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Estado de Minas MEDICINA

O brilho de um mundo particular

Pouco conhecido e visto com preconceito, o autismo pode não ser limitante e isolador. Há graus do distúrbio, como Asperger, que permitem o paciente desenvolver habilidades acima da média


postado em 21/10/2012 08:00 / atualizado em 19/10/2012 17:24

(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)

Em 1992, a australiana Donna Williams, hoje com 49 anos, bateu à porta de um psiquiatra com um punhado de páginas datilografadas. Ali, relatava angústias que a acompanharam por toda a vida. Buscava uma explicação para sua falta de ajuste social e sentimentos. "Contei-lhe que me tomavam por uma louca, uma idiota, uma desajuizada ou, simplesmente, por alguém bizarra, e que meu pai me dissera que lhe haviam falado sobre autismo a meu respeito", lembra Donna. Impressionado, o médico enxergou no manuscrito algo além de um desabafo. Sem saber exatamente o que fazia, Donna descrevia com precisão os sintomas característicos das crianças autistas. Sua extensa carta virou um livro de referência no assunto.

Hoje, estima-se que cerca de 65 milhões de pessoas no mundo estejam dentro do chamado espectro autista. O aumento dos casos — de uma criança para cada 2,5 mil, na década de 1990, para uma a cada 100, nos dias atuais — chegou a levantar entre os especialistas uma complexa discussão sobre a existência de uma epidemia do transtorno. A hipótese, hoje, é praticamente descartada. Sabe-se que a estatística válida atualmente, de que o distúrbio afeta 1% das crianças em todo os mundo, se deve, na verdade, ao maior número de diagnósticos feitos nos consultórios psiquiátricos, e não à maior incidência do problema na população. "A mídia fala mais sobre o assunto, as pessoas se informam mais, leem mais e os pais estão mais abertos a receberem o diagnóstico também. Não há epidemia, há sim mais detecção", esclarece a psiquiatra Daniela Bordini, coordenadora do Ambulatório de Cognição Social da Unidade de Psiquiatria da Infância e Adolescência, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Como Donna, no entanto, são poucos. Os autistas classificados dentro do espectro de altíssima funcionalidade — sem nenhum grau de retardo mental, capazes de falar, estudar, aprender habilidades sociais e, quem sabe, até relatarem com precisão de detalhes sua vida em um livro — são menos de 30% dos diagnosticados. Eles convivem com uma forma um pouco mais moderada do distúrbio, têm a chamada síndrome de Asperger. "Para entender o espectro, imagine uma régua de 30cm. No zero estão os pacientes graves, de baixa funcionalidade. À medida que você corre o dedo pela régua, esses indivíduos vão se tornando mais aptos", explica Estevão Vadasz, coordenador do Programa de Transtornos do Espectro Autista, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, ligado à Universidade de São Paulo (USP). "Aos 15cm você tem os autistas de alta funcionalidade. Cerca de 50% deles não têm retardo mental associado e desenvolvem alguma linguagem. Por fim, aos 30cm, você tem os autistas de altíssima funcionalidade, que são os que sofrem de Asperger. O nome muda, mas o transtorno é um só", conclui.

Os sintomas também são quase os mesmos. O olhar triangulado e perdido; as crises de ansiedade; a aversão ao contato físico; a repetição à exaustão de frases; o balançar para frente e para trás, ou em círculos, em torno do próprio tronco; a sensação de que os professores falam grego na escola, e a obsessão por objetos, cores e imagens podem acompanhar tanto autistas severos como os de alta funcionalidade.

Durante a infância e boa parte da vida adulta, Donna Williams conviveu com todos esses transtornos sem compreendê-los. Seu livro, Meu mundo misterioso (Thesaurus, 268 páginas), tem um importante inovação: no lugar de um especialista discorrendo sobre sintomas e causas, quem fala é uma autista, compartilhando sua visão de mundo e jornada pessoal.
 

Ele tem a F 84.5: Asperger

(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Eduardo Sales, 28 anos, recebe a reportagem trancado em seu quarto. "Ele fica lá o dia inteiro", avisa a mãe, a aposentada Joarina Sales Bastos, de 64 anos. Sai de lá com um violão. "Vou te mostrar as notas que inventei". Como assim? "Eu inventei. Depois, quando fui estudar violão, descobri que elas já existiam." Em seguida, entra e busca mais um punhado de livros pesados. Entre eles, um sobre sistemas operacionais de computação — ele passa a maior parte do dia no computador, estudando ou navegando aleatoriamente — e um de macroeconomia. "Queria encontrar falhas na economia mundial", diz naturalmente, como quem comenta o capítulo passsado da novela.

Eduardo demorou a receber o diagnóstico de Asperger. Quando criança, era o aluno problemático, que passava pela sala da psicóloga da escola todos os dias por algum comportamento inadequado. Tinha dificuldade em aprender as matérias mais básicas, subia em árvores altíssimas e escalava muros dizendo que queria inventar uma máquina para voar. Era agressivo vez ou outra e de poucas palavras. "Pelejava com ele", resume dona Joarina. "Andei muito por essa cidade atrás de psicólogo e psiquiatra que entendesse o que ele tinha. Ele fugia da terapia, deixava o psicólogo falando sozinho na sala. Quem fazia terapia, no fim das contas, era eu", continua a mãe.

Aos três anos, era capaz de decorar todo tipo de placa que avistasse na rua. Ao se comunicar, era melhor com os gestos. "Às vezes, é melhor falar apenas com você mesmo, porque o ser humano é muito louco", diz. Há alguns anos, passou quatro horas trancado no quarto com uma estudante de psicologia. Deu a ela material suficiente para uma monografia de conclusão de curso. "Dou consultoria sobre Asperger para psicólogos", brinca.

Eduardo já tinha 14 anos quando finalmente foi diagnosticado como autista por um psiquiatra. "F84.5", ele disse, apenas. "A classificação de Síndrome de Asperger no CID 10 (uma espécie de catálogo internacional de distúrbios psiquiátricos)", complementa. Bastante interessado em psicologia, o rapaz estuda sozinho o assunto. Lista de cabeça os sintomas e os diferencia de distúrbios como esquizofrenia. "Os psiquiatras olham para o meu laudo e veem um autista, um doente. Eu vejo a cura para o mundo. Os maiores economistas, matemáticos e cientistas tinham Asperger ou outro tipo de autismo. São pessoas capazes de acrescentar muito", diz, citando nomes como o de Albert Einstein e Bill Gates.

Há quatro anos, ele trabalha como assistente em uma loja de calçados. Começou dois cursos universitários, ciências da computação e comércio exterior, mas não chegou a concluir nenhum deles. "Além do alto custo, a didática era péssima. Os professores não têm paciência para ensinar pessoas como eu. Não sabem que podem estar desperdiçando cérebros brilhantes", alfineta. Sobre o trabalho, ele é rápido em dizer que "às vezes, dá problema". De vez em quando, recebe a visita de uma psicóloga na loja. "Uma vez estava sentado, decorando os modelos de tênis da loja, para facilitar o trabalho, e me acusaram de não estar fazendo nada. As pessoas não entendem meus métodos", diz. O futuro, no entanto, não pertence às pilhas de caixas de calçados. Certo de seu potencial e ciente de suas diferenças — que ele considera positivas —, se vê em outro lugar em não mais que alguns poucos anos. "Vou fazer carreira na computação", planeja. "Estou estudando para isso", finaliza.
 

 

Leia a íntegra da matéria na edição impressa da Revista n° 388 e veja também uma entrevista com Temple Grandin, a autista que teve a vida contada em um filme.

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