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Correio Braziliense COMPORTAMENTO

Quanto mais amador, melhor

Lomografia é o nome por trás da onda de revalorização da fotografia analógica: das máquinas de plástico coloridas e com charmoso visual retrô aos blogs e sites que ensinam como brincar com os filmes


postado em 24/03/2013 08:00 / atualizado em 22/03/2013 13:59

Há não muito tempo, quando chegaram ao mercado as primeiras câmeras fotográficas digitais trazendo com elas uma extensa lista de recursos sofisticados, as antigas máquinas analógicas com seus filmes de 24 ou 36 poses foram parar em fundos de gaveta. Álbuns de fotos 10x15cm ganharam status de relíquia, laboratórios de revelação e fabricantes de material fotográfico fecharam as portas e é bem possível que, a essa altura, esse arsenal enorme de lembranças de papel seja completamente desconhecido para toda uma geração que deu seu primeiro sorriso ainda banguela para uma câmera de 16 megapixels de resolução de imagem e potente zoom ótico.

Ou não. Um grupo de fotógrafos — amadores, profissionais, com anos de estrada ou tendo o aplicativo-febre Instagram como única experiência fotográfica — voltam-se agora para as velhas câmeras, que já estavam quase servindo apenas como objetos de decoração. Posicionar um dos olhos no visor da câmera, escolher o melhor enquadramento possível e só ver o resultado depois do filme revelado voltou a ser cool. Se a câmera tiver visual retrô, com carinha de fabricada nos anos 1970, melhor ainda.

(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)

Embora alguns fotógrafos profissionais nunca tenham abandonado completamente os rolos de filme, provavelmente os grandes culpados pelo movimento sejam dois estudantes austríacos que nos anos 1990 descobriram um atrativo nas imagens distorcidas e de pouca qualidade produzidas por câmeras subsidiadas pelo governo soviético e fabricadas na época pela Leningradskoye Optiko Maechanischesckoye Obdyedinenie, ou simplesmente LOMO. Quando a União Soviética deixou de fabricar as câmeras, eles assumiram a produção e criaram a Lomography, que hoje tem como marca registrada câmeras analógicas de plástico colorido, com visual retrô, que produzem as mesmas imagens distorcidas da original russa.

"Mas a lomografia virou uma linguagem", considera Philippe Machado, gerente regional da Lomography no Brasil. "Hoje, a gente considera que qualquer câmera analógica de poucos recursos e fácil manuseio é lomográfica. Não precisa ter a nossa etiqueta", garante. Além do visual das fotos — na verdade defeitos causados pela baixa qualidade das lentes, geralmente de plástico —, a lomografia tem regras próprias, propostas ainda no início do movimento pelos seus criadores. Não pensar a fotografia, carregar a sua câmera para onde quer que você vá e não se preocupar com o resultado são algumas. Sendo assim, mesmo câmeras comuns dos anos 1990, do tipo que era preciso apenas mirar, fotografar e girar a alavanca para passar a pose do filme, ganharam espaço entre novos fotógrafos de tempos antigos.

(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)

"A lomografia, na verdade, é um jeito de encarar a fotografia. Num momento em que as câmeras te dizem sempre que você precisa tirar fotos o mais próximo da perfeição que puder, ela vem propor justamente o contrário", analisa André Correa, fotógrafo amador, amante de rolos de filme e autor do blog Queimando Filme, onde há pouco mais de um ano compartilha experiências fotográficas e divide dicas com leitores iniciados e iniciantes. "A fotografia analógica é um universo muito maior. A lomografia está inserida nele e eu acabei adotando para minha forma de fotografar, independentemente da câmera que eu carrego. A coisa do hobby, do experimentalismo, da displicência. As câmeras são de plástico e coloridas justamente para te lembrar que aquilo não deve ser levado a sério", comenta.

Assim como a página de André, a internet está cheia de outros blogs e fóruns em que fotógrafos analógicos — lomógrafos ou não — compartilham acertos e erros com seus rolos de filme. Nada de escolas caretas ensinando técnicas tradicionais de luz e enquadramento. O Lomogracinha, por exemplo, assinado por três amigas, acabou virando referência para quem busca mais informações sobre o que fazer com um equipamento recém-adquirido ou que tipo de filme escolher antes de sair fotografando. "O mais legal da fotografia analógica, na minha opinião, é aquele gostinho de não saber se a foto saiu e como ela vai ficar. De pegar o filme revelado e dizer ‘Nossa, nem lembrava dessa foto!’", observa Larissa Coutinho, 25 anos, designer e uma das autoras do blog, com Natália Nambara e Julie Fernanda.

