Só quem já tentou organizar uma festa sabe o trabalho que dá. É preciso pensar nos comes e bebes, na acomodação dos convidados, na música e em vários outros detalhes cruciais para que o evento dê certo. Imagine agora ter que planejar um evento para autoridades, como chefes de Estado, ministros e governadores. Há sete anos como chefe do cerimonial do governo do Estado de São Paulo, essa é a rotina de Cláudia Matarazzo, jornalista e especialista em etiqueta e comportamento. Mas, como se pode imaginar, nem tudo é glamour. Os perrengues da vida como cerimonialista deram origem ao livro Gafes no Palácio ; Micos e saias justas nos bastidores do poder (Editora Planeta), lançado em Brasília em 3 de maio. Na obra, Matarazzo conta algumas histórias e curiosidades dos bastidores dos eventos políticos.

Existe um protocolo de comportamento em eventos sociais políticos?
Quando as autoridades vêm de fora, como no caso de visitas de chefes de Estado, fazemos uma fila de cumprimentos para apresentarmos as autoridades ao prefeito, ao presidente da assembleia, aos chefes das três armas etc. O protocolo é internacional, mas os governadores (José Serra e Geraldo Alckmin) tinham dificuldade em incorporá-lo. Eles diziam que não precisava dessa fila, mas avisamos que os convidados se sentiriam desprestigiados. O subtexto disso é: "Estou te recebendo e meus comandantes estão às suas ordens". Se você pula essa parte, o convidado pensa que é menor. Há situações específicas, a depender do evento público, mas não se pode inventar ou alterar a ordem das coisas. Os protocolos são muito parecidos no mundo todo, até para as pessoas não se perderem.
Mas esses protocolos mudam de acordo com o local do evento?
A base, a espinha dorsal, é sempre a mesma. Até porque esse protocolo é regido por um decreto federal, que tem correspondente estadual e municipal. Fui à posse da presidente Dilma, acompanhando o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Nesse caso, por exemplo, quem manda no evento é o cerimonial do Palácio do Planalto. Fazemos algumas reuniões com eles para combinar algumas coisas, mas a palavra final é sempre deles.
Por serem pessoas de maior visibilidade, os políticos devem tomar cuidado extra para não dar vexame. Quais são as consequências de um mau comportamento social?
Qualquer gafe é complicada, mas o importante é como o cerimonial a administra. No primeiro evento da Dilma no Palácio dos Bandeirantes, a gente queria que tudo corresse bem, planejamos e tivemos dois dias para organizar um evento com mil pessoas. Tinha uma banda do Corpo Estável de São Paulo e eles deixaram o microfone aberto. O auditório já estava lotado, a sorte é que a presidente e o governador Serra ainda não tinham descido. Mas todo mundo estava lá e, de repente, ouvimos a conversa: "Nosso salário está ruim, os governantes não nos pagam". Começou uma discussão sobre isso, e a gente não sabia de onde o som estava vindo. Levamos uns sete minutos para descobrir que era o microfone do palco que estava aberto. Mas os ministros já tinham ouvido tudo, alguns já estavam rindo, fazendo piada. Suei frio. É claro que, se alguma coisa der errado, a culpa vai para os políticos. Afinal, é a imagem deles que está em jogo.
Você chegou a presenciar algum tipo de hostilidade ou desconforto causado pelo não cumprimento de regras sociais?
Não chegou a ser uma hostilidade, mas teve um dia que, para mim, foi um dos mais difíceis desses sete anos. Estávamos organizando uma recepção para o príncipe herdeiro do Japão. O governador de São Paulo estava no Japão, chegaria de viagem no dia do jantar. A pessoa que estava com ele lá começou a, literalmente, infernizá-lo, falando que o jantar estava grande demais. Mas a colônia japonesa estava esperando por esse jantar. Eu e o governador estávamos nos comunicando por e-mail, e ele começou a me mandar mensagens dizendo que queria que eu diminuísse o número de convidados para 50 pessoas e eu havia convidado 300. Mandei um e-mail, dizendo que não desconvidaria ninguém, que poderia até não fazer mais parte da equipe, mas que fazer isso seria manchar a imagem dele. Ele chegou ao Brasil, o jantar ocorreu, deu tudo certo. Quando o evento acabou, pensei que, no outro dia, já não teria mais trabalho, porque fui bem dura no e-mail. No fim, ele me chamou e disse: "Estava tudo muito bom, obrigado". Tem horas que você tem que bater na mesa.
Como foi aquele episódio do encontro do ex-presidente Lula com o papa Bento XVI?
