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Estado de Minas PERFIL// MATEUS RIBEIRO

No embalo da ousadia

Integrante do elenco do musical Cabaret, em cartaz em Brasília, Mateus aprendeu na capital federal a dar os primeiros passos da dança que conquistou Cláudia Raia


postado em 19/08/2012 08:00 / atualizado em 17/08/2012 12:29

(foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)
(foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)

Mateus Ribeiro é um rapaz comum. Aos 18 anos, ele se diverte com os amigos, vai a festas e se prepara para a profissão que escolheu. Enquanto seus colegas devoram apostilas e livros em busca de uma vaga no concorrido vestibular de universidades federais, Mateus se dedica a aulas de canto, de dança e de atuação para passar nas audições (teste de elenco para teatro) das quais participa. Outra possível característica que o difere da maioria dos adolescentes, geralmente perdidos ou em dúvida sobre o melhor caminho a seguir, é a certeza que ele tem sobre seu próprio futuro.

Desde os 10 anos de idade, Mateus quer ser ator. Na verdade, querer não é bem o verbo: Mateus é ator. E cantor. E bailarino. Atualmente, o artista está no elenco do musical Cabaret, espetáculo produzido, dirigido e estrelado pela atriz Cláudia Raia. O show, que estreou em outubro de 2011 e agora está em cartaz em Brasília, é o primeiro da carreira desse jovem cearense, que aprendeu seus primeiros passos de dança na capital federal, para onde se mudou aos 13 anos de idade.

Não foi apenas a dança que Brasília apresentou ao rapaz. Foi aqui que o jovem descobriu como unir atuação, canto e dança; três paixões que o levaram aos palcos paulistas e cariocas, onde atua hoje. Quando foi selecionado para atuar ao lado de Cláudia e participar do espetáculo que considera o mais importante da sua vida, no ano passado, Mateus ainda cursava o terceiro ano do ensino médio. A dúvida entre abandonar ou não os estudos para se dedicar ao sonho de se tornar um ator musical, porém, não foi assim, tão difícil de ser resolvida. “Conversei com a minha mãe e ela me apoiou”, conta. “Ela disse que eu não poderia perder a chance de aproveitar uma oportunidade que eu tanto esperei.”

Apesar do intenso desejo de ser aprovado, no momento da audição para o Cabaret, Mateus estava desesperançoso. Com estatura mediana e biotipo magro, ele conta que se deparou com bailarinos enormes, fortes e altos. “Pensei ‘ok, erraram meu perfil de novo’”, relembra. A expectativa de ser lembrado para oportunidades futuras o animou um pouco, porém. Não custava nada dar o melhor de si. Quando a atriz Cláudia Raia entrou para recepcionar os candidatos, a vontade de ser notado virou uma obrigação. “Percebi, durante toda a audição, que ela estava gostando do que eu estava mostrando”, conta. “Comecei a reparar no que as pessoas não faziam, porque precisava me destacar de alguma forma.”

De roupa preta como todo mundo, Mateus era o candidato número 128. A estratégia era ser visto, de qualquer maneira. Na primeira fase da triagem, os candidatos tiveram que aprender uma coreografia na hora. A maioria se concentrou em decorar os passos. Ele quis inovar. “Vi que as pessoas eram muito clássicas, então, resolvi dançar com passos mais marcados”, exemplifica. Na hora de escolher o salto alto de 8cm que iria usar (todos os bailarinos precisavam saber dançar nas alturas), ele preferiu o dourado. Durante a apresentação, caras e bocas para os jurados. A estratégia deu certo: após as quatro fases da seletiva, Cláudia Raia queria conhecê-lo. “Ela disse que tinha gostado muito de mim e da minha energia”, derrete-se Mateus. “Fui embora pasmo. Esqueci até minha mochila e as partituras no palco.”

Na coletiva de imprensa de divulgação do espetáculo, em São Paulo, Mateus foi citado pela atriz. Sentado ao fundo da sala, o rapaz viu todas as câmeras e microfones voltarem-se para ele. “Acho que ela se identificou comigo porque também começou a carreira cedo”, arrisca. Do lado dele, a recíproca veio em forma de admiração. “Ela é uma pessoa muito batalhadora e estuda muito”, elogia.

Tanta atenção voltada a uma só pessoa pode despertar sentimentos não tão nobres no resto do grupo de dançarinos. Questionado sobre isso, Mateus prefere manter a diplomacia. “Se alguém tem ciúme, guarda para si. Até porque, todos lá têm uma carreira consolidada”. Mateus diz que os planos para o futuro são tão animados quanto sua agenda: recentemente, começou um curso de dublagem. Só para não ficar “acomodado”. “Quero ser protagonista de um musical, fazer TV e continuar na dublagem. Tudo com calma. Só não quero ficar parado”, diz. “Eu não quero estar em outro lugar. Quero estar onde eu estou, trabalhando em uma festa em vez de estar em outra, só curtindo.”

