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Estado de Minas COMPORTAMENTO

Um brinde à igualdade

Em uma cerimônia ao pôr do sol, Glauber e Nildo trocaram votos e fizeram valer os direitos deles %u2014 um exemplo para muitos


postado em 09/12/2012 08:00 / atualizado em 07/12/2012 18:12

(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
 

Foram cinco meses de preparativos para que tudo saísse como o sonhado, do bolo ao convite, passando pela escolha dos ternos. Finalmente, em 1º de dezembro, o bancário Glauber Oiveira, 31 anos, e o estudante de direito Nildo José Gondin, 34, trocaram alianças. Eles fizeram valer os direitos da união homoafetiva, confirmados em julgamento histórico do STF, em maio do ano passado. Isso inclui a escolha do regime de bens, a licença nubente no trabalho, a alteração dos sobrenomes de ambos, a inclusão do cônjuge no plano de saúde. “Consideramos esse um ato de amor, mas também um ato político. Hoje, temos o direito, assim como outros casais heterossexuais, de formar uma família, mesmo que não seja nos moldes tradicionais”, comemora Glauber.

Primeiro encontro
Um preferia o dia. O outro, a noite. Até que, em uma manhã de 2010, Nildo e Glauber driblaram os ponteiros. A recordação da primeira vez em que se encontraram teve direito à trilha sonora. Eduardo e Mônica, da Legião Urbana, marcou a geração desses jovens e foi parar como “reflexão” no convite do casamento que se daria dois anos depois. “Nossas afinidades falaram mais alto que o ritmo e estilo de vida de cada um. Bem como o refrão: ‘Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração e quem irá dizer que não existe razão’”, declara Nildo.

Vida a dois
Com o passar dos meses, o namoro ficou sério. Após um ano, veio a decisão de morar juntos. Aprenderam a dividir o mesmo espaço e começaram a planejar os próximos capítulos da vida a dois. Como outros casais, independentemente da orientação sexual, Nildo e Glauber tiveram que ceder aqui e ali. Tornaram-se mais caseiros e só deixavam o apartamento onde moram, no Guará, para fazer caminhadas ou outras atividades físicas. Domingo, então, virou sinônimo de acordar cedo para remar no Lago Paranoá. “Já avisei logo para ele que não iria seguir um ritmo notívago”, brinca Nildo. Glauber não se incomodou. Apostou na mudança e ficou à vontade para criar outra rotina.

Pedido de noivado
Estudante de direito, Nildo pesquisou a legislação acerca do casamento gay no Brasil. O resultado seria o trabalho de conclusão de curso. Nesse período, soube da possibilidade de se casar no civil com o companheiro. Não demorou mais de 24 horas para agilizar os documentos e buscar um cartório a fim de oficializar a união. “Tive que derrubar crenças. Foram tantos anos me sentindo inadequado e à margem de tantos direitos. Isso até constatar que era possível me casar com o homem que eu amo”, desabafa Glauber.

Preparativos e percalços

Data e horário definidos, o casal teve menos de seis meses para escolher o local, enviar os 50 convites — feitos por eles — e comprar os ternos do grande dia. As alianças de prata foram desenhadas e confeccionadas por Nildo. E a ansiedade crescia passados os meses. “Houve até regime para o casamento”, conta a assessora jurídica Marina Quezado, 35 anos, amiga de Nildo há 15. A mãe de um dos noivos deixa escapar que não foi bem assim. “Ele até me disse que estava controlando a alimentação para a cerimônia. Só que sempre aparecia com brigadeiro e pudim”, brinca dona Maria Odete Gondim, 70, que respeitou e comemorou a decisão do filho. Aliás, os amigos também foram imprescindíveis durante a véspera do casamento. Mais experiente do grupo, o contador Sandro Candiles, 40, foi convidado para ser padrinho. Ele mesmo já se casou três vezes, mas não faz votos de fracasso à instituição. Pelo contrário, encorajou os noivos a apostar na cerimônia. “Não sei se me casaria de novo, mas acredito no amor e tenho certeza de que o encontro deles tem tudo para dar certo”, aposta.

 


O grande dia
O sonho de um casamento ao pôr do sol ficou comprometido com a previsão de trovoadas em 1º de dezembro. As nuvens, porém, se dissiparam na hora do evento, às 18h. No restaurante Aquavit (Setor de Mansões do Lago Norte), Nildo e Glauber desceram juntos as escadas para a celebração no jardim. Convidados a postos, a entrada dos noivos foi um momento de grande expectativa. Até mesmo a equipe do restaurante, e o próprio chef Simon Lau, deram sinais de ansiedade ao assistir à primeira união homoafetiva realizada no badalado local. “Nos sentimos muito à vontade para recebê-los porque não há diferenças quando o assunto é amor. Seria bom que outros pensassem o mesmo”, disse o chef.

 

Leia a matéria na íntegra, na edição impressa da Revista do Correio 

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