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Pornô para mulheres

O que acontece quando uma cientista política decide fazer filmes eróticos ou uma dona de casa vira a maior best-seller dos últimos tempos com um romance sadô? O soft porn virou uma febre

Juliana Contaifer
postado em 30/09/2012 08:00

O que acontece quando uma cientista política decide fazer filmes eróticos ou uma dona de casa vira a maior best-seller dos últimos tempos com um romance sadô? O soft porn virou uma febre

Elas também querem saber de sexo. Mas não do mesmo jeito que os homens ; elas querem romance, amor e também um enredo. Hoje, as mulheres formam um novo tipo de público para entretenimento erótico. Em resposta aos filmes pornográficos voltados para o gosto masculino, no melhor estilo "vamos direto ao ponto", começam a fazer sucesso outros tipos de vídeos, mais eróticos e menos explícitos. São os chamados soft porn ou pornô light, recheados de histórias, que surgem como um sopro de esperança para a indústria que já não se sustenta com a venda de DVDs e passou a viver uma crise depois que as pessoas passaram a produzir os seus próprios vídeos caseiros e vender a preços módicos ou a oferecê-los gratuitamente na internet.

Nessa nova linha, ganham atenção especial o roteiro, a iluminação, os ângulos e até os atores. O mercado é tão grande que foi criado o Feminist Porn Awards, uma espécie de Oscar do gênero. Uma das maiores expoentes do estilo é a diretora sueca Erika Lust, uma cientista política que resolveu deixar tudo de lado e investir no filão. "Minhas primeiras experiências com pornografia foram tão antieróticas que eu só comecei a me interessar pelo assunto na faculdade ; e era com um olhar acadêmico. Ao estudar sobre o feminismo, fiquei fascinada com as teorias do lugar do pornô na sociedade", contou Erika à Revista.

Com o interesse pelo estudo, a cientista política percebeu que alguma coisa estava faltando na industria pornô e que ela tinha conhecimento do que precisava ser mudado. Fez, então, um curso de audiovisual e começou a trabalhar em produções pornô para aprender o ofício. "E o próximo passo lógico era começar meu próprio negócio, com minha própria visão." Segundo Erika, seu maior compromisso é retratar a sexualidade feminina e seus desejos, sem esquecer da atenção com a estética.

Tudo isso combinado forma um tipo de filme diferente do que as pessoas estão acostumadas. "Os roteiros são inspirados nas minhas próprias fantasias, mas eu também sou muito inspirada pelas histórias, desejos e experiências das minhas amigas. Também tenho muitas ideias ao ler livros e assistir a filmes, que podem não ser eróticos. Além disso, uma nova cidade, bar ou aventura é o melhor tipo de inspiração", explica. Para a cientista política, há tantos tipos de pessoas e preferências sexuais que o pornô deve representar isso.

Entre as novidades de conteúdo erótico, não há como não falar sobre o fenômeno editorial 50 tons de cinza (Editora Intrínseca), e dos dois outros volumes que compõem a trilogia. Há uma enorme repercussão sobre a trama sadomasoquista, que envolve uma jovem de 21 anos e um bilionário sedutor ; alguns seguimentos feministas consideram o best-seller uma história de violência doméstica e até ameaçam queimar exemplares do livro em praça pública. Mesmo assim, o público feminino foi em massa às livrarias atrás de um exemplar ; já foram mais de 200 mil livros vendidos apenas no Brasil. As mais recatadas entram discretas, envergonhadas e escondem o livro entre outros títulos para escapar dos olhos de outros compradores e dos vendedores. Algumas leem o livro com a capa virada, para que ninguém saiba. Já existe até revista que elenca as receitas de drinks consumidos pelo protagonista, bem como histórias apimentadas de leitores e outros assuntos tratados no livro.

O livro relata cenas de sexo em detalhes, do ponto de vista da protagonista Anastasia Steele. E o mais surpreendente é que a autora E.L. James é uma mãe de família britânica, de 48 anos, dona de um perfil que não lembra em nada as aventuras picantes de Anastasia. A ideia para o livro saiu da saga Crepúsculo e, a partir de então, E.L. James começou a escrever as chamadas fan fics, histórias feitas por fãs com os personagens da trilogia. Daí, os enredos ficaram mais picantes e independentes, acabaram num estrondoso sucesso, inaugurando até uma nova alcunha no setor, o chamado pornô mamãe, em referência à autora.

Curiosa?

Procure os vencedores do Feminist Porn Awards 2012:

Filme do ano: Cabaret Desire, de Erika Lust

Curta-metragem: Emile, de N. Maxwell Lander

Melhor Filme Direto: The Female Voyeur, de Petra Joy


Para ler

A casa dos budas ditosos, de João Ubaldo Ribeiro

A vida sexual de Catherine M. , de Catherine Millet

História de O, de Pauline Reage

Engraçadinha, de Nelson Rodrigues


Erotismo também no Brasil


O que acontece quando uma cientista política decide fazer filmes eróticos ou uma dona de casa vira a maior best-seller dos últimos tempos com um romance sadô? O soft porn virou uma febreCom o assunto em voga, surgem as autoras locais do movimento. Há vários sites dedicados a excitar a veia erótica das mulheres ;- inclusive em Brasília. A escritora Janaína Rico, 33 anos, era uma leitora assídua de textos eróticos, até que escreveu um romance chamado Ser Clara, que tinha uma temática sensual. Em maio, Janaína começou um projeto chamado 365 dias de sensualidade no site www.janainarico.com.br, no qual publica diariamente contos eróticos. "Já tinha a ideia de escrever contos sensuais há algum tempo, mas só tomei coragem depois de conversar bastante com meu marido. Acho a arte erótica muito bonita. E, para ilustrar os contos, eu precisava de imagens e achei justo com meus leitores mostrar a minha cara, sou exibida", conta a escritora. A repercussão foi enorme ; o site teve um aumento considerável no número de acessos, os fãs deixam mais comentários e procuram se comunicar com a escritora.