Por onde começar?
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A.Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A.Press)
Normal ficar um pouco perdido na hora de escolher sua primeira câmera. Normal também comprar a mais bonita só pelo visual e se esquecer das especificações. Mais normal ainda é se frustrar com o resultado do seu primeiro filme. Tudo isso faz parte da iniciação ao mundo da fotografia analógica, segundo garantem seus adeptos. E foi justamente por tudo isso que a estudante Isabella Pina, 21 anos, passou quando começou a se aventurar pela fotografia analógica, há um ano. Primeiro, na hora da escolha da câmera. A eleita, um dos modelos mais populares entre os lomógrafos, leva filme de médio formato, mais difícil de ser encontrado do que os comuns, de 35mm. "Ela é linda. Mas o filme é um problema. É caro e difícil. Mas descobri agora uma maneira de adaptar o filme comum nela!", comemora.

A falta do visor de LCD, que para a autora do Lomogracinha é um atrativo, também se revelou um obstáculo nos primeiros passos de Isabella. "Não dá para ver a foto na hora, então você não tem muita ideia do que está fazendo. No meu primeiro filme, de 12 fotos, só saíram seis!", lembra. Dois filmes depois, ela garante que, aos poucos, está pegando o jeito. "Faz parte. Todo mundo passa por isso", observa. Além da câmera analógica tradicional, Isabella adquiriu recentemente uma instantânea, releitura das antigas Polaroids, que ela guarda principalmente para eventos e reuniões com os amigos. "É um sucesso. Onde eu chego com ela, as pessoas se reúnem em volta. Fiz as lembrancinhas do batizado da minha priminha com ela. Tirava foto dos convidados e entregava na hora", conta.

Acertos, erros e frustrações fazem parte do processo. Mas, para economizar nos dois últimos, a dica de André Correa, do Queimando Filme, é ler muito antes de tirar o cartão da carteira. "Muita gente com vontade de começar me pergunta no blog qual é a melhor câmera a ser comprada. Mas você não quer a melhor câmera. A melhor câmera custa R$ 20 mil. Você quer a que melhor que se adequa a seu objetivo. E é isso o que você precisa saber", resume o especialista. "A minha dica é não sair comprando. É ler bastante, procurar em sites, em blogs, revistas e fóruns até ter em mente o que você deseja fotografar. Aí sim", conclui.

Levando a sério
(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)

Mesmo associada a algo amador e experimental, a lomografia tem lá seus adeptos que levam a coisa um pouco mais a sério. O fotógrafo Jorge Sato é hoje uma referência mesmo entre amadores no assunto. O primeiro contato foi em 2008, quando trabalhava como assistente no estúdio de um fotógrafo de Fine Art, cujo trabalho era, segundo ele, 99,9% analógico. "A lomografia entrou na minha vida como forma de transição entre o digital e o analógico, mas o que era para ser passageiro acabou virando destino. Hoje em dia, uso as câmeras como hobby e trabalho muito mais com elas do que as digitais", conta o lomógrafo.

Não que as digitais não tenham seu espaço, em trabalhos comerciais, por exemplo, quando, segundo ele, olhar o resultado no visor de LCD "salva a pátria". Mas aderir à técnica analógica lhe trouxe outros benefícios como profissional. "As digitais são rápidas, práticas e com poses ‘infinitas’. Tudo isso é ótimo, mas tende a nos deixar preguiçosos. Nas analógicas, você pensa e imagina primeiro para depois clicar. Nas digitais, você clica para depois ver. É muito mais cômodo, então a evolução do seu olhar e da sua linguagem visual acabam sofrendo com isso", diz. "Quando você pega uma linguagem teoricamente simples como a lomografia e a desenvolve, você acaba criando algo diferente", continua.

Quanto à volta da câmera de filme entre os desejos de consumo, mesmo de leigos em fotografia, ele acredita que as pessoas estão cansadas da estética imposta pelas digitais. "As pessoas estão enjoando das fotografias convencionais, já que as vemos o tempo todo e por todo o mundo. Elas querem algo diferente e criativo, nem que isso seja mais lento e trabalhoso. Esse processo ajuda a dar mais valor às suas fotos", diz.

Um clique, uma surpresa
Experimentar e chegar a resultados novos e incalculáveis na hora da revelação é um dos grandes atrativos da fotografia analógica. Mas, se você é estreante, certifique-se de ter em mãos o filme mais barato que encontrar. Nem sempre dá certo! E essa é parte da graça.

