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Correio Braziliense REPORTAGEM DE CAPA

Uma galeria sem limites

A arte contemporânea é assim: esquiva, nômade, aberta a interpretações. Selecionar o que foi feito de melhor na área nos últimos 10 anos é tarefa heroica. Por isso, a Revista apenas sugere um itinerário entre muitos possíveis


postado em 24/03/2013 08:00 / atualizado em 22/03/2013 18:41

O que a estátua de um homem nu colocada no coração de uma metrópole e a reprodução da Mona Lisa, de Da Vinci, com calda de chocolate têm em comum? Ao seu modo, cada uma dessas obras tira o espectador da zona de conforto. Elas provocam os cinco sentidos, instigam novos pensamentos e constroem significados inusitados. Concebidas por Antony Gormley e Vik Muniz, respectivamente, essas obras são um exemplo de como a arte contemporânea questiona e se questiona a todo momento por meio de diferentes suportes — fotografia, pintura, desenho, instalação, performance, vídeo, escultura.

Na terceira reportagem sobre o que a primeira década do século 21 produziu de melhor, abordamos criadores e obras-chaves dessa aventura sensorial, que, muitas vezes, extrapola os limites das galerias. Para isso, nos valemos de importantes publicações sobre o tema, como a Art Review e a The Art Newspaper; mapeamos os acervos de prestigiados museus e observamos o perfil de leilões internacionais, como o Christie’s o Sotheby’s.

Também buscamos a opinião de especialistas, que preferiram se abster da escolha de nomes, mas aceitaram responder algumas questões acerca da produção atual. Não há consensos, mas alguns eixos nos servem de farol. Sabemos, por exemplo, que a arte de nossos dias busca o diálogo com o grande público — e que, com frequência, é muito instigante.

Primeiro, a prata da casa…
Eis um terreno em que ser ufanista até faz sentido. Nossos artistas estão megavalorizados no mercado internacional e conseguem atrair público para seus projetos e happenings. Os nomes a seguir se tornaram inevitáveis, mas a escolha é arbitrária — existem muitos outros dignos de destaque.

(foto: Milhazes/Divulgação)
(foto: Milhazes/Divulgação)

Beatriz Milhazes — O mágico
É fácil reconhecer uma obra dessa pintora, gravadora e ilustradora carioca pela profusão de cores e formas que parecem hipnotizar o espectador. Milhazes, 53 anos, faz parte da geração 1980 de artistas brasileiros, grupo que buscou retomar a pintura e se opôs ao viés conceitual dos anos 1970. Novas técnicas e materiais marcam o trabalho dessa artista cuja obra faz referência ao barroco, a padrões ornamentais e à art déco, e faz parte dos acervos do Museu de Arte Moderna e do Metropolitan, ambos em Nova York, e ainda do Museu Rainha Sofia, em Madri. Para entender a reverberação desse trabalho, basta lembrar que a tela Maresias (2002) estampa o segundo volume do livro Art Now (Ed. Taschen), coletânea que mapeia a produção artística contemporânea mundial. Valorizada no mercado, em 2008, Beatriz Milhazes passou a ser a artista brasileira viva que alcançou o maior preço em uma obra: O mágico (2001) foi vendido no leilão internacional do Sotheby’s, em Nova York, por US$ 1.049 milhão. Ano passado, novo recorde com a venda de Meu limão (2008), também na Sotheby’s, por US$ 2.098 milhões. "A pintura da Beatriz Milhazes concentra forte carga simbólica e atemporal, pois, simultaneamente, nos remete à tradição barroca e à arte pop contemporânea. Muito cedo, Beatriz encontrou o fio da meada para construir sua linguagem. Suas composições e experimentações plásticas avivam a retina e agradam aos olhos. Não à toa, sua obra se transformou em objeto de desejo", constata o artista e curador Wagner Barja, diretor do Museu Nacional do Conunto Cultural da República.

