de samba, o que já seria apoteótico. Agora fazer o encerramento de uma Olimpíada deve ser a mesma sensação, só que elevada à potência.

Agora você tiraria de letra o convite de uma escola de samba…
Não sei, mas com certeza já estou mais preparado (risos). A diferença de criar para uma escola de samba é que, como carnavalesco, você é o diretor máster de tudo. Mas ao fazer uma cerimônia das Olimpíadas, você é parte de uma comissão que está subordinada a todo um cenário diplomático e político. Não diria que tenho que fazer concessões, mas agir com diplomacia e seguir o roteiro. Afinal de contas, a expectativa da cerimônia de encerramento não é só do Brasil, mas de todos que olham para o país. Aí entra uma questão interessante: não é só fazer o que queremos, mas fazer aquilo que as pessoas têm expectativa de ver. Qual é a visão que as pessoas têm? É como se você fosse a um show da banda de que você mais gosta e ela não tocasse sua música favorita. Apenas as que você desconhece. Seria uma grande frustração, não? Há toda uma questão do imaginário coletivo a ser levado em consideração. Há uma série de questões que são maiores que o ego de um artista e é importante exercer a humildade.

Você acha que os estrangeiros vão gostar do espetáculo?
Acho que sim. O espetáculo tem um lado mágico. E isso, pelo menos dentro do meu trabalho, é muito importante. Em um país como o Brasil, onde o espírito de tudo vai dar certo, a capacidade da improvisação, e da própria "gambiarra", conseguimos cativar uma empatia dos outros. Os estrangeiros tem essa percepção de que o Brasil é um país que sempre encontra uma forma de abraçar o mundo.

Depois das Olimpíadas, você continuará na Europa realizando outros trabalhos?
Tenho outros projetos na sequência, em Londres e Paris. Em Londres, participarei de uma exposição chamada From the margin to the edge (Da margem para a ponta), em que exponho uma obra minha. Depois, participo também da cerimônia de encerramento das Paralimpíadas, algo bem diferente do que vamos ver nas Olimpíadas. Em seguida, vou para à França fazer um projeto a convite do Ministério da Cultura francês sobre indústria têxtil. Vou trabalhar com referenciais de inovação e novas aplicações que reflitam o tecido no futuro. Só depois, eu volto.

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