O Lula é muito efusivo, mas todo mundo ficou tenso quando ele puxou o papa pela capa. E o cerimonial do Vaticano tinha dito para ninguém usar vermelho porque é a cor do papa. Quando se usa vermelho na presença dele, é como se as pessoas estivessem se colocando em pé de igualdade. No evento, tanto o Lula quanto o Serra e o curador da exposição estavam de gravata vermelha. O cerimonialista me perguntou se estávamos de brincadeira, mas contornei e disse que era uma homenagem. São coisas que acontecem.
Você chegou a trabalhar com algum político que tenha sido especialmente relutante em seguir etiquetas sociais que eventos desse porte demandam?
Quando eles chegam ao nível de se tornarem governadores, por exemplo, já têm traquejo. Eles entendem que é necessário seguir as orientações, então, não questionam. Se chegam a questionar, o fazem privadamente. Quando estão começando (a vida política), eles ainda não entendem, porque ainda não têm essa prática protocolar. Mas vão adquirindo. Eles não recebem nenhum tipo de treinamento, vamos orientando no dia a dia. Alguns são mais receptivos, gostam de se inteirar mais, outros só recebem as orientações necessárias para o evento específico e pronto.
O que é indispensável providenciar em eventos públicos?
Uma coisa que é importante é o receptivo. Não basta ter um batalhão de recepcionistas, tem que ter cerimonialistas que entendam quem são os convidados. O cerimonialista vai passar para o palco quem é autoridade para que o resto da equipe possa acomodá-los em lugares definidos. O receptivo tem que estar conectado, porque tem que ser rápido, não pode conferir lista em um evento de 3 mil pessoas. É preciso ter pessoas que saibam operar tablets e que saibam identificar quem é quem, para que o receptivo organize a entrada. Um evento que faz fila na entrada certamente está desorganizado do lado de dentro. Respeitar o timing é importante, não pode começar a atrasar. Evento bom é o que tem menos de uma hora, entre entrar, falar, sentar e ir embora. Não pode ter oito falas de 20 minutos cada uma, porque acaba o evento. As pessoas começam a falar no meio e se dispersam.
Qual foi a maior dificuldade que você enfrentou como cerimonialista?
Às vezes, as autoridades pedem mudanças. Quando dá, a gente muda. Na visita do papa Bento XVI a São Paulo, havia um encontro previsto entre e o José Serra. Planejamos esse momento por oito meses com o cerimonial do Vaticano. O combinado era que eles se encontrariam no segundo andar para uma reunião privada, o papa desceria para o térreo e, de lá, ia embora. Os cardeais ficariam no primeiro andar, para uma exposição de arte sacra. Quando o papa chegou e desceu do carro, o Serra disse que queria que o papa visse a exposição. Tivemos 20 minutos para negociar isso com o cerimonial do Vaticano. A sorte é que eles eram simpáticos, mas foi um transtorno. Muitas vezes, temos que contar com a sorte e com a boa vontade dos outros organizadores.
Existe alguma regra de etiqueta que já tenha ficado obsoleta nesses eventos sociais?
O próprio decreto que rege esses protocolos federais, regionais e estaduais é de 1970. Agora, finalmente, poderemos mexer nisso. Foi autorizada uma lei para atualizar esse decreto. Recentemente, aconteceu um congresso de cerimonialistas em que se criou uma comissão para atualizá-lo. São detalhes pequenos, mas que precisam ser mudados. Os batedores, por exemplo, serão disponibilizados de acordo com cada caso. Os batedores são uma honra militar. Quando um chefe de Estado visita o país, oferecemos uma escolta para facilitar o trajeto pela cidade. Com o comboio militar, conseguimos abrir o trânsito e proteger os carros. Mas isso é só para chefes de Estado e ministros que representam o país, e, às vezes, as pessoas não entendem isso. Eles acham que qualquer ministro tem direito, mas há ministros chegando o tempo inteiro. Não teríamos nem tropa para atender a todos. Cabe ao chefe do cerimonial avaliar isso.
Como é a experiência de organizar eventos em que autoridades de costumes diferentes se encontrarão? É preciso orientar os convidados sobre os costumes vigentes?
Às vezes, acontece de um ou outro político não ter tanta familiaridade com o protocolo internacional, então, eles precisam de uma assessoria maior, porque cada cultura pede um tipo de comportamento. A cultura árabe e a japonesa, por exemplo, têm algumas peculiaridades. Primeiro, fazemos reuniões com a equipe do local que será visitado, um mês antes. Fazemos de uma a três reuniões em que as equipes conversam, combinam o roteiro de qual caminho será percorrido, tudo bem detalhado. Quando chega o governador ou o presidente, isso está bem mastigado. Durante a visita de um vice-primeiro ministro de Israel, houve uma audiência com o Serra. Recebi o convidado na porta. Ele chegou, desceu do carro e eu estendi a mão a ele, que ficou horrorizado. Ele era judeu ortodoxo e não podia dar a mão a ninguém. Parecem coisas insignificantes, mas não são.