(foto: Reprodução da internet)
(foto: Reprodução da internet)

Cildo Meireles — Desvio para o vermelho
Declarado como o artista brasileiro favorito da curadora Tanya Barson, responsável pela arte latino-americana no Tate Modern, em Londres, Cildo Meireles é sem dúvida um dos principais nomes da cena contemporânea. Versátil, esse carioca de 65 anos teve seu primeiro contato com a arte em Brasília, em 1963. Quatro anos depois, mudou-se para o Rio de Janeiro e se tornou um dos fundadores da Unidade Experimental do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM), em 1969. Cildo trabalha com questões como tempo, espaço e política, e teve peças expostas em bienais e importantes museus. No acervo de Inhotim, o público pode conferir Desvio para o vermelho (1967-1984), um de seus trabalhos mais divulgados. Concebida em 1967, montada em diferentes versões desde 1984 e exibida em Inhotim em caráter permanente desde 2006, a instalação é formada por três ambientes articulados. O texto que acompanha a obra explica a intenção do artista, que consegue perturbar a visão do espectador com os excessos de vermelho em cada móvel e objeto: "Aberta a uma série de simbolismos e metáforas, desde a violência do sangue até conotações ideológicas, o que interessa ao artista nesta obra é oferecer uma sequência de impactos sensoriais e psicológicos ao espectador: uma série de falsas lógicas que nos devolvem sempre a um mesmo ponto de partida".

O mundo ficou pequeno para eles…
A geopolítica da arte anda bem movimentada. Já não há uma produção claramente hegemônica. Seria equivocado, por exemplo, cravar que os europeus dão as cartas. Tem muita coisa boa vindo de asiáticos, de países periféricos. O fato é que os artistas aqui selecionados gozam de um prestígio de público e/ou de crítica que transcende fronteiras. Alguns são simultaneamente amados e odiados. Entenda o porquê.

(foto: Ben Stansall/AFP)
(foto: Ben Stansall/AFP)

Damien Hirst — A impossibilidade física da morte na mente de um ser vivo
"A arte é sobre a vida e não poderia ser sobre outra coisa... Não há outra coisa", afirma o artista britânico em sua página na internet. De fato, o trabalho de Damien Hirst, 48 anos, tateia a complexa relação entre arte, morte e vida, além de dissecar tensões e incertezas humanas em instalações, esculturas, pinturas e desenhos. Em 1991, o artista começou a trabalhar em uma das suas séries mais famosas, História Natural. Com a intenção de criar um "zoológico" de animais mortos, ele preservou alguns animais em um aquário de vidro em uma solução de formol. Um ano depois, o tanque que mantinha um tubarão ganhou o nome de A impossibilidade física da morte na mente de um ser vivo para sintetizar o pensamento do artista: "Algo que descreve um sentimento", disse Hirst na época. Essa obra permanece uma das mais icônicas da arte britânica na década de 1990. O tanque de vidro também simboliza, segundo o artista, a fragilidade da existência. Presente no acervo dos mais importantes museus do mundo, como o Tate Modern, em Londres, Damien Hirst é outro nome que não sai da lista dos 100 mais importantes artistas contemporâneos do mundo. Isso não impede a existência de críticos ferozes, que a atacam a "facilidade" da obra e o cinismo do discurso.

ENTREVISTA// Philip Larratt-Smith, vice-curador do Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires
(foto: Philip Larratt-Smith/Divulgação)
(foto: Philip Larratt-Smith/Divulgação)

Anunciado, recentemente, como vice-curador do Museu de Arte Latioamericana de Buenos Aires (Malba), o canadense Philip Larrant-Smith responderá pela programação de exposições temporárias, junto com Marcelo Pacheco, curador do Malba, e Eduardo Constantini, presidente da instituição. No entanto, desde 2011, Larrant-Smith já desempanhava o papel de curador de projetos internacionais no museu. Em entrevista por e-mail à Revista, o vice-curador do mais importante museu de arte contemporânea de Buenos Aires, aponta nomes de artistas latino-americanos que se destacam na cena contemporânea, e adianta, em primeira mão, que Brasília receberá uma mostra retrospectiva da maior artista japonesa em vida, Yayoi Kusama.

