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Correio Braziliense REPORTAGEM DE CAPA

De Brasília para o mundo

Eles esbanjam juventude e encontraram na cidade, igualmente jovem, a inspiração que precisavam para aflorar o talento. Conheça quatro brasilienses que, em suas áreas, têm o trabalho reconhecido no mercado nacional e internacional


postado em 17/02/2013 08:00 / atualizado em 15/02/2013 19:19

Brasília é uma cidade nova. Poucas gerações, portanto, nasceram, cresceram e saíram do mercado de trabalho daqui. Mas, ao longo desses 52 anos de história, um perfil de profissionais brasilienses tem se estabelecido no circuito nacional. Essa gente criativa, com um apelo estético, na faixa dos vinte e poucos anos, recém-saída da faculdade, tem roubado a cena — e chegado aos principais ateliês e estúdios de arte, arquitetura, moda e design do Brasil e fora dele também.

São jovens nascidos ou formados na cidade que, de alguma forma, foram influenciados pelas curvas de Oscar Niemeyer, as interferências de Athos Bulcão, o formato reto do nosso horizonte e a dinâmica urbana da Brasília projetada por Lucio Costa. "Não há como negar a importância de ter sido criado em uma cidade tão diferente quanto a nossa", avalia o estilista Tarcísio Brandão. "Ela não está diretamente representada em nosso trabalho, mas, de alguma forma, essa maneira louca de se viver aqui influencia o que criamos e, assim, como criamos. No mínimo, nos faz pensar fora da caixa, fora do normal", conclui.

O artista plástico Virgílio Neto vai mais longe. Apesar de não ter nascido na cidade, veio novo para cá estudar e se estabeleceu profissionalmente na cidade. "Acredito que o brasiliense é exposto a mais culturas que o resto do país. Temos uma cabeça mais aberta para entender o que é o Brasil. A gente conhece gente de tudo o que é lugar, viaja para tudo o que é lugar. Somos mais interessados em conhecer o que é de fora porque ainda não temos a nossa própria cultura", analisa.

Além das inspirações óbvias — a simplicidade dos desenhos de Niemeyer e também os despretensiosos azulejos de Athos Bulcão —, existe a dinâmica de funcionamento da cidade. "Parece que Brasília foi projetada para as pessoas criarem. Como não andamos na rua, saímos de casa com um destino e voltamos para casa desse destino, há espaço de sobra para a nossa ociosidade criativa. Os jovens brasilienses, por não ficarem tanto fora, têm tempo de sobra para desenhar, criar, ler, pesquisar", crê o artista audiovisual Pedro Ávila.

Esse "marasmo", no entanto, acredita o arquiteto Humberto da Mata, também pode atrapalhar. "Acho que temos acesso a menos materiais, menos exposições. Somos obrigados a nos deslocar mais para conhecer outras coisas. A cidade nos expõe sempre ao mesmo", acredita. E aí começa aquela velha história: é preciso sair de Brasília para conseguir se estabelecer nessas áreas criativas. Entre muitos outros brasilienses que, em seus vinte e poucos anos, têm se destacado, a Revista sentou para conversar com quatro jovens que viajam o mundo ou o Brasil expondo o trabalho de quem nasceu e foi criado na cidade.

(foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)
(foto: Janine Moraes/CB/D.A Press)

Desbravando um labirinto
Tarcísio Brandão teve aquela velha dúvida quando se formou no ensino médio: ficar em Brasília ou sair daqui. Queria fazer moda e tinha noção de que o mercado de trabalho é complicadíssimo na cidade. Cheio de dúvidas, resolveu fazer um intercâmbio na Alemanha. "Sair da minha zona de conforto e do meu país foi o ideal para mim. Tive tempo de pensar exatamente no que queria fazer", avalia. Voltou ao país com um plano de vida traçado.

Inscreveu-se na Faculdade de Moda da Santa Marcelina, em São Paulo, com o ideal de descobrir o que era a identidade da moda brasileira. "Ali, senti como as pessoas enxergam a nossa cultura e como são bonitas as coisas que criamos." Dentro do ambiente escolar, começou a fazer seus trabalhos direcionados para essa área. Fora de lá, decidiu que era hora de arrumar um emprego. Foi assistente de estilo do André Lima, trabalhou como freelancer para Nextel, Puma e LG. Mas, na hora de concluir o curso, decidiu parar tudo para desenvolver o trabalho autoral.

Tudo começou na psicanálise. Tarcísio iniciou sessões para se autoconhecer e mal sabia que ali seria o ponto de partida para as suas peças. Ao ler livros e se aventurar nesse universo, descobriu que a área da psicologia usa o labirinto como forma de representar essa busca por se conhecer. Essa referência vem da mitologia grega sobre o fio da vida. As jovens moiras eram responsáveis por tecer o destino de todos os indivíduos. Esse era o ponto que precisava para começar a trabalhar com as roupas. Fez algumas peças em tricô.

O estilista necessitava, porém, partir para outros materiais. E, assim, descobriu a renda labirinto no Ceará. Foi para a comunidade do Cumbe pesquisar sobre a técnica. Lá, com as costureiras, desenvolveu estampas. Faltava o toque de modernidade. Escolheu o símbolo do QR code. "Essa representação tão moderna nos lembra um labirinto também." Ele inseriu os códigos nas etiquetas e na estampa de algumas peças. Todas as referências estavam prontas e costuradas entre si.

A coleção ficou pronta no fim do ano passado. Quando mostrou aos professores, foi selecionado para participar do desfile final da faculdade — no qual os melhores projetos dos alunos formados são apresentados para uma plateia selecionada de empresários, jornalistas e entendedores do assunto. Tarcísio recebeu críticas excelentes. Foi considerado o melhor projeto de moda contemporânea e ficou em segundo lugar geral, de acordo com o júri especializado.

Saiu de lá com o convite para desfilar na Casa de Criadores — que só deve se apresentar em outubro para dar tempo de criar uma nova coleção —, além de três propostas de emprego: da Lenny, da Osklen e do Instituto-e — projeto da Osklen de pesquisa de tecidos ecológicos. Mudou-se para o Rio de Janeiro há duas semanas para decidir o destino. "Além de a minha moda ser mais carioca, tinha que sair de São Paulo. Sou brasiliense e preciso ver o horizonte. Pelo menos no litoral eu tenho a opção de encontrá-lo na praia."

Leia esta matéria na íntegra na edição nº 405 da Revista do Correio.

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