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Estado de Minas MEMÓRIA

Niemeyer, uma inspiração permanente

A partir dos desenhos assinados pelo arquiteto surgiu a marca brasiliense Apoena, um sucesso de vendas pelo Brasil. Aliás, as formas criadas pelo artista, volta e meia, ganham destaque na moda


postado em 09/12/2012 08:00 / atualizado em 07/12/2012 18:19

(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)
 

Já faz dez anos, mas a empresária Kátia Ferreira se recorda como se fosse há pouco. Com os traços do arquiteto que idealizou Brasília, ela dava início ao projeto que hoje leva o nome de Apoena. Essa cooperativa de mulheres apresentou, por meio de seus bordados, a capital a passarelas importantes, como a do Fashion Rio, a semana de moda carioca. Era dezembro de 2002, quando os dois se encontraram. Kátia bateu à porta do escritório de Niemeyer, no Rio de Janeiro. Levava com ela algumas ideias esboçadas em um caderno e um livro de desenhos assinados pelo artista, debaixo do braço. “Era um livro cheio de desenhos de mulheres. Fiquei encantada com aquilo, porque desconhecia esse trabalho dele. Então, fui pedir para transformar os desenhos em quadros”, resume. A proposta era usar agulha e linha para reproduzir, em bordados, essa obra do arquiteto.
Não muito tempo depois da prosa, as figuras femininas desenhadas por Oscar foram parar na galeria do Museu de Arte de Brasília, na mostra Mulheres de Niemeyer. Ao todo, foram 18 quadros, feitos pelas mãos de 28 bordadeiras de São Sebastião. De todo o trabalho, só três ou quatro quadros ainda estão pendurados nas paredes do ateliê da Apoena, que fica na Asa Norte. “Só sobraram os que eu tirei para mim na época. O resto foi vendido lá mesmo, no museu”, recorda. Por cada peça foi cobrado entre R$ 700 e R$ 1 mil e até Gilberto Gil arrematou uma delas.

Duas manhãs

Na parede do escritório do ateliê, de onde saem os coloridos bordados da Apoena, Kátia expõe orgulhosa uma lembrança do encontro que teve com Oscar Niemeyer para discutir a ideia da exposição: um bilhete simples, em papel branco sem pautas. Em poucas linhas, assinado sem burocracia, ele se comprometia, naquela ocasião, a doar o projeto de um centro de capacitação para mulheres, idealizado pela empresária. A proposta não saiu do papel, porém. Kátia conta que não conseguiu um terreno onde pudesse erguer mais uma das belas obras do homem que criou Brasília.
Desse mesmo dia, ela ainda guarda outro bem que considera precioso: duas fotos com o arquiteto. “Nossa, já pensou que eu fiquei duas manhãs com Oscar Niemeyer? Às vezes, eu paro para pensar nisso e até me assusto. Como a vida tem momentos e a gente mal se dá conta”, reflete.
Kátia conta que, entre uma burocracia e outra para tirar as ideias do papel e transformar os rascunhos em bordado, o arquiteto não se furtava em perguntar sobre a rotina na capital que traçou. “Ele tinha uma curiosidade muito grande sobre a vida na cidade, nas quadras, as impressões que as pessoas tinham”, lembra. “Disse para ele: ‘que bom que foi o senhor que fez Brasília, doutor. Se não fosse, ela seria um grande prédio de vidro azul espelhado e chão de granito”, relembra.
O principal fruto da conversa, no entanto, ainda prospera. Foi a partir dos bordados dos traços do arquiteto que Kátia criou a Apoena. Pouco depois da exposição, levou o trabalho das bordadeiras ao salão de negócios do Fashion Rio, semana de moda carioca, onde as flores do cerrado em ponto e linha foram sucesso de venda. Em 2007, a marca fez sua estreia na passarela do evento. As apresentações foram aplaudidas pela crítica até a edição de verão 2010.
Tanto tempo depois dos quadros, de onde nasceram os primeiros pontos dos bordados da Apoena, Kátia ainda não se desapegou dos traços de Niemeyer. “Ele costumava dizer que Brasília é uma mulher. É daí que vem minha inspiração para a Apoena. É essa feminilidade das linhas curvas que tento imprimir no nosso trabalho”, resume a empresária. O quadro com o Poema da curva, em destaque na parede do ateliê, não deixa ninguém por ali se esquecer disso.

Leia a matéria na íntegra, na edição impressa da Revista do Correio

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