Quais artistas latino-americanos se destacaram na arte contemporânea nessa primeira década do século 21?
Não conheço o panorama artístico da América Latina em toda sua varidade, nem sou especialista, mas entre os que tiveram mais êxito figuram Guilhermo Kuitca, Jorge Macchi, Adriana Varejão, Beatriz Milhazes, Iran do Espírito Santo, Gabriel Orozco e Doris Saledo. Nomearia a alguns poucos artistas cuja obra me interessa especialmente nesse momento: Jac Leirner, Mariana Telleria, Matías Duvile e Fernanda Laguna. De toda forma, gostaria de enfatizar que a categoria "arte latino-americana" me parece obsoleta hoje. Os jovens artistas dessa região, já não se definem como artistas latino-americanos. Além disso, a arte não tem nacionalidade.


E quais seriam as obras de destaque na arte contemporânea desse século?

Na minha opinião, Shibboleth (2007), de Doris Salcedo, é a intervenção mais brilhante e de maior sucesso de todas as que já foram realizadas no Turbine Hall do museu Tate Modern, em Londres. Também figuram, Teddy Bear Project, de Ydessa Hendele, que foi exposta no Haus der Kunst em Munique 2003; a escultura de vidro Pink Tons, de Roni Horn, que integrou uma retrospectiva da carreira do artista no museu Whitney em New York; o vídeo Flooded McDonald’s do conjunto Superflex; além dos vídeos delirantes de Ryan Trecartin.

Nesse mesmo contexto, quais temas são os mais abordados pela arte contemporânea?
Muitos artistas que refletem sobre a atualidade, o que é muito valioso porque vivemos um momento de mudanças radicais. Mas os grandes temas seguem como os de sempre: a beleza, a morte, o sexo. O que muda é a psicologia do artista e o contexto em que ele faz a obra.

Então, a arte contemporânea está mais próxima do público que outras correntes artísticas de séculos anteriores?
Sim e não. Estou preparando uma retrospectiva sobre a obra de Yayoi Kusama para o Malba, que será a primeira exposição da artista japonesa na América Latina da artista japonesa. Ela será itinerante e chegará ao Brasil. Especificamente, ao Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de Brasília, em maio de 2014. Nesse caso, essa é uma obra muito acessível e não precisa ser "licenciado" em história das artes para entendê-la. Estou convencido de que a arte é, antes de qualquer outra coisa, uma experiência.


(foto: tecnoartenews.com/Reprodução da internet)
(foto: tecnoartenews.com/Reprodução da internet)

Polêmica e ousada, a obra da artista sérvia Marina Abramovic inclui o Manifesto sobre a vida do artista, escrito e divulgado pela artista 1997. Entre alguns pontos, Abramovic destaca aquilo que o artista deve possuir, quem amar e no que se inspirar. Confira:

1) a conduta de vida do artista:

- o artista nunca deve mentir a si próprio ou aos outros
- o artista não deve roubar idéias de outros artistas
- os artistas não devem comprometer seu próprio nome ou comprometer-se com o mercado de arte
- o artista não deve matar outros seres humanos
- os artistas não devem se transformar em ídolos

2) a relação entre o artista e sua vida amorosa:
- o artista deve evitar se apaixonar por outro artista

3) a relação entre o artista e o erotismo:

- o artista deve ter uma visão erótica do mundo
- o artista deve ter erotismo

4) a relação entre o artista e o sofrimento:

- o artista deve sofrer
- o sofrimento cria as melhores obras
- o sofrimento traz transformação
- o sofrimento leva o artista a transcender seu espírito

5) a relação entre o artista e a depressão:

- o artista nunca deve estar deprimido
- a depressão é uma doença e deve ser curada
- a depressão não é produtiva para os artistas

6) a relação entre o artista e o suicídio:

- o suicídio é um crime contra a vida
- o artista não deve cometer suicídio

7) a relação entre o artista e a inspiração:

- os artistas devem procurar a inspiração no seu âmago
- Quanto mais se aprofundarem em seu âmago, mais universais serão
- o artista é um universo

8) a relação entre o artista e o autocontrole:

- o artista não deve ter autocontrole em sua vida
- o artista deve ter autocontrole total com relação à sua obra

9) a relação entre o artista e a transparência:

- o artista deve doar e receber ao mesmo tempo
- transparência significa receptividade
- transparência significa doar
- transparência significa receber
- transparência significa receptividade
- transparência significa doar
- transparência significa receber
- transparência significa receptividade
- transparência significa doar
- transparência significa receber

10) a relação entre o artista e os símbolos:

- o artista cria seus próprios símbolos
- os símbolos são a língua do artista
- e a língua tem que ser traduzida
- Às vezes, é difícil encontrar a chave

11) a relação entre o artista e o silêncio:

- o artista deve compreender o silêncio
- o artista deve criar um espaço para que o silêncio adentre sua obra
- o silêncio é como uma ilha no meio de um oceano turbulento

12) a relação entre o artista e a solidão:

- o artista deve reservar para si longos períodos de solidão
- a solidão é extremamente importante
- Longe de casa
- Longe do ateliê
- Longe da família
- Longe dos amigos
- o artista deve passar longos períodos de tempo perto de cachoeiras
- o artista deve passar longos períodos de tempo perto de vulcões em erupção
- o artista deve passar longos períodos de tempo olhando as corredeiras dos rios
- o artista deve passar longos períodos de tempo contemplando a linha do horizonte onde o oceano e o céu se encontram
- o artista deve passar longos períodos de tempo admirando as estrelas no céu da noite


13) a conduta do artista com relação ao trabalho:

- o artista deve evitar ir para seu ateliê todos os dias
- o artista não deve considerar seu horário de trabalho como o de funcionário de um banco
- o artista deve explorar a vida, e trabalhar apenas quando uma idéia se revela no sonho, ou durante o dia, como uma visão que irrompe como uma surpresa
- o artista não deve se repetir
- o artista não deve produzir em demasia
- o artista deve evitar poluir sua própria arte

14) as posses do artista:

- os monges budistas entendem que o ideal na vida é possuir nove objetos:

1 roupão para o verão
1 roupão para o inverno
1 par de sapatos
1 pequena tigela para pedir alimentos
1 tela de proteção contra insetos
1 livro de orações
1 guarda-chuva
1 colchonete para dormir
1 par de óculos se necessário
- o artista deve tomar sua própria decisão sobre os objetos pessoais que deve ter
- o artista deve, cada vez mais, ter menos

15) a lista de amigos do artista:

- o artista deve ter amigos que elevem seu estado de espírito

16) os inimigos do artista:

- os inimigos são muito importantes
- o Dalai Lama afirmou que é fácil ter compaixão pelos amigos; porém, muito mais difícil é ter compaixão pelos inimigos
- o artista deve aprender a perdoar

17) a morte e seus diferentes contextos:

- o artista deve ter consciência de sua mortalidade
- Para o artista, como viver é tão importante quanto como morrer
- o artista deve encontrar nos símbolos da sua obra os sinais dos diferentes contextos da morte


18) o funeral e seus diferentes contextos:

- o artista deve deixar instruções para seu próprio funeral, para que tudo seja feito segundo sua vontade
- o funeral é a última obra de arte do artista antes de sua partida



Entre e fique à vontade

Para visitar
Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM)
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM)
Instituto de Arte Contemporânea e Jardim Botânico — Inhotim
Museu de Arte Moderna de Nova York (Moma)
Guggenheim em Nova York
Guggenheim em Bilbao
Museu Rainha Sofia em Madri
Tate Modern em Londres


A reportagem completa você lê na edição nº 410 da Revista do Correio.

 

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