Os primeiros passos
Nem mesmo Mateus sabe como começou a vontade de ser artista, mas arrisca: talvez tenha sido ainda na infância, durante os shows de mágica particulares que apresentava em reuniões familiares. Pode ser também que o dom seja genético, uma vez que a arte sempre esteve presente em sua árvore genealógica. “Meu pai tocava violão na noite”, conta. A mãe fazia parte do coral e do grupo de teatro da escola em que estudava em Fortaleza. Os dois irmãos também trilharam caminhos artísticos: o mais velho, de 22 anos, toca vários instrumentos e o mais novo, de 15 anos, também é ator.

Mateus repetiu os passos dos pais: coral, teatro, dança ou o que quer que envolvesse arte, lá estava ele. Até que chamou a atenção de um dos professores. “Ele me convidou para fazer aula de teatro de verdade, com um grupo bem mais velho”, relembra. “Eu tinha uns 11, 12 anos e estudava com gente de 20.” A convivência com pessoas mais velhas ajudou, o então menino, a ganhar maturidade. Surgiu assim o adolescente meio adulto de hoje. As gírias do vocabulário brigam com as ideias quase incompatíveis para a pouca idade. “Se eu quero ser ator, os outros podem falar o que quiser. Não é porque um ou outro não fez sucesso e não conseguiu ganhar dinheiro com isso que eu não vou conseguir”, dispara. “Eu confio no meu taco.”

Tanta confiança pode até parecer pretensão, mas, na verdade, ela foi conquistada com muito suor. Literalmente, no caso de Mateus. Depois das aulas na escola, ele passava o dia inteiro na academia de dança. A primeira coisa que fez quando chegou em Brasília foi procurar uma aula de sapateado. Novamente, um professor viu que ele levava jeito para a coisa e o convidou para fazer também aulas de teatro musical. Sem saber direito como seria atuar e cantar ao mesmo tempo, Mateus resolveu arriscar. E se apaixonou. “Achei que seria uma coisa um pouco amadora, mas vi que era puro desconhecimento”, conta. “Tem um mundo de coisas que se pode fazer com o teatro musical.”

A partir daí, a dança passou a ser sua nova obsessão: todos os vídeos que via, os artigos que lia e os exercícios que fazia eram com o intuito de se aprimorar. De aluno, Mateus logo passou a professor. Sua rotina na capital, então, tornou-se um vai e vem sem fim. “Eu saía de casa às 6h da manhã, ia para a escola e saia correndo para ensaiar”, descreve. “Muitas vezes tive que montar a coreografia das aulas durante os intervalos da escola.”

Quando ainda morava em Fortaleza, porém, ele admite que não era tão fácil assim bater o pé pelo que queria. “Algumas pessoas do meu colégio achavam que ser ator era coisa de vagabundo”, relembra. Comentários maldosos, que iam da escolha da profissão até a própria sexualidade do garoto, pipocavam na maioria das rodas de conversa da época. “Lá é um lugar que arte paga muito pouco. As pessoas não apoiam, não vão assistir e o povo é muito machista”, critica. “As pessoas podem até ser artistas, mas precisam ter uma profissão paralela.”

Por aqui, a realidade mudou. Mateus conheceu outras pessoas que também se interessavam por teatro e fez amigos dançarinos que o incentivaram a começar a dançar. Ele relembra que, mesmo antes de começar a ter aulas profissionais, já ensaiava alguns passos despretensiosos. O problema foi dividir o tempo entre os estudos e os ensaios constantes quando resolveu se profissionalizar. Mateus, contudo, nunca foi um mau aluno, até porque, dependia das notas no boletim para continuar fazendo o que tanto gostava. “Quando eu era criança, meu pai impôs essa condição. Eu só poderia continuar no teatro se tivesse notas boas”, conta. “Nessa época, minhas notas aumentaram, de tanto medo que eu tinha de ter que parar.”

Já no começo da adolescência, em um único dia, Mateus tinha que ir para a escola, para a aula de dança, de canto, de jazz, de street jazz , além de ensaiar um musical no período noturno. No fim das contas, sobravam apenas três horas por noite para dormir. “Eu não tinha vida pessoal”, resume. Ele só tinha tempo para um almoço rápido, no carro mesmo. A marmita feita pela mãe - que estava sempre de prontidão na porta da escola para levá-lo ao trabalho - era a salvação. Assim como muitos outros artistas que começaram a carreira ainda na infância, Mateus tem na mãe uma agente particular. É ela quem fica, até hoje, atenta para prazos, audições e oportunidades que podem virar trabalho. A vantagem é poder ter tudo isso com o aval materno, ou seja, com um carinho que dificilmente seria encontrado em uma relação profissional desprovida de vínculos familiares. “Ela me apoia muito até hoje. Se não fosse por isso, nunca daria certo.”

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