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Estado de Minas MEDICINA

Quando o estresse aflora na pele

Doenças de fundo emocional que afetam a pele demandam tratamento com remédios e auxílio psicológico.Autocontrole é o melhor paliativo em momentos de crise


postado em 23/12/2012 08:00 / atualizado em 22/12/2012 21:18

Ainda que nem sempre dê para gritar, esbravejar ou descontar a raiva, de uma forma ou de outra, o organismo dá um jeito de colocar as emoções para fora. No caso de pacientes com doenças psicossomáticas (termo usado para definir enfermidades físicas ou não fortemente influenciadas pela mente), o estresse fica, literalmente, estampado. Quando essas irritações se manifestam na forma de doenças na pele, o nome do quadro muda para psicodermatose.

O fim de um relacionamento, a perda do emprego ou mesmo aborrecimentos banais podem desencadear crises incontroláveis. Segundo um estudo feito em 2003 pelo Departamento de Psiquiatria da Universidade Western Ontario, no Canadá, mais de 40% das crises e das manifestações cutâneas estão relacionadas a transtornos psiquiátricos. Isso não quer dizer que pacientes com psoríase, vitiligo, dermatite atópica ou dermatite seborreica sejam, por exemplo, depressivos. Mas alguns sintomas podem sim estar presentes na vida dessas pessoas. “De todos os pacientes que se consultam com problemas dermatológicos, 30% a 40% têm alguma dificuldade no seu estar, no seu viver”, reforça Luciana Conrado, coordenadora do Departamento de Psicodermatologia da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). “Não precisa ser depressão, mas há sintomas depressivos e de ansiedade.”

De acordo com a médica, o diálogo emoções-epiderme passa pelos sistemas endócrino e nervoso. “Existe um sistema psiconeuroimunoendocrino que se manifesta na pele e o estresse é um fator importante”, explica Conrado. Em outras palavras, a pele reage a hormônios, como a adrenalina e o cortisol, produzidos em maior escala durante situações tensas. O excesso afeta o sistema imunológico e deixa o organismo mais exposto a problemas dermatológicos.

Roberto Doglia Azambuja, médico dermatologista e especialista em psicodermatose, explica que fatores emocionais atuam em todo o organismo o tempo todo. “Cada emoção corresponde a um estado bioquímico — as emoções são mediadas por substâncias químicas produzidas pelo cérebro sob a influência dos pensamentos”, detalha.

São os pensamentos que facilitam as ações humanas, ou seja: são eles que nos impulsionam a agir, a ter confiança, disposição e a tomar decisões. Contudo, são eles que também podem nos tirar a energia e o ímpeto, criando ansiedade e estresse. Mais do que um fator abstrato, a força da imaginação gera substâncias químicas, que desencadeiam emoções ao serem captadas pelos receptores da superfície das células. “A depender dos pensamentos, as emoções podem ser prazerosas ou não — e elas vão ter efeito sobre os sistemas endócrino e imunológico, prejudicando suas funções.” A depressão imunológica e as alterações endócrinas, segundo o médico, são alguns dos principais mecanismos responsáveis pelo agravamento de doenças.

Marly Marques da Rocha, diretora da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia (Asbai), diz que, além dos problemas de pele, algumas alergias pioram ao sinal de estresse. Coceira, vergões na pele (dermografia) e dermatites já instaladas são alguns exemplos. “O paciente alérgico já tem o sistema imunológico muito exacerbado”, explica. “Neles, os linfócitos T (células relacionadas à alergia) liberam substâncias inflamatórias que desencadeiam a coceira.” A sobrecarga emocional, uma noite de sono mal dormida e a própria predisposição individual são alguns dos responsáveis pelo descontrole.

Como se não bastasse os olhares das pessoas, Elias Barros de Magalhães, 54 anos, sofreu com a desinformação até em consultórios médicos. “Alguns me passaram remédios ginecológicos, porque disseram que o que eu tinha era só uma ‘irritaçãozinha’”, conta o motorista. Há 15 anos, Elias descobriu ter psoríase, mas só começou o tratamento três anos depois. Nesse intervalo, Elias caiu em várias armadilhas. De garrafadas milagrosas a médicos que o aconselharam isolamento —, pois “a família é o cerne de todos os problemas”, lhe disseram.

Ter acreditado em tantas promessas não cumpridas não é questão de inocência, garante Elias. “Quase todos os pacientes caem nessas promessas porque você quer se ver livre dessa situação”, justifica. As manchas esbranquiçadas custaram o futebol do fim de semana, os banhos de piscina e as camisetas sem manga. A cada novo tratamento, o motorista via a expectativa se transformar em frustração. Ao mesmo tempo, algumas situações deixavam a vida de Elias mais difícil, como a ocasião em que foi expulso de uma piscina pública, vítima da ignorância dos outros banhistas.

Até mesmo o caso do ex-deputado distrital Rubens César Brunelli Júnior, acusado de ter desviado, em 2009, R$ 1,7 milhão de recursos públicos destinados a projetos de uma associação comandada por ele, tirou o sono de Elias. “Eu sou evangélico como ele e, pode até parecer bobagem, mas esse caso me deixou 100% afetado. Fui até internado”, conta. Hoje, Elias encontrou um tratamento sério, melhorou e diz que já se sente “um cara mais tranquilo consigo mesmo”. Gladys Martins, coordenadora do Ambulatório de Psoríase do Hospital Universitário de Brasília (HuB), explica que casos como o de Elias demonstram como as situações angustiantes têm poder de influenciar em muitos aspectos da saúde. “A sequência de eventos imunopatológicos parece ser desencadeada ou agravada por fatores externos, entre eles, o estresse emocional, que agiria como um gatilho.”

Leia esta matéria na íntegra na edição nº396 da Revista do Correio.

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