Janaína conta que as mulheres se identificam com os contos, e perdem cada vez mais a vergonha e o pudor de admitir que gostam de textos eróticos. "Não é mais uma coisa que tem que ser escondida. A literatura erótica está na moda, as pessoas estão se assumindo mais, estão mais ousadas, saindo do estereótipo de que precisam ser perfeitas para ter e dar prazer", afirma a escritora, que está prestes a lançar mais um romance sobre o assunto.

O fenômeno do pornô light é um reflexo da liberdade da sexual feminina. "Acho que a mulher, desde os movimentos feministas mais radicais, buscou muito conquistar seu espaço no campo político e no mercado de trabalho, e deixou um pouco de lado certos avanços na vida íntima, ela deixou de explorar mais a fundo seu poder sexual. Isso porque, em certas épocas de avanços feministas, era como se o fato de ela exercer sua sexualidade fosse desvalorizá-la como profissional", observa Carol Teixeira, filósofa, escritora e cantora. E acrescenta: "Ela precisou se ;dessexualizar; um pouco. Podemos ter igualdade com o homem em muitas áreas, mas no campo emocional e psicológico, o interessante é a diferença".

Carol é a coordenadora do curso "Bitch", que ocorreu em Porto Alegre no ano passado e este ano chega a São Paulo. O objetivo do curso é reunir mulheres modernas para discutir o compromisso com a beleza, o sexo, as crenças históricas ao redor do feminismo e aumentar a autoestima. Brasília é uma das cidades estudadas para receber o curso em breve.

Para a filósofa, a onda do pornô light e da literatura erótica para mulheres quebram o estigma de que a mulher não precisa ou não gosta de pornografia. Ela conta que não tem nada contra os filmes pornôs tradicionais, e acha que a ideia de que o público feminino prefira algo mais sensível não é necessariamente verdade. "A mulher precisa lidar mais naturalmente com o fato de consumir pornografia, seja ela qual for. E, se for mais fácil essa aceitação por meio de um mercado voltado mais especificamente pra ela, acho que devemos aproveitar esse caminho", explica.

A cineasta Erika Lust acredita que as mulheres estão falando sobre sexo francamente, de um jeito que nunca aconteceu ; e essa conversa está surtindo efeitos significativos em suas vidas. "Desde o começo do milênio, com a ascensão do pornô independente, da série The Sex and the City e dos filmes de Hollywood incluindo cenas de sexo ao livro 50 tons de cinza, a sexualidade feminina está saindo devagar das sombras. Quanto mais confortáveis estão com a sua vida sexual, fica mais fácil expressar o que elas preferem, sem culpa ou julgamento", explica. Segundo a cientista política, a liberdade sexual feminina ainda não está igual à masculina, mas evolui a cada dia.

O que acontece quando uma cientista política decide fazer filmes eróticos ou uma dona de casa vira a maior best-seller dos últimos tempos com um romance sadô? O soft porn virou uma febreA estudante Mayume Kanegae, 22 anos, se considera livre para exercer sua sexualidade ; mas conta que as amigas ainda se chocam um pouco com tanta liberdade. "Elas se assustam por eu não ser muito recatada, mas ninguém nunca me criticou abertamente. As pessoas se importam muito com o que os outros vão pensar e acabam não fazendo o que querem, dizem que gostariam de ser como eu. Acho que, apesar de todos os avanços, as mulheres ainda são muito resistentes", afirma a estudante. Para Mayume, a ideia dos novos pornôs é ótima, apesar de ainda não ter visto nenhum. Ela explica que a reclamação mais comum de suas amigas é que nos filmes tradicionais não há história, as coisas acontecem de repente e não há envolvimento. "Somos mais românticas."

Com a liberdade sexual, é normal que as mulheres invistam no que dá prazer. Tanto é que a grife sueca Lelo, especializada em vibradores e brinquedos eróticos de luxo, cresce cada vez mais em vendas no mercado brasileiro. "Nós acreditamos que, nos últimos anos, o fato de a mulher expressar e explorar a sua sensualidade tem sido mais socialmente aceito. Nós gostamos de pensar que a Lelo teve uma parte nesse processo, pois nós fomos os responsáveis em transformar o modo com que os massageadores pessoais são vistos pela população em geral", explica o diretor da marca no Brasil, Paulo Guimarães. Ele acredita que as mulheres estão mais poderosas do que nunca, não têm medo de se posicionar e que, com isso, estão mais abertas aos seus desejos e necessidades.

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