- Processo cruzado ou X-Pro // Ao contrário do que alguns acreditam, cores irreais ou supersaturadas não são mérito de câmeras, e sim dos filmes e do processo de revelação. O cruzado é um dos mais usados pelos lomógrafos. Consiste em revelar um filme do tipo cromo com o químico usado usualmente para revelação de filmes negativos comuns, chamado C41. É só levar seu filme cromo para o laboratório e explicar a gambiarra.
- Filme fervido // Esse é um processo relativamente conhecido por fotógrafos experimentadores. É só ferver o filme — pode ser qualquer um — na água por entre cinco e 10 minutos, deixar secar naturalmente, carregar uma câmera e sair fotografando.
- Quente e frio // Esqueça a história de guardar seu filme dentro da caixinha escura protetora e protegê-lo da variação de temperatura mantendo-o na geladeira. Aqui, a ideia é testar a resistência da película, submetendo-a a seguidos choques térmicos. Mergulhe o rolinho em uma bacia de água quente e, em seguida, leve-o ao freezer por algumas horas. Repita a operação de duas a três vezes. O processo geralmente altera as cores das fotografias.
- Redscale // O efeito alaranjado nas fotos já é tão popular que, hoje em dia, dá até para comprar o filme pronto para usar. A versão caseira consiste em usar a película "do avesso", de modo que a primeira camada do filme a receber luz seja a vermelha, o que dá o aspecto colorido às imagens. Para tentar, é só emendar a parte traseira (mais escura) do filme novo em um resto de película (essa sim do lado correto) de um rolo de filme vazio com uma fita adesiva. Em um quarto escuro, enrole o filme novo no rolo antigo e, depois, corte o fim da película para separar os dois rolos. Pronto, o filme está invertido e pronto para ser usado.

Aprender (quase) sozinho
A internet é a maior escola de fotógrafos amadores. Blogs, sites e fóruns sobre o assunto reúnem desde informações sobre os primeiros passos até experiências sofisticadas para iniciados. Veja algumas dicas de onde você pode buscar mais sobre fotografia na rede:

Lomogracinha (www.lomogracinha.com.br) // O blog é assinado por três fotógrafas amadoras de 20 e poucos anos. Lá, dá para pegar dicas sobre por onde começar no mundo da fotografia analógica, se informar sobre câmeras, filmes e processos de revelação e conferir o resultado das aventuras das meninas com suas câmeras para tentar reproduzir em casa.

LomoBR (www.lomobr.com.br) // Mesmo com pouca atualização o blog reúne um bom acervo de publicações sobre lomografia, foto com câmeras analógicas profissionais antigas, instantâneas e mesmo modelos de plástico dos anos 1990, como as famosas Olympus.

Queimando Filme (www.queimandofilme.com) // O blog é recente, mas já é um dos grandes começos para aventureiros analógicos. O conteúdo é separado por assunto, o que facilita na hora de procurar informação, desde a escolha do equipamento, passando pelo filme até os processos de revelação. A página tem inclusive uma parte dedicada apenas a iniciantes.

Lomography Magazine (http://www.lomography.com.br/magazine) // É uma espécie de rede social da Lomography, na qual os lomógrafos criam uma conta e mostram seus resultados, compartilham novas experiências com filmes e revelações e avaliam os equipamentos.

Lomografia em 10 regras
Quando os estudantes austríacos descobriram lá nos anos 1980 as câmeras soviéticas e inventaram a lomografia, criaram uma espécie de conjunto de mandamentos para que os adeptos das câmeras de plástico seguissem quando carregassem suas câmeras com filme:

Leve sua câmera onde quer que você vá.
Fotografe a qualquer hora do dia ou da noite.
A lomografia não interfere na sua rotina. Faz parte dela.
Aproxime-se o máximo que puder do objeto a ser fotografado.
Não pense.
Seja rápido.
Você não precisa saber antecipadamente o que exatamente vai fotografar.
Nem posteriormente.
Não fotografe com os olhos.
Esqueça toda as regras.

 

(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)
 

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(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)

4 - Para matar a saudade, Vintage Polaroid, à venda no www.urbanoutfitters.com (US$ 180)

5 - Instantânea, com fotos de 5,4 X 8,6 cm, Instax Mini, na Fujifilm (R$ 349 com 20 chapas)

(foto: Divulgação)
(foto: Divulgação)

6 - Top seller, a Diana F+ CMYK leva película 120mm, no shop.lomography.com/br (R$ 349)

7 - Panorâmica, com controle de ISO, a Belair X 6-12 City Slicker é um dos mais recentes lançamentos da Lomography e leva filme 120mm, no shop.lomography.com/br (R$ 709)

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