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Polos maternos

Não importa o que façam ou como criam os filhos, mães são sempre julgadas. Isso porque não existe um modelo que sirva a todos. No século 21, há atitudes extremas e sobreposição de tipos. Mas uma só certeza: toda visão de maternidade pode e deve ser respeitada

Ser mãe sempre foi uma escolha. Entretanto, se hoje a liberdade de decidir criar ; ou não ; alguém é bem maior, as pressões sociais que recaem sobre aquelas que optam pela maternidade persistem. Os sutiãs queimados durante a revolução sexual deram mais poder de decisão às mulheres, é certo. Porém, a mudança na forma como elas encaram a maternidade ainda está em curso.

Apesar de não restarem mais dúvidas sobre a necessidade da presença delas na estrutura social, política e econômica, as dicotomias existem: de um lado, há os que demandam o retorno delas ao lar, sob alegação de que, dessa forma, fica mais fácil ; e mais barato ; oferecer uma melhor educação aos filhos. De outro, estão os que estimulam maior independência na relação entre mãe e filho, proporcionando a ambos maior capacidade de enfrentar a realidade e a futura separação.

"A luta da mulher para obter seus direitos não só foi uma das maiores mudanças na sociedade, como uma das que mais trouxeram saldos positivos. Porém, toda transformação tem seu preço: o dessa foi um certo grau de desmonte da estrutura familiar clássica, que era o ninho afetivo da criança, criando nas mulheres uma sensação de culpa constante", explica o pediatra Dioclécio Campos Jr., diretor de Assuntos Parlamentares da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Exigida ao máximo ; dentro e fora de casa ;, a mulher-mãe encontra dificuldade em entender que, por si só, o primeiro choro do bebê não a transforma em outra pessoa. Daí, é comum a mesma mulher que celebra as conquistas femininas se desesperar ao avistar o fim da licença-maternidade.

Chega a culpa na mesma velocidade que o julgamento alheio. Garantir o próprio espaço, delimitando o do filho na sua vida, ou ficar em paz com a consciência e entregar-se exclusivamente à experiência da maternidade? Há entusiastas e detratores de ambas as escolhas. Porém, existe a possibilidade de ser feliz e encontrar o equilíbrio em qualquer uma delas. Quatro mulheres em paz com suas decisões contam, aqui, as suas histórias.

Ainda na maternidade, logo após ter dado à luz, Fernanda Matos, 35 anos, segurou a filha Luana, agora com 5 anos, nos braços e fez uma promessa: "Eu vou estar presente na sua vida em todos os momentos". A transformação que o bebê trouxe confirma que ela não disse isso apenas no calor de ver o rosto da criança. Como todas as decisões em sua história, a de ser mãe foi pensada, bem como a escolha de direcionar a maior parte da sua rotina à maternidade.

"Não crio os meus filhos no devaneio de que tudo será sempre lindo, que ser mãe é algo que a sociedade exige da mulher etc. Tive a Luana e o Guilherme, hoje com 10 meses, porque quis tê-los, sabendo de todas as responsabilidades que isso traria", explica. Ela conta que veio de uma família muito tradicional nesse aspecto: pais que passaram pelo namoro, noivado, casamento na igreja e estão juntos até hoje. Buscou uma trajetória idêntica. Quando começou a namorar o marido, no fim da faculdade, descobriu nele alguém com os mesmos anseios. "Ficamos casados três anos antes de termos a Luana. Na primeira tentativa, já engravidei."

À época funcionária de uma empresa de telefonia e professora particular, trabalhava das 8h às 20h, todos os dias. Ao saber da gravidez, abandonou o primeiro emprego, já que estava ganhando o suficiente com as aulas. Durante os primeiros seis meses, cuidou exclusivamente do bebê. Mas, aos poucos, começou a receber os alunos em casa. "Ela ficava no berço, quietinha, ou dormindo. Mas, como nunca tive babá ou diarista, diminuí muito o meu ritmo de trabalho, para ficar mais com eles. Mesmo com as avós, deixo pouco."

Quando precisa se ausentar, o marido, que é empresário e tem uma rotina mais flexível, toma conta das crianças. Apesar de se manter sempre perto dos filhos, Fernanda os cria para que eles sejam independentes. Sua presença, esclarece, é muito mais para mostrar que eles podem recorrer à mãe a qualquer momento. "Eu gosto de usar essa frase: ;Dê asas para eles voarem e raízes para onde voltar;. Talvez eu possa não ter como deixar uma fortuna financeira, mas os valores familiares nos quais acredito, com certeza. Quero que eles se lembrem da mãe sempre junto."

Ela lembra de uma vez quando, em uma festinha da escola homenageando a família, uma das crianças entregou um coração de papel à babá, no lugar da mãe. Para ela, isso só reforçou a necessidade de dedicar sua vida aos filhos. "Essa minha visão da maternidade me faz entender completamente as mulheres que não desejam ser mães. Aliás, eu as apoio. Se você não quer ter filhos, não deve tê-los, porque mães não podem ter preguiça."

Leia a reportagem completa na edição n; 417 da Revista do Correio.